Coluna Escrevernar

Discurso e a Crise da Escuta: Entre Byung-Chul Han e Paulo Freire

Quem perde a capacidade discursiva agarra-se a suas opiniões como a um espelho: teme o abalo que o pensamento divergente pode causar em sua identidade. Escutar o outro exige risco; o risco de transformar-se. E esse risco parece hoje intolerável.

Arte de capa: “La reproduction interdite, de René Magritte (via MoMa).

Discurso é movimento em torno do sentido, é circularidade que exige presença e abertura. Por isso mesmo, implica a escuta do outro, e não apenas a emissão de opiniões. Um comentário solitário, que não acolhe contraponto, perde o caráter discursivo e se transforma em mera afirmação de autorreferência. Em Infocracia, um dos muitos títulos do filósofo coreano de expressão alemã, Byung-Chul Han, lemos sobre estarmos vivendo a dissolução do discurso justamente porque o outro, ou seja, aquele que nos interpela e desafia, está desaparecendo.

Han, em sua análise crítica da sociedade contemporânea, afirma que vivemos num tempo marcado pelo narcisismo digital. O que se forma, nesse cenário, são bolhas informativas (filter bubbles) que reforçam nossas próprias crenças e produzem uma espécie de autodoutrinação. O sujeito, encapsulado em si, passa a escutar apenas a si mesmo. Há um fechamento da escuta: o mundo ecoa o que já se pensa, sem tensão, sem confronto, sem alteridade, ou, como bem dizia Octavio Paz, não há a Otredad, isto é, o eu que enxerga através do outro.

O filósofo Byung-Chul Han (Foto: Reprodução).

Como alerta Byung-Chul Han, o excesso de positividade, essa obrigação de confirmar e ser confirmado, elimina o conflito e, com ele, a possibilidade de um “nós”

O resultado é uma sociedade do monólogo, onde a escuta se desfaz. Não se trata apenas da ausência de debate, mas da recusa da vulnerabilidade que o encontro com o outro implica. Quem perde a capacidade discursiva agarra-se a suas opiniões como a um espelho: teme o abalo que o pensamento divergente pode causar em sua identidade. Escutar o outro exige risco; o risco de transformar-se. E esse risco parece hoje intolerável.

Nesse contexto, a crise da democracia torna-se, antes de tudo, uma crise da escuta atenta. A personalização algorítmica das redes sociais, ao moldar conteúdos conforme preferências individuais, destrói o espaço público. O horizonte coletivo desaparece. Como alerta Han, o excesso de positividade, essa obrigação de confirmar e ser confirmado, elimina o conflito e, com ele, a possibilidade de um “nós”. E sem o outro, não há comunidade, e, portanto, não há política, não há educação, o que me transportou para Paulo Freire, o qual sempre ensinou que “alfabetizar é criar consciência”.

E criar consciência é abrir-se para o mundo e para o outro. A palavra, para Freire, não é apenas meio de expressão, mas espaço de constituição do sujeito e de construção do comum. “Com a palavra, o homem se faz homem”, escreveu. Mas não qualquer palavra: é preciso aprender a dizer a própria palavra; aquela que emerge da experiência, da escuta, da relação com os demais.

A palavra, para Freire, não é apenas meio de expressão, mas espaço de constituição do sujeito e de construção do comum.

Freire nos lembra que ninguém se conscientiza isoladamente. A consciência não é interioridade vazia; é consciência do mundo, e só no mundo, entre os outros, ela se forma. Comunicação verdadeira, portanto, não ocorre na neutralidade ou na unanimidade, mas na tensão do encontro, na oposição que enriquece.

Vivemos hoje sob a lógica de uma racionalidade digital que tende à homogeneização. É o oposto do que propõe a pedagogia freiriana: enquanto ela busca o diálogo libertador, a era digital parece anestesiar a escuta, promovendo um tipo de surdez narcísica. No entanto, conforme tão bem ensinou Freire, a consciência precisa ser consciência do mundo, sem isso não haverá comunicação. O monólogo é a negação do homem. Quando deixamos de dialogar, estamos nos afastando de nossa própria espécie no pior dos sentidos.

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