
Em sua 3ª edição, Fliparacatu celebra a diversidade sob o signo da encruzilhada
Com o tema “Literatura, Encruzilhada e a Desumanização”, o Festival Literário Internacional de Paracatu conta com a participação de mais de 60 autores e autoras.
Postado originalmente em 27 de agosto de 2025
Foto de capa: Gui Silva Martins/ Divulgação
Criado em 2023 pelo empreendedor cultural Afonso Borges, o Festival Literário Internacional de Paracatu soma-se ao circuito de eventos literários nacionais que, a despeito da má fama do nosso país quanto a hábitos de leitura, movimentam verdadeiras multidões ao longo de dias repletos de atrações culturais e conversas entusiasmadas sobre o universo da literatura. Localizada na região noroeste do estado de Minas Gerais, a cidade de Paracatu tem, entre 27 e 31 de agosto, seu Centro Histórico tomado por um público diversificado que se divide entre mesas de debate, lançamentos de livros, oficinas, exposições artísticas e apresentações musicais. A vasta programação, distribuída ao longo dos cinco dias de festival, começa ainda cedo, às 8h30 desta quarta-feira, e se estende até as 16h00 no domingo. Como costumeiro, o tema-conceito escolhido – Literatura, Encruzilhada e a Desumanização” – é atual e convida os leitores ao debate público e ao pensamento crítico. Trata-se de uma junção de conceitos inspirados pela obra dos autores homenageados, a brasileira Ana Maria Gonçalves, e o português Valter Hugo Mãe.
O festival conta com a curadoria de Bianca Santana, Jeferson Tenório e Sérgio Abranches, todos escritores com reconhecida contribuição no campo, além de possuírem uma sólida formação acadêmica. Ainda fazem parte do time Leo Cunha, à frente da programação infanto-juvenil, e Dani Prado, responsável pela programação local. A atuação destes dois últimos, inclusive, revela uma importante faceta do festival: a preocupação em proporcionar aos menores uma experiência tão rica quanto aquela destinada aos adultos, e ainda, o compromisso em valorizar a cultura local trazendo para o diálogo escritores, professores, produtores culturais, dentre outros profissionais da cultura e da educação cuja atuação está mais diretamente ligada à cidade. Ainda nesse sentido, a edição traz como novidade a área “Fliparacatu da Gente”, voltada à economia criativa do município, permitindo assim que empreendedores da cultura paracatuenses possam apresentar seu trabalho dentro do festival.

“No Fliparacatu, Encruzilhada indica vivermos um tempo de mudanças, que exigem de nós escolhas sem preconceito para construirmos um futuro no qual todos os brasileiros tenham os mesmos direitos e as mesmas oportunidades.”
– Sérgio Abranches
Curador no festival, Abranches comenta sobre a inclusão do público jovem-adulto, sobre a identidade diversa que pode ser percebida no evento e também sobre o tema escolhido: “Este ano estamos apresentando sessões com autores como Igor Pires que atende ao público jovem-adulto, de 14 a 18 anos. Esperamos ampliar o leque de autores nesta faixa, a que mais vende livros hoje no Brasil. Para o público infantil, sempre trazemos autores de livros infantis e encorajamos os professores a darem seus livros para os alunos lerem e poderem interagir mais com os autores. A programação infanto-juvenil não segue o tema do festival, pensado para as mesas de autores para o público geral. Nossos festivais têm uma forte identidade porque têm participação igualitária por gênero e cor e participação de autores indígenas. A natureza multiétnica e pluralista dos festivais é a base para a escolha dos temas escolhidos. No Fliparacatu, Encruzilhada indica vivermos um tempo de mudanças, que exigem de nós escolhas sem preconceito para construirmos um futuro no qual todos os brasileiros tenham os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Um futuro que enriqueça e valorize o humano, a humanidade, antes de tudo”.
O evento, embora de criação recente, já vem demonstrando um impacto positivo para Paracatu, repetindo o efeito observado em outras cidades que também passaram a sediar festivais literários idealizados por Borges, em Araxá (Fliaraxá, desde 2012), Itabira (Flitabira, desde 2021) e Petrópolis (Flipetrópolis, desde 2024). Sobre isso, Abranches destaca a comunicação estabelecida entre os festivais e suas respectivas cidades, valorizando a integração com os habitantes locais: “Nossos festivais ativam a economia local, contratando a maioria das pessoas da montagem e organização logística na cidade”, e comenta sobre alguns marcos da programação da Fliparacatu: “Nossa ‘Rua da Economia Criativa’ é dedicada exclusivamente a pequenos produtores locais. Temos uma programação regional. Valorizamos a história dos professores e professoras da cidade, com a exposição ‘Muros Invisíveis’. Trabalhamos com as escolas para estimular a leitura de autores de livros infantis e juvenis do festival. Fazemos um concurso de redações sobre o tema do festival, com prêmios em dinheiro e livros selecionados para os professores dos premiados. As redações estimulam a leitura e a escrita”.
Autores homenageados

Os homenageados deste ano chamam a atenção por terem origens geográficas e projetos literários distintos, mas se aproximam também por características em comum encontradas em suas obras. A temática que intitula um dos livros mais conhecidos do português Valter Hugo Mãe, A Desumanização (Biblioteca Azul, 2017), é também notada na obra da brasileira , Ana Maria Gonçalves, Um defeito de cor (Record, 2006). Gonçalves ficou ainda mais conhecida por ter, recentemente, sido eleita para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, tornando-se assim a primeira mulher negra a ocupar tal espaço. O livro supracitado foi base para o enredo de carnaval da escola de samba Portela, em 2024; atingiu pico de vendas e foi eleito pela Folha de S. Paulo como o romance brasileiro mais importante do século XXI. Mãe, por sua vez, é vencedor do Prêmio Literário José Saramago, uma das mais importantes distinções para a literatura em língua portuguesa. Também foi finalista do Prêmio Oceanos em 2015 exatamente com a obra anteriormente citada. Os dois escritores unem-se à Afonso Borges na sessão “Um defeito de desumanização”, que será realizada em 30 de agosto, às 21h00, e que promete ser um dos pontos altos da programação deste ano.
Outros nomes bastante populares que estarão presentes são Amara Moira, Andréa del Fuego, Carla Madeira, Fernanda Takai, Geni Nuñes, Marcelino Freire, Míriam Leitão, Calila das Mercês, Myriam Scotti, Natalia Timerman, e Zeca Camargo. Este último oferecerá uma oficina de escrita nos dias 29 e 30 de agosto, cujas vagas já estão esgotadas.
O festival conta com patrocínio da empresa Kinross, via Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, e conta também com o apoio cultural da Prefeitura de Paracatu, da Caixa e da Academia de Letras do Noroeste de Minas. A programação é gratuita, e conta com tradução simultânea em Libras. Para quem estiver em Paracatu nestes próximos dias, poderá aproveitar um festival inclusivo em uma típica cidade histórica mineira, uma experiência que promete ser bastante especial. Mas, para aqueles que não puderem estar presentes no local, a programação também será transmitida online pelo canal do evento no Youtube.






Fotografias: Gui Silva Martins, Bléia Campos, Aline Reis/ Divulgação
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