
‘Escrever é afirmar que nossas experiências importam’, diz Danielle Freiras, autora de ‘Asfixia’
Em entrevista à revista O Odisseu, Danielle Freitas, autora de ‘Asfixia’, fala como se reconhece na linhagem de mulheres que escrevem contra a opressão de gênero.
As recentes cenas de horror contra as mulheres acendeu no Brasil um alerta quanto a um problema que nunca parou de acontecer (embora possa ter se parado de falar): o machismo e a misoginia matam todos os dias. Por debaixo do pano da “normalidade”, são muitos os casos de violência, sobretudo no âmbito doméstico, que acontecem sem que ninguém perceba (ou queira perceber). Tenho me perguntado muito aquilo que a arte, em especial a literatura, pode fazer diante dessa hecatombe. Foi nesse contexto que li “Asfixia”, livro de poemas de Danielle Freitas que sai pela editora Patuá e que pode chocar pelas gráficas imagens de violência.
na desgraça da carnificina
alma exangue, oprimida
aterrorizada pelo prazer:
do pai, do irmão, do marido
do tio, namorado ou amigo
do médico, do policial
à tarde, à noite ou de dia
em casa ou no hospital.
em praça pública ou no
beco escuro e vazio
a qualquer hora
em qualquer lugar
por qualquer macho
no cio
Trecho do poema Carnificina, de Danielle Freitas
A poeta não nos esconde coisa alguma. Em “Asfixia”, Freitas joga luz onde a sociedade insiste em manter de luz apagada. Faz isso, no entanto, sem deixar de lado o trabalho com a linguagem. Pelo contrário! Um dos fatos mais surpreendentes no livro é a maturidade poética de Danielle Freitas que acaba de estrear. Na entrevista, ela explica que escreve poesia há muito tempo, mesmo antes de pensar em publicar.
Também demonstra maturidade ao responder às perguntas da entrevista que você confere agora. O que vemos, portanto, é uma poeta muito consciente dos recursos que a linguagem dispõe para causar espanto e reflexão. Seu livro nos toma pela mão para um passeio por lugares ermos e escuros, lugares incômodos. O leitor, então, ao mesmo tempo que se espanta, se intriga e se revolta. Fato é que não se pode sair ileso de uma leitura de “Asfixia”, de Danielle Freitas.
Confira a seguir agora a entrevista, na qual Danielle assume, de forma enfática e sem vergonha, que a sua poesia é, sim, feminista e como ela não tem medo do rótulo, mas sim o utiliza como uma forma de reforçar o seu caráter revolucionário. Como ela mesma dirá, “a linguagem não é neutra”, mas a grande questão é que apenas alguns assumem os seus viéses.
Acompanhe!
‘Não hesito diante do termo feminista’, diz Danielle Freitas, autora de ‘Asfixia’
Ewerton: No livro, você abre diálogo com diversas outras escritoras/poetas que estão no cânone da literatura feminista: Pizarnik, Hilda Hilst, Wislawa Szymborska, entre outras. Dito isso, você consideraria a sua poesia também uma poesia feminista?
Danielle: Sim, considero. Apesar de fugir de algumas certezas, não hesito diante do termo feminista, como se ele diminuísse a complexidade da obra, porque para mim não diminui. Penso o texto como uma fotografia: um close, uma cena. Aquilo que escolhemos iluminar revela muito de quem escreve e não há como escapar disso. E mesmo não escrevendo para cumprir uma agenda, pois creio que a poesia reside no mistério, na descoberta e no não-dito, nesse processo de invenção que acontece enquanto escrevemos. Eu nasci em um corpo de mulher, e a experiência de ser mulher no Brasil e no mundo é marcada por desigualdades, interrupções e violências. Escrevo a partir desse lugar situado, dessa história concreta, e isso inevitavelmente marca a forma e o gesto da escrita. Eu me reconheço numa linhagem de mulheres que escreveram apesar das condições adversas, e minha poesia dialoga com essas vozes que ampliaram meu horizonte.
