
Carta só para Sérgio Rodrigues
Em uma metalinguagem, você nocauteia a linguagem da Meta. E como isso é lindo e necessário!
Foto: Eduardo Knapp/ Folhapress.
Sérgio,
ontem finalizei a leitura de seu “Escrever é humano” e precisei logo vir ao papel (nessa teimosia de expressão que se impõe a nós, amantes da palavra escrita) para fixar meu encantamento.
Além dos conselhos particulares que tive a honra de receber nos dedinhos de prosa contigo (seja em Araxá ou pelo Instagram), nutriu-me essa leitura de outras tantas percepções valiosas, que você expõe com a exata medida da leveza e da seriedade, tom tão seu desde outros livros e desde as colunas para a Folha. Sua voz (no melhor significado do termo que você sabidamente desmistifica e amplia) é um convite a uma identificação imediata.
Entender os caminhos dos outros, mas saber que isso é memória de água, sem rastro. Cada travessia há de ser construída aquém de mapas, regras e modelos. Mas a dedicação, a disciplina, a entrega e a abertura perene para o aprendizado e para a evolução são decisões essenciais.
Sabendo das suas também fortificamos as nossas.
Em uma metalinguagem, você nocauteia a linguagem da Meta. E como isso é lindo e necessário! As sete partes desse projeto confessional e provocativo esfregam na impassível cara da “inteligência” artificial o pulsar humano, dono insubstituível do ato de escrever.
E já sentenciou o grão-mestre Gilberto, num recado profético: “deixe a sua Meta fora da disputa”. Porque isso aqui é terreno nosso. Máquina, aqui, só se for a do mundo.
Abraço quente, porque de gente, do amigo,
Márcio
Sertão da Farinha Podre, 27-I-2026

Escrever é humano: Como dar vida à sua escrita em tempo de robôs, de Sérgio Rodrigues
Companhia das Letras, 2025
200 pp.
Correspondência incompleta é a coluna de cartas que Márcio Ketner Sguassábia assina na revista O Odisseu, na qual escreve para autores e artistas a partir de sua pessoalidade para o mundo.

