
Escrever a esperança é um ato radical — e imaginar o futuro é um ato de desobediência
Literatura, ficção científica e a insistência de continuar esperando.
Por Danilo Heitor.
Arte: ‘Floresta’, de Jaider Esbell.
e temos, ó amigo
uma esperança que floresce — apesar dos espinhos — por todos os caminhos
uma esperança, lírio de sangue dos meus e de meus companheiros
(Samih Al Qassim, carta que talvez chegue ao poete soviético Eugênio Evtuchenko)
Em uma época de pleno avanço do conservadorismo e da extrema-direita, acompanhar as notícias pode significar uma sentença de paralisia, emocional, social, política. Nesses momentos, ter esperança parece algo inócuo, senão egoísta: tudo está em chamas, que direito eu tenho de desejar um futuro melhor?
Esse sentimento não só me é comum como, em vários momentos da vida, foi constante. Em todas as vezes, sempre, alguma coisa aconteceu pra me mostrar que a única saída possível durante a barbárie passa pela esperança. Vou contar duas dessas vezes.
Quando eu ainda era adolescente, conheci a causa palestina. Primeiro nas aulas de geografia do ensino médio, depois, com mais intensidade, nos movimentos punk e anarquista. Não era um momento em que o genocídio em Gaza proporcionava uma obscenidade de imagens, como hoje, mas o tamanho do massacre imposto ao povo palestino já era plenamente compreensível. Em meio ao desalento, descobri algo que, a princípio, não fez sentido, mas depois despertou toda uma gama de sentimentos de enfrentamento, luta e esperança: o livro “Poesia palestina de combate”. Nele, a irredutibilidade do levante palestino por dignidade e justiça ganhava palavras, rimas, cenas, escritas por diferentes autorias palestinas, algumas livres, outras presas, outras mortas. As imagens famosas de crianças portando estilingues contra tanques de guerras foram ali preenchidas por palavras adultas, de raiva, indignação e desejo. Ao ler o livro, duas coisas aconteceram: primeiro, escolhi um dos poemas para servir de letra para a minha banda; segundo, entendi que, mesmo no meio de uma guerra, constante, injusta e desigual, as palavras importam. A esperança importa.
Mais de uma década depois, eu estava cansado. Porque se movimentar cansa, em todos os sentidos. O ano era 2013, a Copa do Mundo se aproximava, e com ela diversas violências que os movimentos sociais urbanos, dos quais eu fazia parte, pareciam incapazes de interromper. Em uma dessas situações inesperadas que a vida nos proporciona, recebi por email um pedido de hospedagem de três jovens alemãs, que vinham ao Brasil investigar justamente os impactos da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Eram estudantes universitárias, um pouco mais jovens que eu, e fariam um trabalho de fotojornalismo. Resolvi recebê-las, mas avisei logo de cara que eu não tinha muita esperança de apresentar a elas qualquer coisa que não fosse uma confirmação das violências todas. E saímos por São Paulo visitando comunidades vulneráveis, nas bordas da cidade e da Copa.
Em uma delas, conheci Geílson, morador da comunidade do Buraco Quente, que seria demolida para a Copa. Entre as casas já parcialmente postas abaixo, Gerê, como era conhecido, era cumprimentado por todos que ainda insistiam em se manter no lugar que habitaram por mais de 40 anos. Era uma liderança, jovem, cheia de energia e de presença. Durante as conversas com as alemãs, ao responder o que esperavam daquela luta, Geílson disse uma frase que nunca mais me abandonou: “no mínimo, queremos o máximo”.
Transformei aquela conversa em crônica, depois publicada e republicada em alguns lugares. Era a minha forma de construir esperança em forma de palavras. E deixei de lado o desânimo que me abatia antes da chegada das alemãs. A Copa aconteceu, mas a comunidade do Buraco Quente, e algumas outras, conseguiu arrancar alguns direitos — menos que o máximo pretendido, é verdade.
A ficção como uma alternativa ao absurdo
Se observarmos a história contemporânea, perceberemos rapidamente que a literatura, e a arte em geral, sempre foi um canal importante de esperança contra os absurdos do mundo. Em vários casos, a ficção científica foi a representante desse processo. Ursula K. Le Guin, premiada autora americana, imaginou um planeta em que as pessoas não têm gênero, ainda na década de 1960; hoje, a discussão sobre cisgeneridade e colonização dos corpos é uma realidade. Le Guin também imaginou, na década seguinte, outro planeta, em que não existia propriedade privada, fronteiras ou trabalho forçado; em 1994, os zapatistas levantaram-se e tomaram de volta o poder sobre seu território, transformado em comuna. Hoje, o afrofuturismo imagina mundos em que a história, os valores e as cosmovisões dos povos negros espalhados pelo planeta se transformaram em realidade comum, e as palavras de lideraças quilombolas e indígenas, como Nego Bispo e Alton Krenak, repercutem entre aqueles que desejam futuros melhores.
O que seria isso senão esperança?
As palavras, escritas ou não, são capazes de imaginar outros mundos. Escrevo desde que me entendo como gente, embora tenha me tornado um autor publicado só em 2021. A ficção científica é, para mim, um campo fértil para projetar os sonhos. Os que tenho durante a noite e os que visito acordado. Nos meus primeiros livros do gênero, prevaleceu a distopia, ainda que com alguns elementos utópicos. Hoje, a chavinha virou: criar futuros melhores, especular sobre eles, escrevê-los, é, para mim, a forma mais radical que conheço de exercitar a esperança. Nela, para além da barbárie, estão outras vidas, outras possibilidades, outras formas de existir, todas possíveis por não conhecerem o impossível. Por isso os contos finais de “Quase agora”, meu último livro, são utopias; por isso “Projeto Futuro”, o último, discute a necessidade de enfrentar o passado para melhorar o futuro; por isso, nos últimos dois anos, publiquei dois contos que se passam no Território Autônomo de Liberdade, palco do meu próximo livro — se tudo der certo.
Vai dar. Tenho esperança. Tenhamos.
Com ela, é possível flertar com o máximo — aquele que se anuncia quando enxergamos o horizonte do mínimo.

Danilo Heitor é professor de Geografia, escritor e editor. Nascido e criado em São Paulo, formou-se em Geografia pela USP em 2009 e atua há mais de 15 anos em educação, com passagem por redes públicas e privadas, editoras e projetos comunitários. É autor de três livros de ficção científica e foi finalista do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica em 2024 e 2025. Também co-organizou o festival literário Relampeio e tem a sua própria editora, a País Nenhum, focada em ficção especulativa do Sul global. “Quase agora” (Editora Folheando, 2024) e “Projeto Futuro” (2025) são seus livros mais recentes.
