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A Recife do Poeta: Visitei uma doce recordação de Manuel Bandeira

Casarão de 1825 preserva o legado e a genialidade do poeta recifense Manuel Bandeira, autor de clássicos como “Libertinagem”.


Foto de Danilo Moreira (O Odisseu).

O sobrado na cor azul bebê se posiciona discretamente entre outras construções antigas e uma fileira de carros estacionados no centro do Recife. No casarão, na primeira metade do século XIX, morou um menino recifense que, anos depois, a eternizou em versos e junto às boas lembranças da cidade onde viveu a infância. 

O garoto em questão era o poeta Manuel Bandeira (1886-1968), um dos mais famosos escritores brasileiros, conhecido por poemas como “Vou-me embora pra Pasárgada”, da antologia “Libertinagem” (1931). 

Atualmente, o imóvel abriga o Espaço Pasárgada, um centro de preservação da obra do poeta e um centro de fomento à literatura. Tive a honra de conhecer o local e vou contar como foi essa experiência.

A casa do meu avô

O sobrado fica no número 263 da Rua da União, no bairro da Boa Vista. No horário que visitei, no fim da manhã, o logradouro estava repleto de carros estacionados, acredito que por conta de algumas repartições que funcionam na região. É uma rua comum de um bairro antigo no centro de uma cidade grande brasileira, com imóveis seculares, alguns degradados.

De estilo neoclássico, o imóvel, datado de 1825, pertenceu ao avô materno de Bandeira, Antônio José da Costa Ribeiro, que era advogado, político e deputado geral pelo estado de Pernambuco entre 1878 e 1881. O poeta, que nasceu no Recife em 1886, viveu na capital pernambucana até os 4 anos, quando a família se mudou para o Rio de Janeiro. Dois anos depois, voltou a morar na cidade natal, até os 10 anos de idade. Foi nesta segunda estadia que o rapazinho vivia no casarão, em um tempo que o marcou tanto e que, segundo ele confessou, influenciou sua obra. 

Na entrada do Espaço, há um busto em homenagem ao escritor, e já encontramos esses e outros indicativos do quanto o casarão foi importante para Bandeira. Eu entrava em um espaço que foi muito amado. 

Busto de Manuel Bandeira na fachada do Espaço. Foto: Danilo Moreira (O Odisseu).

Cerca de 30 anos depois, quando já morava no Rio de Janeiro, Bandeira revisitou suas recordações dessa época no poema “Evocação do Recife” (1925). Trata-se de uma grande homenagem, ainda que melancólica, à cidade que lhe trouxe tantas boas lembranças. Há uma estrofe registrada em um cartaz, após um registro fotográfico da rua, em preto e branco, sem data. 

Nele, o autor descreve a Rua da União como um organismo vívido:

“A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de Dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincené na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua”

A casa da Rua União em dois momentos, com trecho do poema “Evocação do Recife”. Foto: Danilo Moreira (O Odisseu).

Acredito que, por ser uma quinta-feira, provavelmente eu era o único visitante do espaço naquele momento. O local vazio confere um silêncio predominante, que permitiu à minha mente, com a imaginação bicho-solto que tem, pudesse voar em paz enquanto olhava cada detalhe. Sou suspeito para comentar, já que adoro construções antigas. O som do Recife atual, com carros, motos e conversas altas lá fora até tentavam me trazer para a realidade, mas era tarde demais. Já estava imerso em outro tempo.  

Novo significado

No mesmo poema, Bandeira se refere ao imóvel como “a casa do meu avô”, já com a melancolia de quem sabia que o espaço não guardava mais a eternidade da infância:

Recife…
Rua da União…
A casa de meu avô…
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife…
Meu avó morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô

Pouco se sabe sobre a história da casa entre o fim do século XIX e sua transformação em espaço cultural. Em 1982, o Governo do Estado, por meio da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), fez o tombamento do imóvel, que segundo o portal Mapa Cultural de Pernambuco, encontrava-se em péssimo estado de conservação, sendo desapropriado no ano seguinte para a instalação do novo centro.

O som do Recife atual, com carros, motos e conversas altas lá fora até tentavam me trazer para a realidade, mas era tarde demais. Já estava imerso em outro tempo.

Fui recebido por uma funcionária, a produtora cultural Jaqueline Araújo, que gentilmente me mostrou o local. Ela me explicou que, atualmente, o museu está em reforma paralelamente ao funcionamento, com previsão de término em outubro, e ganhará novos espaços, como uma biblioteca ampliada, cujo acervo está sendo montado. No andar de cima, é possível ver materiais do acervo de Bandeira em exposição, como exemplares raros de “Libertinagem” e honrarias que o autor recebeu em vida. 

E como bom ícone pernambucano e brasileiro, Manuel Bandeira também tem uma versão boneco de Olinda, que fica em exposição no salão do Espaço.

Manuel Bandeira versão boneco de Olinda. Foto: Danilo Moreira (O Odisseu).

No fundo, conta com um simpático quintal ajardinado, que passará por revitalização. Em uma das paredes, alusão à Pasárgada, do célebre poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, publicado em “Libertinagem” (1930). Este era o nome da primeira capital do Império Persa, e foi fundada por Ciro, o Grande, no século VI a.C. Atualmente, as suas ruínas ficam no Irã, e são reconhecidas como Patrimônio Mundial pela Unesco. 

