
“A Parabólica”, um conto de Rita Santana presente em “Tramela”
Leia com exclusividade na O Odisseu, “A Parabólica”, conto de Rita Santana que está presente na coleção “Tramela” (a ser relançada neste 7 de março). Após o conto, uma breve análise de Ewerton Ulysses Cardoso.
Arte: Rosana Paulino na série “Nascituras” (Reprodução).
“A Parabólica”, de Rita Santana
Cheguei ao local do encontro. Descrever talvez fosse fácil. A estrada até aqui povoada de evasões e tempo de gente que ficou. As flores alaranjadas se estendiam dispersas nas alturas; mas seria mesmo sábado? O nome daquela árvore semeada por toda a estrada… Temia esquecer as palavras. Em pouco, a distância abalaria a comunicação cotidiana, as mãos já não diriam em socorro, como sempre disseram, as mãos perdidas perderiam a palavra do gesto. Ainda seria possível esconder a desorganização gradual do pensamento. Talvez o sorriso e o desespero. É, o desespero me salvaria na sua agudez absoluta; a agonia inflamada e ensandecida poderá reter a lucidez que me escapa. O horário vago libertou os meninos pela área de concreto. Teriam percebido realmente minha presença e meu tormento? O encontro anulado e eu esqueci. O dia foi amanhã. E o medo por não saber o nome daquelas árvores, daquelas flores. Mas lá estava eu: pronta.
Volto para casa. Sempre volto para casa. Volto e nunca sei ao certo quem se nutre com a minha ausência, perambulando pelos cantos vazios. Volto e sempre digo para Augusto: nunca deixe de beijar as bordas das minhas ancas. Sim, Augusto, bem aí onde só vocô sabe ir tateando com a língua entre dedos, a trilha onde se afunda certa a região do repouso do gozo. Não, Augusto, agora sim, um pouco mais, vem cá, Augusto, ai… aí; bem aí, Augusto.
No dia seguinte, ele era um estranho, um inimigo pronto a trair minha entrega, e eu, uma mulher recóm-chegada de outras terras. Mulher distante e muda. As luzes da capital estão próximas demais e eu estou do outro lado, correndo descalça. Os sapatos, deixei-os em casa, não entrarei na escola sem eles. Na rua, eu morro de uma vergonha pavorosa pela nudez dos pés. Estou sempre a cair de um abismo e os meus pés sentem o vazio da vastidão que me aguarda. Pedras porosas vagam na imensidão, e o som é o mesmo: palmas das mãos batendo sobre os ouvidos, barulho de vaguezas.
Era preciso partir, por isso a estrada e o encontro. Abandonar a terra onde nasceu, para poder correr sempre mais, sem parar nunca. Água. Beber água para saborear a vida escorrendo pela garganta seca. A parabólica anunciara, na surdina dos lares, que os tempos seriam outros e riscara, nas paredes das casas, risos de como seriam, e seriam os mesmos. A lanterna fora apagada em todos os vilarejos. Só as velas, no interior dos templos, iluminavam, com as sombras, as calçadas. As gentes sorriam silenciosas, curvas, em busca de filas maiores que por toda a sorte se expandiam.
Augusto buscava a mortalidade possível. Por isso Marina e suas entranhas de estranhezas. Infindável descoberta de ossos que se insinuavam urgentes no raso da madeira oculta entre lençóis, espumas, molas, quem dera a palha para apaziguar as tentativas de fuga. Ossos de Marina entranhados que nem lasca fincada na unha, sangrando a dor do lascão. De não ser amado, sempre soube, e amor não queria, bastava já, e somente as frias penas do seu corpo de flacidez perturbadora e a arrogância desarticulada dos seus silêncios e os cios dos seus ciúmes violentos cavando com as mãos a terra seca do quintal. Mulher amaldiçoada.
Mas, eu estava ficando. Cada vez mais, eu estava ficando, ali, com ele. Ainda tenho a estrada, mas os nomes me escapam, estou ficando sem os nomes. E o homem amado que não me vem para salvar-me dessa felicidade absurda, absoluta? Augusto era o gosto da permanência, o medo de não precisar mais das palavras, e tantas já se foram. Daí os encontros com ele, que nunca vinha. Mas ele virá, traçando a lápis o código inscrito em areia, condição possível, saberá de mim e, em ódio, ainda que seja, me amará na surpresa do seu grafite, com a rudeza da madeira explícita. Chegará antes da primavera, adoecido da distância, com o cheiro não encontrável em outros homens, dirá aquela palavra que não separa nada de ninguém nunca e, por fim, terá meu colo calado, afundando minha alma em reencontro e paz. E nunca será demais a demasia desse amor demasiado.
