Ensaio

Ariano Suassuna e Eu – Confissões de um leitor

Entre essas leituras, algumas se tornaram companhia constante, reaparecendo nos momentos decisivos, quando o pensamento parecia pedir um “chão” ou, ao menos, um confronto. Ariano Suassuna foi uma dessas presenças.

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Embora não seja, como em Agostinho, um relato da minha conversão, essa confissão desesperada, que muito provavelmente não interessa a ninguém, foi a forma que encontrei de me reencontrar com aquela verdade maior que todos nós carregamos, embora nem sempre nos demos conta de como e quando ela passou a existir em nós. No meu caso, como o de tantos outros, confesso que a culpa foi dos livros. Não dos astros, nem das estrelas. Foram os livros que, silenciosamente, “à noite, às horas mortas”, foram me devorando à medida que eu os devorava. Ninguém sai intacto de uma leitura. Por isso eu hoje, formado por uma miríade de livros, sou tão deformado quanto qualquer leitor deve ser. Foi assim que aprendi, ainda cedo, que a leitura não consola: é um desassossego.

Entre essas leituras, algumas se tornaram companhia constante, reaparecendo nos momentos decisivos, quando o pensamento parecia pedir um “chão” ou, ao menos, um confronto. Ariano Suassuna foi uma dessas presenças. Pessoalmente, nunca o conheci. Nessas caminhadas da vida, curiosamente, acabei conhecendo muitas pessoas que estiveram com ele, inclusive familiares e amigos próximos. Percorri o sertão de Pernambuco e da Paraíba — numa viagem que fiz com minha esposa e amigos há cerca de três anos — e, por isso, posso dizer que refiz muitos dos caminhos do poeta. E, sim, havia um caminho.

Nessa busca obstinada por recompor os passos de alguém que nunca conheci, exceto pelas letras, me dei conta de que não estava propriamente à procura de Ariano, mas de mim mesmo. O que eu perseguia, sem saber ao certo, não era a fidelidade a um trajeto já percorrido, mas a possibilidade de compreender como certas ideias, certas imagens e certas escolhas haviam se incrustado em mim a ponto de moldar meu modo de ver o mundo.

* * *

Dei uma boa gargalhada quando, assistindo a uma entrevista de Ferreira Gullar no Roda Viva, a jornalista lhe perguntou a quais filósofos ele costumava recorrer. Gullar respondeu que lia muitos filósofos e acabava concordando com todos, ou quase todos; pois, como ele mesmo admitiu, a exceção foi Jean-Paul Sartre: “o primeiro cara que eu discordei foi Sartre — ‘a vida é um caminho para a morte’; fora”.

Relembro esse episódio porque foi na obra de Ariano que encontrei “um caminho para a vida”, e foi por essa razão que embarquei naquele universo adentro. E quando digo “um caminho para a vida”, digo não no sentido extremo de encontrar um motivo para existir — a propósito, não me filio àqueles que afirmam que, sem literatura, não saberiam viver. Não tenho dúvida de que a vida sem literatura — esse direito humano tão fundamental, como defendeu Antonio Candido em um dos mais belos textos já escritos sobre o tema — seria uma vida empobrecida, mutilada, mas ainda assim vida, e ainda assim suportável e, porque não, com seus momentos agradáveis. Existem muitas alegrias na vida, uma delas é aquilo que a arte nos proporciona. Não discordo que a arte é o que mais “aumenta” a vida, mas não é o único motivo para viver. Eu, e sei que estou falando por muitos, tenho vários outros, entre eles alguns menos confessáveis em público e absolutamente irrecusáveis na intimidade.

O “caminho para a vida” que encontrei na literatura de Ariano Suassuna, mais ligado àquelas coisas da identificação do espírito humano, foi a possibilidade de me reconhecer no mundo e reconhecer os outros nesse mundo. Uma forma de reconhecimento, na qual o humano se reconhece não por idealização, mas por pertencimento. A afirmação de que a vida, para ser plenamente vivida, precisa ser atravessada por símbolos, por histórias, por uma memória que nos antecede e nos excede. Foi nesse registro que sua obra me marcou de forma mais duradoura. Ao insistir que a cultura não é ornamento, mas fundamento. Reconhecer-se numa tradição, ainda que para tensioná-la depois, foi a maior lição desse aprendizado.

