Entrevistas

Do ordinário e do humano em “Pequeno Mapa do Tempo”, de Hellen Sousa

Foto: Divulgação

Em o “Pequeno Mapa do Tempo”, Hellen Sousa nos ensina a lidar com as rupturas ordinárias da vida.


Todos nós, em algum momento da vida, já estivemos diante da pergunta: o que há depois do fim? A morte, ou o que há depois dela, intriga a humanidade há décadas e movimenta as mais diversas áreas do conhecimento, incluindo a literatura.  

Em “O pequeno mapa do tempo”, Hellen Souza, de forma sensível e intensa, nos coloca diante desses questionamentos e elabora caminhos possíveis para lidar não apenas com a morte, mas com a saudade, o medo, as pequenas rupturas ordinárias das quais todos seremos vítimas em alguma parte do roteiro de nossas vidas.

Com dez contos repletos de intensidade, o livro de estreia de Hellen Souza, lançado pela Editora Urutau, é um bom exemplo de como as narrativas curtas podem ser tão profundas e inquietantes quanto um bom romance.

Em entrevista à revista Odisseu, Hellen fala dos desafios de escrever um livro e de enfrentar as curvas inesperadas da vida durante e após uma pandemia que abalou todas as estruturas conhecidas da sociedade.

CA: Pequeno mapa do tempo é sua estreia no universo literário. Quais os principais desafios que você enfrentou no processo de elaboração dos dez contos que compõem o livro?

HS: Os meus três principais desafios foram: primeiro, o trabalho de desapego do ego, de conseguir criar narradores autônomos, separados da minha voz pessoal; algo fundamental na ficção, mas difícil no início, quando confundimos verdade literária com minha verdade. O segundo foi manter essa autonomia mesmo nos contos de teor autoficcional. E o terceiro, talvez o mais árduo, foi literalizar a dor: sair do campo pessoal e alcançar o universal, principalmente em contos como No canto esquerdo do meu guarda-roupas e Não conte os mortos.

CA: A escrita em primeira pessoa pode ser, ao mesmo tempo, um grande desafio e um deleite. Por que você escolheu a primeira pessoa e como isso te ajudou na construção das histórias?

HS: Não houve uma escolha deliberada ou única. Meu processo é de experimentação: testo vozes e pessoas gramaticais até encontrar o tom que a história exige. Pequeno mapa do tempo nasceu em primeira pessoa, mas encontrou sua força na terceira. Um beijo se impôs com a objetividade da terceira pessoa, quase jornalística. Já em Não conte os mortos, a terceira pessoa foi essencial para criar a distância emocional da criança que não conseguia nomear seus medos. Só percebi essa variedade ao final, o que foi uma surpresa; talvez uma lição aprendida de Cortázar, cuja terceira pessoa muitas vezes tem a intimidade avassaladora de uma primeira.

CA: A pandemia causou dores irreparáveis em todos. Foi um momento em que estivemos tão perto da morte quanto nunca imaginávamos ou gostaríamos. Escrever um livro, em meio a esse processo traumático e dolorido, foi importante para manter a vida sobre os trilhos?

HS: Sim, e foi além: foi um exorcismo do luto. Não apenas o luto pela perda da minha mãe, mas pela perda de quem eu era. Sem a arte: a música, o artesanato, os filmes, a literatura; eu teria enlouquecido. Era mais do que não me reconhecer; era não reconhecer o mundo, que de repente se tornou inóspito. Escrever foi como ser forçada a sair da caverna.

CA: Os contos são inundados por cenas do cotidiano. É como se estivéssemos, enquanto leitores, olhando pela fresta da janela da vida dos personagens e, como um reflexo, enxergando a nossa própria existência. Como escrever o ordinário de todos nós te atravessa?

HS: Observar o ordinário para mim sempre foi solitário porque tinha algo mais ali que por vezes me doía e meu entorno normalizava. A sensação de estar vendo aquela formiga na tela do cinema por cima do filme que ninguém reparou. Essa percepção me tornou inadequada, sem voz, exagerada. Escrever sobre esses incômodos me ajuda acolher e validar sentimentos que ignorei por sobrevivência.

CA: Os contos são permeados por delicadas cenas de ruptura que nos deixam com um gosto acre na boca. Despedidas e saudades fazem parte da vida de todos, mas esses pequenos acenos de adeus presentes nas histórias nos deixam diante da ideia irremediável do fim, principalmente para os que viveram a intensidade da pandemia recente. Escrever sobre o fim te ajuda a lidar com essa certeza inescapável?

HS: Sim. Acredito que ignorar o incômodo da impermanência é dar carta branca ao inconsciente para somatizar. Encarar o fim de frente pela escrita me ajuda a processar medos, a entender a preciosidade do agora e a aceitar os ciclos naturais. No fundo, me consola a conclusão de Schopenhauer: Enquanto vivemos, a morte não está aqui; e quando ela chega, nós não estaremos aqui.

CA: Em o Auto da Compadecida, o personagem Chicó, em um discurso emocionado, diz que a morte é “a marca do nosso estranho destino sobre a terra”. No conto “Bactéria Cósmica”, os personagens lidam com essa “marca” de uma maneira quase metafísica e transcendente e tentam não serem consumidos pelos seus próprios fantasmas que, embora não claramente expostos ao leitor, estão onipresentes nos diálogos. Qual o maior desafio de escrever de maneira a colocar o leitor diante da morte sem que necessariamente ela se torne um “elefante na sala”?

HS: Em Bactéria Cósmica, como você percebeu, a morte não é só uma presença metafísica, mas a morte de ciclos. O maior desafio, então, é criar um ambiente onde o leitor se sinta confortável para habitar esse espaço sem o peso da seriedade.Nossa cultura tem tabu com a morte. Acredito que se o assunto fosse naturalizado, se a gente falasse mais sobre morte e metafísica, seria mais leve. Falar de assuntos sérios de modo descontraído deveria ser o normal; como no México onde há a festa dos mortos cheia de cores e alegria. Tem uma série de comédia que gosto muito: Dying for sex,  a história real de uma mulher em fase terminal de câncer, é engraçada e cheia de simbologia. Traz temas profundos de forma leve, o que faz com que a série seja linda, tocante e necessária.

CA: O conto Não conte os mortos terce, de maneira delicada, uma narrativa em torno da dor da perda e do luto, que arrefece, mas não vai embora e também evoca a ideia da palavra como elaboração desse lugar de dor e a escuta como um processo nem sempre fácil. Como escritora, a escuta e a palavra tornaram-se, para você, um lugar de elaboração das dores?

HS: Sim, um lugar fundamental de elaboração e autoconhecimento. A escuta, seja do outro, seja de si mesma; revela ecos universais na dor particular. E a escrita é, de fato, uma ferramenta de cura, mas seu primeiro efeito é o oposto: ela incomoda. Exige o mergulho na dor, tornando-a latente, para que então possamos atravessá-la e não sermos por ela habitados.

CA: Por fim, a escrita é o melhor caminho para sobreviver ao mundo que, constantemente, nos coloca diante de desafios, dúvidas e dores?

HS: Para mim, sim. Eu diria que a arte é o caminho essencial para sobreviver ao mundo. A escrita, em particular, é uma das formas mais profundas, e também das mais difíceis, por ser tão solitária. Nesse processo de elaboração das dores, acessamos lugares complexos e revisitamos traumas. É desgastante, mas no fim sempre compensa: a gente emerge, e emerge transformado.

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Pequeno Mapa do Tempo, Hellen Sousa
Editora Urutau