Eram os desatinos mais sóbrios dos fragmentos de mim que sobraram. A percepção das horas possuía a consistência das coisas que desandam. Estou morrendo, estive sempre a morrer. Mesmo antes de respirar o ar de sua vinda, eu já me sabia morta, mas hei de, mesmo morta, violentar meu túmulo, roubar de lá a vida que me ficou presa, só para ouvir o som da sua chegada.
— É mentira! Tudo é mentira. Estou adoecendo de imagens. O que eu quero não é o ele, que não me chega nunca, eu quero é a estrada, é a estrada que eu espero. E se me chega o mancebo dos meus sonhos, cheirando a gaita, eu corro a abandonar seu corpo, semelhante ao meu em cor e calma, em busca do que em si ficou perdido em qualquer abismo, e continuarei perseguindo o que não estiver em minhas mãos.
Não houve tempo para a imitação secular do beijo na penumbra. Das antigas minas, os telhados inconfidentes permaneciam, apesar do passar da história. De lá, um fotógrafo obstinado por velhas telhas era perseguido por ela, metálica, ameaçando os ângulos de um filme que não viria e, se viesse, os sinos calariam os cines santa clara, isabel, brasil. Não mais estariam clareados pela escuridão. Os insones em vigília controlavam os devaneios dos ébrios. Os que se arrastavam nos rochedos em fuga traziam as mãos amputadas e os pés em fundas chagas. E daí? Buscávamos mais, as filas forneciam o suficiente para os saciáveis.
A minha natureza, há muito, vinha se distanciando das gentes. Perdiam-se as palavras como pedras caem na estrada e desaparecem. Tudo rodopiava muito longe dos seres rupestres. Tudo ainda era o velho pião de madeira, girando na mão do menino demiurgo, que brincava distraído de gerundiar a queda das telhas. Me nutro de partos, nascimentos e partidas, de obscuridades de olhar de cão que ama o dono e a casa numa comunicação franzina e obcecada de tristeza e afirmação.
No primeiro dia do ano, não chorei, perdi o caminho condutor das lágrimas. A solidão habitual atingiu a maturidade dos anos. Não chorei. Me sinto tranquila. Que me venha o ano novo com todas as surpresas do porvir ou mesmo a ausência delas. Estarei sempre ali, naquela estrada, testemunhando o aterro progressivo do manguezal. Sempre em fuga. A felicidade sempre me levará àquelas terras de lá, de antes de eu chegar até aqui. Ainda me sinto nua, toda descalça, em vertigem. Ai, essa minha limitação pulmonar diante da vida… às vezes, esqueço de respirar e transpiro nos instantes seguintes todo o esquecimento voluntário.
Augusto. Volto para casa. Sempre volto para casa e nunca sei ao certo quem se nutre com a minha ausência, perambulando pelos cantos vazios. Volto e sempre digo para Augusto: nunca deixe de beijar as bordas das minhas ancas, sim, Augusto, bem aí onde só você sabe ir tateando com a língua, na trilha onde repousa uma asa do meu gozo. Vai, Augusto, vai beijando do meu corpo as bocas que hão de beijar seus beijos, a boca, Augusto. Beije a minha boca. Em revolta de querer fundir-se, inserir no outro o próprio corpo todo; não em partes, todo. Em singeleza de amor perfeito, delícia de intimidades maduras. Os beijos, meu Deus; Augusto, os beijos. A boca. Todos os lábios que se abrem na passagem de seus beijos. Minhas ancas, Augusto, de novo, vem cá.
Augusto ficou ali, me olhando de cócoras em meio à plantação de mal-me-quer que se espalhava pelo quintal sem fundo daquela casa. Suas mãos caladas viam. Eu debrucei sobre aquele olhar a decisão de que partiria. Mais cedo ou mais tarde, eu partiria em busca do que estava reservado a mim para ser vivido, minha feitura de vida.