Uma verdadeira lição pela pedra, como na rude imagem de João Cabral de Melo Neto. A diferença é que, em Ariano, se a pedra nos acertava em cheio, junto com a dor e com o sangue, algo de risível também se podia extrair da tragédia. Havia sempre uma fresta por onde o riso escapava, não como fuga, mas como forma de enfrentamento. Como se o riso fosse também uma maneira de suportar o peso do mundo e a farsa da existência. Os versos a seguir, de autoria do mesmo João Cabral de Melo Neto, sintetizam esse quadro:

“Sertanejo, nos explicaste
como gente à beira do quase,
que habita caatinga sem mel,
cria os romances de cordel,
o espaço mágico e feérico
sem o imediato e o famélico,
fantástico espaço Suassuna
que ensina que o deserto funda.”

E quanto mais fundo fui cavando, mais fui encontrando às raízes. As raízes da vida. As minhas raízes. Raízes da minha gente. Raízes do meu país. E essas raízes passaram a fundar a minha consciência. Eu poderia dizer que com Ariano aprendi a ser “nacionalista”, mas isso seria simplificar demais o seu papel como mestre e o verdadeiro fundamento da sua literatura. Podemos nos orgulhar cegamente de um passado inventado ou viver em prol de um mito irreal. Mas isso seria repetir o triste fim de Policarpo Quaresma. Tudo que é superficial, se espalha rápido, não cria raízes — aí está a origem do “patriotismo” rasteiro, que pouco ou nada diz sobre a nossa identidade enquanto povo. A literatura de Ariano, longe disso, é radical. Mudou radicalmente a minha vida, justamente por fundar raízes e raízes cada vez mais fundas.

Chamá-lo de radical, como muitos lhe impingiram, no fim — para a tristeza dos detratores de plantão — é um grande elogio. Ariano me mostrou o Brasil profundo, que na expressão de Machado de Assis que ele gostava de utilizar, chamava de “Brasil real” — em oposição ao “Brasil oficial”. Este, “caricato e burlesco”, porém àquele “era bom e revelava os melhores instintos”. Nesse retrato, fez questão de pintar o que havia de mais belo em sua aldeia e sua gente. Pintava a “verdade” de um povo, de uma cultura, de um país, que assaltado em sua dignidade e envilecido por uma elite recalcada e ignorante, tinha vergonha de si mesmo. Minha postura passou a ser outra: não a de um ufanista ou chauvinista — algo que o próprio Ariano nunca foi —, mas a de alguém que, sem negar o “chão subterrâneo” da própria cultura, poderia dialogar com o mundo sem submissão, sem ressentimento e, acima de tudo, sem se sentir um deslocado. Não se tratava de fechar-se em si mesmo, mas de partir do lugar que pisamos. Não de idealizar o país, mas de recusá-lo como caricatura. De assumir a nossa identidade como parte desse processo de abertura para o mundo e para nós mesmos.

E para àqueles que, como eu, sempre se perguntaram de onde viria essa identidade, cujo processo de construção não é menos contraditório do que nossa atormentada história, penso que em Ariano uma constatação nos é fundamental:

“É o Povo que mantém, até os dias de hoje, essas características brasileiras, que nós, atualmente, procuramos defender e recriar, contra a corrente ‘europeizante e cosmopolita’, o que fazemos procurando ligar nosso trabalho de escritores e artistas criadores à Arte, à Literatura e aos Espetáculos populares. Nenhum de nós pretende ser ‘primitivo’: o que procuramos é mergulhar nessa fonte inesgotável, em busca das raízes, para unir nosso trabalho aos anseios e ao espírito do nosso Povo, fazendo nosso sangue pulsar ao contato com aquilo que tais artes e espetáculos têm de festa — entendida no sentido latino-americano de celebração e sagração dionisíaca do Mundo (Suassuna, 1974)”.

