FLUP 2025

Conceição Evaristo e Patrick Chamoiseau discutem o que pode a literatura quando nada mais é possível no segundo dia de FLUP

Promovendo um trânsito entre o Brasil e o Caribe, a mesa de debate “O que a literatura pode fazer quando não se pode mais fazer nada?”, com os escritores Conceição Evaristo e Patrick Chamoiseau, propôs uma reflexão sobre a força da criação literária diante de contextos de crise, esgotamento social e fraturas políticas.

Cobertura de Samara Lima / Fotos de @hilditt0 (Divulgação/FLUP).


Partindo da ideia de que a literatura frequentemente nasce quando as linguagens sociais parecem falhar, os autores discutiram como a escrita pode abrir respiros simbólicos em momentos em que as respostas racionais, institucionais ou imediatas já não dão conta de elaborar o real. Nesse horizonte, a literatura surge não como solução direta para os problemas práticos da vida cotidiana, para a “vida prosaica”, como aponta Chamoiseau, mas como gesto de recuperação do sensível e de reencantamento do mundo.

“É no espaço vazio da história oficial que a ficção se intromete”, diz Conceição Evaristo ao lado de Patrick Chamoiseau na FLUP 2025

Conceição Evaristo traz à conversa, ainda que de maneira implícita, sua noção de escrevivência, enfatizando a força de narrar experiências que foram apagadas e de reinscrever presenças históricas negligenciadas. Em um determinado momento, ela afirma que é “no espaço vazio da história oficial que a ficção se intromete”. Sua perspectiva evidencia como o ato literário se volta para o imaginário como espaço de disputa do que pode ser visto, sentido e reconhecido socialmente. Chamoiseau, por sua vez, parece ampliar essa reflexão ao relacionar literatura e diversidade imaginária, ressaltando que toda narrativa é também uma forma de resistência às forças que pretendem uniformizar identidades. Para ele, o maior desafio dos escritores atuais não é criar uma contranarrativa, correndo o risco de cair novamente em um estado monolítico de compreensão da realidade, mas encontrar uma modalidade outra de relato que abarque todos os pontos de vistas possíveis.

Conceição Evaristo na FLUP 2025. Foto de @hilditt0 (Divulgação/ FLUP)
Patrick Chamoiseau na FLUP 2025. Foto de @hilditt0 (Divulgação/ FLUP)

“O que devemos não é criar uma contranarrativa, mas encontrar uma modalidade de relato que integra toda a diversidade de trajetória do mundo”, diz Patrick Chamoiseau na FLUP 2025 ao lado de Conceição Evaristo

Ao entrelaçar imaginário, política e escrita, o debate nos mostra que a literatura continua sendo (e, talvez, nunca deixe de ser) um campo de força, uma linha de fuga. Em tempos de guerras, muros e cercos, de constantes tentativas de modelar e condicionar nossa forma de habitar o mundo, a literatura parece atuar como uma forma de reinscrever nossos corpos, de produzir deslocamentos e de cultivar novas possibilidades de convivência. Assim, a mesa aponta que, justamente quando “não pode mais fazer nada”, a literatura talvez faça o que lhe é mais próprio: reinventar o mundo a partir dos afetos, das Relações e da imaginação.


Samara Lima é doutoranda em literatura e cultura pela Universidade Federal da Bahia, instituição pela qual também é mestre e licenciada em letras (inglês). Integra o projeto de extensão Bordas da Imagem, vinculado à Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, coordenado pelo Prof. Dr. Eduardo Queiroga, e o grupo VISU – Laboratório de Práticas e Poéticas Visuais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenado pelo Prof. Dr. Daniel Meirinho. Como pesquisadora, seus interesses são: narrativas contemporâneas, inespecificidade, expansão dos campos artísticos do presente e a relação entre literatura e imagem fotográfica.