Também recuso a defesa de uma língua imaculada, de um modo correto e acabado de escrever. Prefiro o suspenso, o jorro, a dúvida. E não se pode negar o poder que opera na educação, na cultura e na própria literatura. Ele molda narrativas e também é moldado por elas. Escrever, então, é sempre escolher: ou respondemos a esse poder, ou consentimos com ele.

Ewerton: Fiquei impressionado por este ser um livro de estreia, dada a consistência do trabalho e também das imagens poéticas. Conta um pouco da descoberta da poesia em sua vida e também da escrita de ‘asfixia’.
Danielle: Obrigada! A consistência talvez venha do trabalho contínuo e conjunto de preparação, edição e revisão. A gente se cansa da própria palavra, então outros olhares são essenciais. Escrevo há muitos anos, muito antes de pensar em publicar. Curiosamente, nem sempre fui a leitora assídua que as pessoas imaginam quando pensam em alguém que escreve. Vinda de escola pública, a poesia entrou na minha vida pelo que aparecia na biblioteca e nos livros didáticos. Fui marcada primeiramente por autores homens, especialmente Drummond e Ferreira Gullar (meu xodó), que são referências importantíssimas para mim até hoje, além de uma fase em que eu adorava o Bukowski, a clássica referência do “esquerdomacho”, que me parecia transgressor naquele momento. Só com o tempo fui aprendendo a dimensão política disso, com o feminismo.
Asfixia, no entanto, nasceu além de leituras e pesquisa do processo de intensificação do adoecimento e perda da minha mãe, embora o livro não seja sobre isso. Nos últimos anos tive uma rotina intensa de hospital, acompanhando minha mãe, e foi nesse período que comecei a escrever o livro. Muitos poemas foram escritos nas noites em claro, no bloco de notas do celular. Na pandemia, o título apareceu e, somente em 2023, comecei a organizar o material. Logo percebi que havia dois livros ali: um mais visceral e outro mais simbólico. Mantive o primeiro; o segundo ainda virá.
O hospital foi um espaço que me marcou profundamente. Ali ouvi e vi muita coisa: relatos de violências vividas por mulheres internadas, homens presos que chegavam espancados ou cumprindo pena por agressões contra crianças e mulheres, motociclistas acidentados com fraturas expostas e, ao mesmo tempo, a triste constatação de que a maioria dos acompanhantes, assim como eu e minhas irmãs, também eram mulheres. No fim, a poesia virou um modo de ordenar o caos. Asfixia nasce desse incômodo, de perceber como a violência atravessa o cotidiano das mulheres ao meu redor e o meu também.
Ewerton: Ainda sobre o viés feminista no livro, você também afirma que, ao escrever, realiza um ato político contra o silenciamento. Em tempos em que se questiona muito a validade de uma literatura dita “engajada”, qual a importância de usar o espaço da escrita para romper esses silêncios?
Danielle: Eu não acredito na neutralidade da linguagem. Toda escrita, mesmo a que se diz despolitizada, está permeada por escolhas, omissões e por uma visão de mundo. Em um país onde mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e tantas outras existências são silenciadas de forma sistemática, escrever já é um deslocamento, é luta por espaço.
Quando digo que escrevo contra o silenciamento, é uma constatação. A noção de “literatura engajada” costuma funcionar como um rótulo para deslegitimar qualquer escrita que não parta do ponto de vista considerado “universal”, que quase sempre é masculino, branco, eurocêntrico e hegemônico. Como se esse lugar não fosse também um ponto de vista. É uma estratégia para nos paralisar e nos manter à margem.A importância de usar a escrita para romper silêncios está justamente nisso: escrever é afirmar que nossas experiências importam e merecem existir no espaço público.
