Cinema

Afinal, quais são as cores de Almodóvar? – Uma crítica do filme ‘Fale com Ela’

Há em Fale com ela um notório contraponto entre duas relações afetivas, com marcadas singularidades, o que se estrutura visualmente através do incisivo embate entre duas cores básicas: o vermelho e o azul.

O conhecido trecho da música Esquadros, lançada no segundo álbum da cantora Adriana Calcanhoto, Senhas, em 1992, diz “Eu ando pelo mundo prestando atenção/ Em cores que eu não sei o nome/Cores de Almodóvar”. Nesses versos a cantora reforça um dos elementos mais característicos e originais na obra do premiado diretor espanhol Pedro Almodóvar: o marcante uso das cores em seus filmes. 

Almodóvar vale-se da intensa utilização das cores não apenas como recurso estético, mas como instrumento amplo de construção simbólica. Em seus filmes tons quentes e frios se interceptam criando universos sensoriais, em que a riqueza subjetiva dos personagens é sublinhada visualmente. No longa Fale com ela, de 2002, esse recurso atinge um singular nível de depuração, o que contribui para a maestria dessa obra, vencedora, em 2003, do Oscar de Melhor Roteiro Original e do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. 

O enredo de Fale com Ela

No início do longa-metragem, o enredo é introduzido ao espectador através de uma interessante sequência: num balé de Pina Bausch mulheres se debatem contra cadeiras e paredes em movimentos desconcertantes e expressões de melancolia, sentimento que permeia todo o filme. Na plateia, assistem ao espetáculo Marco e Benigno, protagonistas que ainda não se conhecem e cujas histórias, assim como nos gestos no ballet, se confrontam violentamente. 

A partir daí inicia-se a definição das duas histórias, que se cruzam: Marco é um jornalista que se encanta com a toureira Lydia após vê-la em um programa de televisão. Ele a procura e os dois se envolvem, no entanto o relacionamento é interrompido por

um acidente que deixa Lydia em coma, após ser ferida por um touro. No hospital em que a toureira permanece o enfermeiro Benigno cuida diariamente de Alicia, uma dançarina de ballet que está em coma há muito tempo. Ao se encontrarem, Benigno reconhece Marco do espetáculo que assistiram juntos e os dois iniciam uma amizade que delineará o enredo. 

Na história há uma aproximação antitética de dois relacionamentos, que embora antagonizáveis, sustentam-se sobre os mesmos pilares do afeto e do desejo. Através de uma estruturação clássica, Almodóvar permite ao espectador se envolver com os dois casais da trama, valendo-se de recursos estéticos e narrativos que permitem o aprofundamento na intimidade dos laços estabelecidos. Nesse contexto, Benigno é revelado em toda sua natureza de obsessivo encantamento e minucioso cuidado por Alicia, resultando em planos que revelam ,de cima, todo o corpo da mulher sendo delicadamente manuseado pelo enfermeiro em seus rituais de trocá-la ou limpá-la; os objetos no quarto são descritos em plano-detalhe, permitindo se atentar para o fato de que Benigno os organizou identicamente ao quarto original de Alicia e as conversas com a mulher em coma se estabelecem ostensivamente, a despeito do estranhamento que causam. Em relação a Marco e Lydia os sentimentos também são revelados na linguagem fílmica em toda sua intensidade, com destaque para a sequência em que ele a vê tourear pela primeira vez, momento em que a música Por toda minha, letra de Tom Jobim e interpretada por Elis Regina, funde-se aos lentos movimentos da tourada, numa profusão sinestésica representativa das próprias sensações de Marco diante de Lydia. 

Após a criação de um vínculo entre Benigno e Marco somos transportados, por um flash-back, às circunstâncias em que o enfermeiro aproximou-se de Alicia. Essa aproximação foi possível através do pai da bailarina, um psiquiatra a quem Benigno recorreu com o real intuito de ter contato com a moça. A figura desse pai torna-se um importante artifício dentro do enredo para a compreensão da relação entre Benício e Alicia; somos convidados a, assim como o psiquiatra, escutar cuidadosamente o testemunho de Benigno, por meio do qual evidencia-se a solidão sentida por ele e o intervalo de quinze anos em que se dedicou a cuidar de sua mãe doente.