No caso do poema de Bandeira, Pasárgada foi eternizada como uma metáfora de local de refúgio e liberdade, inclusive para a imaginação. Não à toa, o casarão da infância do poeta, que tanto simbolizou as suas melhores recordações daquele tempo, e marca a ligação com seu universo poético, tornou-se o nome do espaço que ajuda a manter viva a literatura pernambucana.   

A janela para Pasárgada.

O local promove diversas ações em homenagem a Manuel Bandeira, como a Troca Carnavalesca Mista Bacanal do Bandeira, bloco que percorre o Recife inspirado em seus poemas; a Semana Manuel Bandeira, com debates, recitais, teatro e visitas no Espaço Pasárgada em celebração ao seu aniversário; o Sarau em Pasárgada, encontro mensal que reúne artistas e poetas para divulgar sua obra e estimular a criação literária; e a Semana de Encantamento Manuel Bandeira, dedicada a atividades artísticas e educativas em memória de sua morte, em 13 de outubro.

O escritor Manuel Bandeira em 1965 (Folhapress).

Quem foi Manuel Bandeira?

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu em 19 de abril de 1886, no Recife, Pernambuco, e faleceu em 13 de outubro de 1968, no Rio de Janeiro. Aos 10 anos mudou-se com a família para o Rio, onde estudou o ensino secundário no Colégio Pedro II, e formou-se no bacharelado em Letras. Em 1903 ingressou no curso de engenheiro-arquiteto na Escola Politécnica de São Paulo, mas teve de interromper os estudos devido ao diagnóstico de tuberculose, doença que marcou profundamente sua vida e obra. Em busca de tratamento, viveu em diferentes cidades do Brasil, como Campanha (MG), Teresópolis e Petrópolis, além de ter passado um período na Suíça, entre 1913 e 1914. 

Estreou na literatura em 1917 ao publicar o livro “A Cinza das Horas”, ainda sob influência simbolista e parnasiana. Logo aderiu ao espírito modernista, consolidando-se como um dos grandes nomes do movimento, sendo denominado por Mário de Andrade como de “São João Batista do Modernismo”.

Embora não tenha participado presencialmente da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, teve o poema “Os sapos”, de caráter crítico e satírico, declamado por Ronald de Carvalho durante o evento, tornando-se um dos símbolos da ruptura com a estética acadêmica. Bandeira colaborou com publicações modernistas como a Revista Klaxon e também na Revista de Antropofagia, Lanterna Verde, Terra Roxa e A Revista.

Ao longo da carreira, o autor escreveu obras como “Carnaval” (1919), “O Ritmo Dissoluto” (1924), “Libertinagem” (1930 – que possui seu poema mais famoso “Vou-me embora pra Pasárgada”) e Estrela da Tarde (1963), sempre mesclando lirismo, humor, simplicidade coloquial e um olhar irônico sobre a vida. 

Sua poesia transita entre a dor existencial causada pela doença, a celebração da vida cotidiana e a busca por uma liberdade estética e pessoal.

Bandeira também atuou como tradutor de autores estrangeiros, como Shakespeare, e como crítico literário e cronista. Também foi professor de literatura no Colégio Pedro II e na Faculdade Nacional de Filosofia, deixando uma marca significativa na formação intelectual de gerações de leitores. 

Ao longo de sua trajetória, Manuel Bandeira atuou intensamente como crítico de artes plásticas, literatura e música em diferentes jornais e revistas. Em 1925, participou da seção “Mês Modernista” do jornal A Noite, colaborou na revista A Ideia Ilustrada e exerceu a função de crítico musical no Diário Nacional, de São Paulo. Entre 1930 e 1931, escreveu críticas de cinema para o Diário da Noite, no Rio de Janeiro, e para A Província, de Recife. Já em 1941, dedicou-se à crítica de artes plásticas no jornal A Manhã, também do Rio. Em 1954, reuniu seus textos críticos no livro “De poetas e de poesia”. No ano seguinte, passou a assinar crônicas no Jornal do Brasil. Entre 1961 e 1963, colaborou no programa “Quadrante”, da Rádio Ministério da Educação, e, de 1963 a 1964, contribuiu para os programas “Vozes da Cidade” e “Grandes Poetas do Brasil”, transmitidos pela Rádio Roquette-Pinto.

Em 1940 foi eleito para a cadeira nº 24 da Academia Brasileira de Letras, onde consolidou seu reconhecimento como um dos maiores poetas brasileiros do século XX.

Manuel Bandeira deixou como legado para a poesia brasileira a sua capacidade de unir simplicidade e profundidade, transformando temas cotidianos, pessoais e até dolorosos em arte acessível e marcante. Ele ampliou as possibilidades expressivas da poesia ao valorizar a emoção direta, o tom confessional e a musicalidade natural da língua, tornando-se referência para gerações de escritores.  

O Espaço Pasárgada tem visitação gratuita e é uma oportunidade de conhecer de perto a história de um dos poetas mais importantes da literatura brasileira. Toda vez que vejo esses imóveis preservados, em um país que não costuma valorizar a sua memória, fico com o coração quente.  

Serviço:

Espaço Pasárgada

Endereço: Rua da União, 263, Boa Vista – Recife
Visitação: Segunda a sexta-feira, das 9h às 15h
Telefone: (81) 3184-3165
Entrada: gratuita
E-mail: pasargada.fundarpe@gmail.com

Com informações de: Cultura PE, Mapa Cultural PE, Ipatrimônio, ABL.

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