
Em encontro histórico, Dionne Brand e Christina Sharpe discutem como as artes negras ajudam a projetar futuros livres de opressão
Com mediação de Bia Ferreira, mesa de Dionne Brand e Christina Sharpe na FLUP 2025 mostrou que a produção artística negra vai além da expressão individual, mas que ela organiza experiências, cria redes de aprendizado e abre caminhos para modos de vida.
Cobertura de Samara Lima/ Fotos de Michelle Taucher (Divulgação – FLUP).
A mesa “Onde a vida não seja apenas possível”, mediada por Bia Ferreira e com a participação das escritoras Christina Sharpe e Dionne Brand, ofereceu uma reflexão profunda sobre a escrita, a criação artística e os modos como a experiência da negritude se inscreve no presente e projeta futuros possíveis.

“Estou sempre pensando sobre os modos como as pessoas negras existem no mundo, conhecem o mundo e como esse conhecer é muito desvalorizado”, diz Christina Sharpe na FLUP 2025
Sharpe destacou que seu trabalho se ancora em uma longa história de violência estrutural, evocando seu conceito de “wake” (rastro, vigília, esteira de navio), no qual a vida negra não existe fora da história da opressão, mas dentro dela, navegando nas correntes de injustiças herdadas: “O meu trabalho fala sobre viver na arquitetura do imperialismo e da escravidão do mercado escravo do transatlântico.” Compreender essa herança significa também reconhecer como a vida negra persiste e inventa mundos mesmo dentro de sistemas injustos, lembrando que a imaginação não é luxo, mas necessidade, pois é ela que nos permite a possibilidade de projeção para outro espaço que não o da exclusão: “Se você não imaginar, você não vai conseguir realizar. E não quer dizer que a imaginação é o bastante, nossa imaginação não realiza, mas se você não imaginar, certamente não vamos vivenciar aquilo.”
“Escrever é uma ação e um modo de fazer as coisas existirem, de fazer uma ideia existir. É um modo contra a opressão”, diz Dionne Brand na FLUP 2025
Dionne Brand, por sua vez, em determinado momento da conversa, trouxe à mesa a dimensão do corpo e do espaço, apontando que a criação artística se dá em contextos concretos, vivos. Ao falar da pista de dança, disse querer “descrever toda a emoção, toda a fisicalidade, todo o brilho, toda a alegria”, mostrando que os lugares onde a cultura negra floresce, na dança, na música, na literatura, são laboratórios de experiência, invenção e celebração. Brand também refletiu sobre a linguagem e a poesia como ferramentas de invenção de formas de expressão que escapam e “quebram” às estruturas de poder e sua tentativa constante de se abrir ao mundo e abarcar todas as trajetórias possíveis, em um gesto de esgarçamento do “eu” autobiográfico. É essa abertura que conecta o íntimo do criador ao coletivo, tornando o ato artístico simultaneamente particular e compartilhado: “Eu estou tentando desesperadamente abrir-me para o mundo, para os sentimentos, as circunstâncias, para as possibilidades em cada situação sobre a qual eu reflito.”

No penúltimo dia da FLUP, em Madureira, a cidade se faz sentir em cada canto, pois carros, motos, ônibus e até fogos de artifício se misturam às palavras e gestos que preenchem o espaço. O evento se revela pulsante, um terreno onde encontros, diálogos e experiências se entrelaçam. Sharpe e Brand lembram que ocasiões como essa permitem que ideias circulem e se transformem: “Encontrar pessoas que encontraram o meu trabalho é um presente”, disse Brand, enquanto Sharpe completou: “Quando nos reunimos assim, estamos construindo algo que chega ao mundo e produz alguma coisa.” A mesa mostrou então que a produção artística negra vai além da expressão individual; ela organiza experiências, cria redes de aprendizado e abre caminhos para modos de vida e percepção que se expandem para além do momento presente, atravessando o evento e se projetando no cotidiano de quem participa.

Samara Lima é doutoranda em literatura e cultura pela Universidade Federal da Bahia, instituição pela qual também é mestre e licenciada em letras (inglês). Integra o projeto de extensão Bordas da Imagem, vinculado à Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, coordenado pelo Prof. Dr. Eduardo Queiroga, e o grupo VISU – Laboratório de Práticas e Poéticas Visuais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenado pelo Prof. Dr. Daniel Meirinho. Como pesquisadora, seus interesses são: narrativas contemporâneas, inespecificidade, expansão dos campos artísticos do presente e a relação entre literatura e imagem fotográfica.