O adensamento psicológico em torno da figura de Benigno torna-se particularmente apurado em outra sequência metalinguística bastante original, trata-se de um curta-metragem mudo produzido por Almodóvar e utilizado dentro do enredo de “Fale com ela”. Na história, a cientista Amparo desenvolve uma fórmula para o emagrecimento, mas seu namorado Alfredo inopinadamente experimenta a substância, adquirindo uma dimensão liliputiana, através da qual, enquanto Amparo dormia, ele penetra em sua vagina passando a habitá-la permanentemente. Essa sequência constitui, dentro do enredo, um filme assistido por Benigno, que o narra a Alicia enquanto massageia suas pernas. Através dessa pequena história dotada de um erotismo lúdico e pueril somos transportados ao contexto psíquico do envolvimento de Benigno por Alicia, dentro do qual o desejo sexual manifesta-se de maneira infantilizada, sem contaminar-se com as castrações e estigmas da vivência sexual no adulto. Além disso, pode-se depreender que a dimensão liliputiana refere-se à condição de benigno frente a Alicia, uma vez que o enfermeiro, em seu lancinante desejo e encanto pela moça, apequena-se diante dela, tornando-se seu abnegado servo. Esse tratamento dado a Alicia – uma mulher que, mesmo em estado de coma, se agiganta diante de um homem – reafirma um importante traço da obra de Almodóvar, na qual a figura feminina é enaltecida e dotada de grande poder. Após essa sequência, há um corte para um plano composto por um objeto de ornamentação, dentro do qual um gel vermelho imerso em um líquido transparente descreve formas esféricas que inicialmente se afastam e em seguida se fundem lentamente. Essas formas em movimento representam outro elemento figurativo dentro de Fale com ela, ao remeterem ao processo reprodutivo, em que dois gametas se fundem originando um embrião, tal qual o que se formará no útero de Alicia. 

O uso das cores em ‘Fale com Ela’

O vermelho de Marco e Lydia em Fale com Ela

Há em Fale com ela um notório contraponto entre duas relações afetivas, com marcadas singularidades, o que se estrutura visualmente através do incisivo embate entre duas cores básicas: o vermelho e o azul. O casal inicialmente construído no enredo- Marco e Lydia – é forjado pela voracidade do desejo e da paixão, eles representam a violência da união entre indivíduos mutuamente entregues, cujas fragilidades incandescem a matéria

de seus afetos. Eles simbolizam, portanto, a pulsão vital e sexual – o vermelho. Nesse sentido, a figura de Lydia associa-se à mulher forte, vibrante, vívida e sua atividade de toureira amplifica a simbologia da cor quente, ligando-a, ainda, ao sangue das touradas.

De maneira antagônica, a relação entre Benigno e Alicia se orienta por mecanismos mais sutis e intimistas; o casal, que se uniu efetivamente durante o coma de Alicia, é representado por uma esfera de paz, sonho e transcendência. Assim Benigno (do latim: que tem bondade) – é aquele que espera, cuida, tranquiliza, apazigua, tendo ele e Alicia o azul como cor simbólica. 

As oposições entre os dois casais, metaforizadas pela cor quente e fria, se manifestam, ainda, por outros aspectos relevantes: enquanto a relação entre Marco e Lydia se fragiliza e por fim se dissolve ao longo do coma, no caso de Benigno e Alicia é justamente a partir do estado do coma que sua união se concretiza. Uma vez que o coma representa um processo intermediário entre a vida e a morte, pode-se compreender que o contraponto entre o vermelho e o azul constitui em última instância o dualismo vida e morte, muito presente na obra. 

 O azul de Benigno e Alicia em Fale com Ela.

A relevância no uso das cores se evidencia já na capa do filme, em que Lydia se apresenta em vermelho e Alicia em azul. A simbologia vinculada a esse recurso estético se expressa em diversos momentos do enredo. Na situação em que Marco conhece Lydia pela televisão, ao encontrá-la pela primeira vez e em diversos outros planos onde os dois aparecem a cor predominante no cenário é o vermelho, associado diretamente à paixão e ao desejo. De outro modo, com Benigno e Alicia o azul torna-se imperativo, vinculado à paciência e à generosidade que definia a relação entre eles.

