
Carta só para Cecília Rogers
Paz, passo e caminho. No tecer dos elementos, a humanidade desejada. De fato, no princípio era o Verbo e o Verbo era Mulher.
Foto de capa: Reprodução das redes sociais.
Cecília,
entre o silêncio dos grãos e a sede das estrelas, urde a indefinível linhagem das filhas de sal e éter a inaugurar os caminhos das águas fêmeas e livres.
A alma líquida se levanta. O calor amniótico no despertar lúcido da terra. No espanto íntimo, a luz se faz mulher.
E uma mulher se faz pela pulsação das línguas feridas e dos frutos secos do silêncio. Ainda assim ela renasce, linhagem faminta das águas submersas.
A mulher que sonha sobre a montanha leva nos braços sua criança envolta em pétalas e canções de ninar. Desfazendo o tempo, imaginando a nova geografia.
As lobas se aproximam, maduras guardiãs da terra. Uivos doces, dentes afiados. Memória da mulher selvagem. O sangue purificado da mata. Dom e força.
Se em cada mulher principia o mundo, mulheres ali tecidas sem amarras, Evas livres do pecado original, gozam o sumo das maçãs.
Paz, passo e caminho. No tecer dos elementos, a humanidade desejada. De fato, no princípio era o Verbo e o Verbo era Mulher.
Assim era. E que assim seja!
Obrigado por emprestar a esta carta o único vocabulário possível para dizer sobre a beleza da mulher que anda sobre as águas.
Tenha sempre meu carinho,
Márcio
Sertão da Farinha Podre, 01-IX-2025

