
Carta só para Ivana Fontes
Gostei muito de encontrar em seu livro a arquitetura de mim, pelo olhar viciado na velhice de tudo e por também guardar no meu o nome de meu pai. E saiba que colar fotografias novas e velhas é uma das propostas mais bonitas que alguém pode ter para lutar contra o tempo.
Ivana,
é sempre urgente falar sobre poesia. Ainda mais quando ela visita o precioso esmero de pessoas que perfumam a casa para recebê-la. Sobre lençóis trocados, você se deleita no afago materno da palavra, à que se abraça com a propriedade de poucos. Em cada carinho, uma invocação. Na exata medida de silêncio e voz.
Já que música só se faz com os brancos da partitura, os espaços das páginas compõem, por sua vez, veredas. Leitos de rio, em que às vezes a velocidade se estanca nos versos ao meio do caminho para nos atentar, novamente, ao convite: confiar na espera.
Ainda que essa espera tarde, como às avós da Praça de Maio, que sonham paz na terra retirando as pás de terra de ossos e lembranças. Mesmo quando não se sabe onde o corpo descansa, o rastro das formigas nos leva até onde era doce. E sempre será.
Que lindo é perceber uma conversa entre nossos poemas: se eu, um dia, propus que a poética nasce de uma dança entre as mesmas letras (observar/absorver), você nos instiga a um passo a mais: a linguagem nasce da observação (…) e da invasão.
Gostei muito de encontrar em seu livro a arquitetura de mim, pelo olhar viciado na velhice de tudo e por também guardar no meu o nome de meu pai. E saiba que colar fotografias novas e velhas é uma das propostas mais bonitas que alguém pode ter para lutar contra o tempo.
No seu título, as árvores radiografam o mundo e escolhem quem fica. Elas ficarão? Peço todos os dias para que sim. Porque o mundo anda cianótico e dispneico… e a vida é urgente! Por sorte nossa, sua literatura é uma criança que nasce nos escombros de um terremoto. Evoé!
Márcio
Sertão da Farinha Podre, 17-XI-2025.
Correspondência incompleta é a coluna de cartas que Márcio Ketner Sguassábia assina na revista O Odisseu, na qual escreve para autores e artistas a partir de sua pessoalidade para o mundo

Radiografia das árvores, de Ivana Fontes
Cachalote (Aboio, 2025)
104 pp.