A escrita permite produzir memória, tensionar normas e abrir caminhos para outras subjetividades. Por isso, não temo esses rótulos; escrevo com eles e através deles. O espaço da escrita que me interessa é o que recusa o conforto da inércia e insiste em existir apesar das estruturas que tentam nos relegar ao esquecimento.
“Autoras como Jarid Arraes e Adelaide Ivánova e tantas outras abriram caminhos importantes ao tensionar o que entendemos como tradição e ao reivindicar espaços que antes eram negados”, diz Danielle Freitas
Ewerton: Há no livro uma brutalidade impressionante e muitas imagens de violência. Qual a função da violência em sua lírica?
Danielle: Na minha escrita, a violência não cumpre função ornamental nem busca produzir espetáculo. Tem protagonismo mas não é personagem principal. Ela irrompe porque está inscrita no mundo e, no Brasil, especialmente no Nordeste, no Maranhão onde nasci e vivo, atravessa o cotidiano de ser mulher. Não escrevo para replicar o horror, mas para expor seus mecanismos, para retirar o véu que costuma encobrir aquilo que, de tão naturalizado, já quase não vemos.
Sabemos que a violência não é exclusividade da espécie humana; outras formas de vida também manifestam agressividade. Mas, entre nós, há intenção, há projeto, há benefício. Quando certas opressões persistem, sobretudo aquelas dirigidas às mulheres e às chamadas maiorias minorizadas, é porque um sistema inteiro se sustenta sobre essas feridas. É essa violência específica, organizada e histórica que me interessa como matéria poética.
Ewerton: Para além do caráter político do livro, também há a presença de uma subjetividade da poeta mulher na escrita deste livro. Aqui e ali encontramos poemas que parecem confessionais. Acredito que não vale a pena entrar no campo da ‘autobiografia’, mas gostaria de perguntar se você acredita que a poesia e a literatura também podem fornecer cura a quem escreve. Como foi com você?
Danielle: Acredito que toda escrita, mesmo quando toca o autobiográfico, é sempre ficcionada. Existe sempre um filtro: decidimos o que lembrar, o que registrar, o que omitir. As experiências que vivemos ou ouvimos são reelaboradas pela nossa visão de mundo. Octavio Paz diz que “o poeta cria realidades que possuem uma verdade, e essa verdade é a nossa própria existência”. Concordo profundamente.
Tenho cautela com a palavra “cura”, porque ela sugere fechamento, e a poesia, para mim, aponta justamente para o contrário: abertura. O que posso afirmar é que escrever me permitiu reconhecer dores que eu mesma não sabia nomear. Há nisso uma forma de elaboração que não considero terapêutica, mas existencial. A literatura nos oferece companhia; lembra que não estamos sozinhos, que nossas dores não são maiores nem mais importantes do que as de ninguém, que não somos o centro do mundo. A poesia não me cura, mas me entrega uma lente mais límpida para olhar ao redor. Ela me devolve sensibilidade para me espantar com o mínimo e me convoca a prestar atenção. Quando me concentro no rigor e na honestidade que a literatura exige, começo também a olhar a vida de um outro modo. Talvez esse gesto de atenção já seja, por si só, uma forma de continuar.
Ewerton: Você não apenas cita as grandes escritoras canônicas mencionadas, mas também as contemporâneas, como Jarid Arraes e a Adelaide Ivánova. Como você tem visto o cenário da poesia contemporânea escrita por mulheres?
Danielle: Acho um dos momentos mais vibrantes das últimas décadas. Há multiplicidade de vozes, de experimentações, de temas, de corpos escrevendo. Autoras como Jarid Arraes e Adelaide Ivánova e tantas outras abriram caminhos importantes ao tensionar o que entendemos como tradição e ao reivindicar espaços que antes eram negados. Há potência, coragem e um compromisso ético e estético muito forte. É um campo vivo, em disputa, e eu me sinto muito feliz de poder publicar nesse momento.