O confronto entre o azul e o vermelho é bem expresso na sequência em que Benigno e Marco põem as mulheres que estão em coma lado a lado para tomarem banho de sol. Essa sequência; ao construir uma simetria visual, porém com a oposição entre a cor quente e a fria, impacta o espectador e o estimula a confrontar conceitualmente as duas relações ali presentes, utilizando-se do elemento imagético para representar as distâncias e aproximações entre os dois casais aí representados. 

Simetria e oposição em Fale com Ela.

Ainda que existam fortes dualidades forjadas entre Benigno e Marco, Alicia e Lygia, um relacionamento ancorado num processo delirante e outro ancorado na realidade, o filme se propõe a aproximar as duas relações narradas, de modo que elas não apenas guardem similaridades como também se confundam. Uma vez que a natureza de ambas as relações emerge do mesmo sentimento -o amor-todos os antagonismos aí presentes são estritamente superficiais, todo o caráter excêntrico associado à união entre Benigno e Alicia não a deslegitima, toda a aparente unilateralidade desse vínculo, em que apenas Benigno se doaria, se torna falsa, na medida em que ele sente-se contemplado por Alicia. Chega-se, portanto, ao crime de Benigno, a relação sexual que engravida Alicia; nesse ponto a análise torna-se delicada e requer que aprimoremos ainda mais os mecanismos de ruptura com o senso comum, constantemente instigados nesse filme. A compreensão do abuso sexual promovido por Benigno vai além do crime, pois somos convidados a constatar que o impulso para prática sexual realizada foi desprovido de qualquer caráter torpe ou violento, tendo, assim, a mesma natureza do desejo sexual entre indivíduos que se amam. Dessa forma, a partir do conteúdo delirante por meio do qual Benigno concebe sua relação com Alicia de forma absolutamente natural, somos levados a um aprofundamento crítico do crime cometido por ele, analisando-o sob outra perspectiva e nos sensibilizando com seu trágico desfecho. Benigno, condenado a permanecer isolado de Alicia, suicida-se na prisão; contudo, Alicia acorda, saindo do coma. Esse final, em sua aterradora constituição, promove um brutal engrandecimento da figura de Benigno: o enfermeiro através de seu sacrifício, de seu desejo e de sua morte permite que Alicia retorne à vida. 

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O uso das cores em “Fale com ela” contribui para que o espectador elabore suas análises. Isso se torna explícito em uma das sequências do filme, em que Benigno, já preso, conversa com Marco, separado dele através de uma divisória de vidro. Nessa sequência ainda permanece o contraste entre o azul, na blusa de Benigno, e o vermelho, na blusa de Marco; contudo há nesse trecho planos em que o reflexo de Benigno se sobrepõe à imagem de Marco e vice-versa, permitindo uma união entre o azul e o vermelho de suas blusas. Essa superposição, para além de um efeito estritamente visual, constitui um rico recurso de linguagem a serviço dos elementos conceituais propostos no filme. Através dessa união de cores e imagens, sugere-se que a natureza de Benigno se confunde a de Marco, de modo que simbolicamente não haja ali um criminoso e sim dois indivíduos unidos por sentimentos e vicissitudes em comum, cujas relações amorosas construídas com Alicia e Lydia se fundem num mesmo eixo de afeto e melancolia.

Fusão entre Marco e Benigno em Fale com Ela.

O uso das cores em Fale com ela alia-se ao enredo como um amplo recurso de aprimoramento formal, através dele elementos subjetivos são explorados simbolicamente, criando uma visualidade expressiva e conceitual, em que pensamentos, sensações, imagens e cores se amalgamam dinamicamente. Em meio a esse processo somos convocados a nos posicionar diante de um conteúdo desconcertante, que se desnuda de forma tão completa; somos, portanto, forçados ao deslocamento. Nesse sentido, o uso das cores, enquanto estratégia ostensivamente explorada nessa obra, representa uma possibilidade de se adentrar o grandioso universo reflexivo e crítico proposto por Almodóvar.

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