O que vale para a Arte vale para a vida. Uma opção estética, também é uma tomada de posição política. Confesso que, em meu caso, essa escolha nunca foi plenamente consciente desde o início. Ela foi se impondo aos poucos e a leitura da obra de Ariano foi o ponto de partida daquilo que, mais tarde, se tornaria marca do meu trabalho na Universidade e da minha militância cotidiana. O cume dessa visão, entre outros trabalhos e um livro publicados, resultou na monografia “Ariano Suassuna e a Indústria Cultura”, defendida no ano passado e que se encontra disponível no Repositório Institucional da UFBA (https://repositorio.ufba.br/handle/ri/41364). O que registro não por vaidade — embora concorde com Matias Aires a esse respeito —, nem por pretensão, mas porque humildemente busco repetir outra lição do mestre: “como sou pouco e sei pouco, faço o pouco que me cabe me doando por inteiro”.

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Entre nós parece ganhar força uma certa iconoclastia que, sob o disfarce de crítica e lucidez, muitas vezes não passa de desprezo mal disfarçado por tudo aquilo que nos constitui. Derrubam-se referências sem que se saiba muito bem o que colocar no lugar; ironiza-se a tradição como se ela fosse, por si só, um erro a ser superado; confunde-se espírito crítico com aversão sistemática ao legado dos que nos antecederam. O próprio Ariano Suassuna tem sido colocado, não raro, no lugar do “conservadorismo”, como alguém avesso ao “progresso” e, por isso mesmo, “reacionário”. Sem pretender redarguir esses absurdos — que em geral dizem mais sobre a pobreza das categorias utilizadas do que sobre a obra que pretendem julgar —, sustento apenas que o resultado desse gesto costuma ser paradoxal: quanto mais se destrói simbolicamente, mais se empobrece o repertório comum. Quanto mais se rejeitam referências, mais dependentes nos tornamos de modelos alheios. A crítica, quando perde o vínculo com o chão que a sustenta, transforma-se em caricatura de si mesma.

Digo isso para concluir minha confissão, com uma outra confissão: se segui os passos do mestre, não foi para repetir as suas vacilações. Tanto que, em meu trabalho, em diversos momentos procurei demarcar as limitações, os excessos, os equívocos e mesmo aspectos problemáticos ou datados de sua elaboração intelectual, como a idealização da “mestiçagem” através do conceito de “castanho” que, mais tarde, mereceria uma revisão do próprio autor, principalmente a partir do contato mais próximo travado com discussões e personalidades do Movimento Negro[1]. E se faço tais ressalvas, é para dizer que não há contradição nenhuma nisso. Ao contrário: a fidelidade que importa não é a da repetição, mas a da continuidade crítica, aquela que preserva o impulso inicial ao mesmo tempo em que o desloca.

Ariano que foi profundamente influenciado por grandes gênios como Gilberto Freyre, Euclides da Cunha e Silvio Romero, também neles foi capaz de apontar criticamente os extravios e limitações inerentes as suas obras: “o que digo proclamando mais uma vez minha dívida e minha gratidão para com esses três Mestres, porque foi a visão deles que, entre outras, me permitiu chegar àquela que hoje me permite contestá-los[2].

Não penso como Ariano Suassuna, porque não sou Ariano Suassuna. O que não me impede de confessar a minha dívida e a minha gratidão para com o mestre que acendeu em mim a chama que agora, a partir dos meus próprios passos e caminhada, posso levar adiante. Sabendo que foi a visão dele, entre outras, que me permitiu chegar àquela que hoje me permite “contestá-lo” — ou, ao menos, confrontá-lo, como um dia a sua me obra me confrontou.


[1] No texto “Racismo e Capitalismo”, publicado na Folha de S.Paulo, Suassuna narra um pouco desse processo quando passou a frequentar reuniões do Movimento Negro Unificado. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0703200006.htm.

[2] Cf. SUASSUNA, Ariano. “Uma Cultura Ameaçada: A Cultura Brasileira”, Folha de S.Paulo, 02 out. 2000. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0210200022.htm.

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