Ewerton: Há quase 100 anos, Virginia Woolf escreveu o maravilhoso ensaio feminista ‘Um teto todo seu’, que fala como as mulheres foram silenciadas sistematicamente na escrita. décadas depois, podemos dizer que as coisas ainda não estão como gostaríamos. A partir da sua própria experiência, como você vê o cenário da mulher que escreve poesia hoje. Quais os principais desafios?
Danielle: A referência a Virginia Woolf me toca profundamente, porque Um teto todo seu se tornou um marco para este novo movimento de mulheres que escrevem e querem ser lidas ainda vivas, como os clubes de leitura, os coletivos de escritoras e as redes de apoio às produções independentes. De certa forma, também sou cria desse movimento.
Avançamos muito, sem dúvida. Mas ainda habitamos um campo literário onde a autoria feminina é frequentemente tratada como menor, como se fosse sempre escrita do sensível, do íntimo, do frágil. Existe uma recusa persistente em reconhecer que mulheres também disputam complexidade, forma, pensamento e experimentação. Para mim, o grande desafio é existir para além do estereótipo, publicar, circular, ser lida sem que reduzam nossa poesia à biografia, ao regional ou à ideia de que mulheres escrevem só para mulheres.
Continuamos enfrentando a falta de tempo, de reconhecimento e de espaço institucional. São obstáculos que Virginia Woolf nomeou há quase um século e que, mesmo transformados, ainda permanecem. Por isso costumo dizer que escrever, sendo mulher, continua sendo um gesto de insistência: insistência em existir, em ocupar a linguagem, em não desaparecer.
Na minha experiência, existe também o desafio territorial e social. Mesmo com a ampliação dos espaços, viver em São Luís significa enfrentar uma circulação literária desigual. A maior parte dos editais, eventos e oportunidades ainda se concentra no Sul e Sudeste, quase sempre a um custo alto. A internet encurta algumas distâncias e cria novas possibilidades, mas também impõe outros obstáculos e não dissolve as barreiras estruturais que definem quem pode ocupar certos lugares. Ainda assim, seguimos escrevendo, e talvez essa persistência coletiva seja justamente a prova de que a literatura se expande porque não desistimos de habitá-la.

“A poesia pode oferecer linguagem ao indizível”
Ewerton: Um fator chama bastante atenção, que é o fato da voz poética evocar inúmeras violências sofridas por mulheres no Brasil e no mundo. Isso dá ao seu livro o caráter múltiplo. Como escrever é se colocar no lugar da outra ou em que medida essa outra também é você?
Danielle: Eu não parto da ideia de falar pelo outro, mas de reconhecer que nossas experiências se tocam. A violência contra mulheres é estrutural, e nela há uma dimensão compartilhada, ainda que cada vivência seja singular. Quando escrevo, não busco ocupar o lugar de outra mulher; busco criar um espaço onde essa dor coletiva possa aparecer sem ser reduzida a estatística. A outra sou eu na medida em que somos atravessadas pelo mesmo sistema de opressão, mas também é alguém distinto, cuja singularidade deve ser respeitada. A escrita é a tentativa de fazer esse elo sem usurpar a voz alheia.
Ewerton: Para terminar, o que pode a poesia diante do horror da vida sob o jugo do patriarcado?
Danielle: A poesia pode oferecer linguagem ao indizível e, ao fazer isso, cria fissuras, pequenas brechas onde certas dores e experiências finalmente encontram espaço para existir. Vejo a poesia como um território dialógico, onde perspectivas múltiplas se encostam sem se anular. É um espaço de liberdade e de assombro, de reinvenção das formas e dos conteúdos, e sobretudo um espaço de questionamento. E o patriarcado teme exatamente isso: a pergunta que não se dobra, a linguagem que não aceita ser obediente. A poesia não resolve o horror, não desfaz a violência estrutural nem nos protege dela. Mas talvez seja justamente isso que ela pode diante do patriarcado: criar uma linguagem que não se submete, que insiste em existir.
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Asfixia, de Danielle Freitas
Editora Patuá,
2025.