Tramela, de Rita Santana
Editora Villa Olívia
Relançamento, 2025

Rita Santana nasceu em Ilhéus (BA), em 1969. Escritora e atriz, é graduada em Letras pela UESC. Em 2004, recebeu o Prêmio Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com Tramela. Desde então, publicou Tratado das Veias, Alforrias, Cortesanias e Borrasca, além de integrar diversas antologias de poesia e contos. Participa regularmente de eventos literários, como a Bienal da Bahia e o Festival Internacional de Poesia de Buenos Aires.
‘A Parabólica’, conto de Rita Santana que está no livro ‘Tramela’, é todo corpo de mulher
Por Ewerton Ulysses Cardoso
Editor da revista O Odisseu, crítico literário e pesquisador em literatura (poslit-UFF).
A maioria de nós conhece Rita Santana como a excelente poeta baiana, coisa que de fato ela é. Mas, deixe-me lembrá-los, Rita Santana estreou na literatura com um livro em prosa, mais precisamente com o livro “Tramela”, que venceu o Prêmio Braskem de Cultura e Arte em 2004. Uma estreia premiada e que faria jus à carreira belíssima que Rita começaria a desenvolver a partir dali. Agora, o livro retorna às prateleiras com o cuidado editorial da Villa Olívia e com quatro contos inéditos. Trata-se de uma edição revisada e ampliada.
Entre os contos, está “A Parabólica”, este que temos a honra de publicar aqui no site da revista O Odisseu. De uma prosa torrencial, “A Parabólica” não conduz o leitor, mas agarra como correnteza de rio caudaloso. O que chama a atenção, em primeiro momento, é justamente a narração em primeira pessoa que informa pouquíssimo sobre o que de fato está acontecendo. Entretanto, sente-se o transbordar dos afetos nas dimensões do medo e também do desejo.
O encontro, às escondidas, em lugar marcado e com caminho de dor e prazer; a partida definitiva, certa em algum momento, ainda não se sabe quando. O gozo parece nunca ser pleno, mas cortado, uma vez que há a despedida e caminhos opostos.
Neste conto, Rita faz um trabalho de linguagem que me lembra muito a prosa maravilhosa de Maria Firmina dos Reis. Uma forma de narrar que está descompromissada com a demarcação perfeita do espaço-tempo, mas que dá ênfase ao interno das emoções na maior das intensidades. Para tal, Santana utiliza um léxico, como lhe é de costume, sempre preciso. Cada palavra desempenha o papel perfeito dentro da narrativa.
Dito isso, o que mais me chamou atenção, realmente, foi como essa prosa de Rita Santana, publicada há mais de 20 anos, antecipava o teor de sua lírica. Seja como poeta ou prosadora, Rita escreve utilizando como mapa a corporeidade feminina. São esses os contornos de sua literatura.
Uma vez, para um depoimento à revista O Odisseu, Lílian Almeida, outra excelente poeta baiana, disse sobre Rita Santana: “Gosto da poesia de Rita Santana, da pujança poética que ela imprime ao seu trabalho. Me apraz particularmente o reposicionamento que a mulher assume na poesia dela enquanto sujeito desejante”. Lílian está certíssima. Só diria que essa mesmíssima característica também se aplica à sua prosa. O erótico, tão caro para toda a obra de Rita Santana, é posicionado no corpo da mulher que deixa de ser alvo do desejo para ser aquela quem deseja. E que fará o que for preciso para bancar esse desejo.
No final do encontro, há uma partida. Mas rasurando a tradição literária, geralmente escrita por homens brancos, não é o homem que vai deixando uma donzela ferida pelo amor impossível. Não. Aqui, a mulher vai. É ela quem tem um destino a cumprir. É ela quem deixa para trás o mancebo.
Saiba quando e onde ‘Tramela’ será lançado!
Lançamento de “Tramela”, de Rita Santana
Quando: 7 de março (sábado), às 15h
Onde: Point Campo Grande (Avenida Sete de Setembro, 1474 – em frente ao Hotel da Bahia), Salvador (BA)
Quanto: R$ 60,00 (118 páginas)
Contato: Villa Olívia Editora – (71) 99687-9920 (fone e WhatsApp).