‘A Palestina é o espelho do destino humano’, diz Alexandra Lucas Coelho, autora de ‘Gaza está em toda parte’
Em entrevista à revista O Odisseu, Alexandra Lucas Coelho (“Gaza está em toda parte”) conta por que não acredita na solução de dois estados.
Publicado originalmente em 22 de julho.
Fotos Alexandra Lucas Coelho: Rui Gaudêncio (Divulgação).
Li “Gaza está em toda parte” (Bazar do Tempo, 2025), com total assombro. O calhamaço de Alexandra Lucas Coelho, que reúne textos e fotografias que a autora escreveu depois do 7 de outubro, na Palestina, não poupa palavras, detalhes e não está preocupado em atender aos critérios ocidentais a respeito do tema. A jornalista, que esteve em Gaza pela primeira vez há mais de 20 anos, põe uma lupa sobre o principal conflito da humanidade em curso. A pergunta que fica, é: como sobrevivemos? Como continuamos enquanto uma enorme prisão a céu aberto existe? Como continuamos a escrever poemas e a pensar em literatura enquanto há um projeto desumanizador sendo realizado aos olhos de todos?
Na página 160, ela escreve “O mundo não está habituado a humanizar palestinos. Andam em círculos para não dizer que Israel os matou”. Ela está certa. Como Alexandra bem destaca, a imprensa tem recorrido a um léxico muito específico para se referir aos crimes que Israel tem cometido. Ontem mesmo, 21, a Folha de São Paulo publicou: “Prédio residencial é atingido em Gaza”, ora, atingido? Por quem? Uma elipse é feita para esconder os autores dos crimes, especialmente se tratando de um prédio residencial, de civis. Enquanto isso, soldados do exército israelense dedicam bombas às suas amadas e acabam com vidas humanas como se jogassem videogame. E ninguém diz nada. Porque é Israel quem faz. Porque Israel pode. “Eis o estado a que chegou Israel. A supremacia de quem se acha acima da lei humanitária e internacional. De quem se acha acima das Nações Unidas. E que pensa que pode tudo, porque tem podido tudo, com a ajuda dos Estados Unidos e a capitulação da União Europeia”, escreve na página 78.
‘Os palestinos não têm de expiar os judeus que a Europa matou e expulsou’, escreve Alexandra Lucas Coelho, autora de ‘Gaza está em toda parte’

Para Alexandra, existe uma clara relação de culpa por conta do Holocausto na Segunda Guerra. O horror vivido pelos judeus foi, até então, um dos piores atos de crueldade na história da humanidade, ninguém teria como questionar isso. E tudo isso aconteceu com o aval, ou melhor, com o patrocínio de estados europeus. As imagens horripilantes das câmaras de gás, dos campos de concentração, ainda reverberam em nossa mente. Deveria ser um lembrete daquilo que a humanidade pode se tornar, mas se tornou uma eterna justificativa. Não se pode mais criticar Israel, tampouco se posicionar contra as ações governamentais por conta do holocausto. Assim, Israel está sempre a ser defendido por todas as nações. Para Alexandra, isso é um sintoma claro de culpa por parte da Europa. De fato, são culpados, mas escolheram o caminho errado de expiação de pecados.
“Os palestinos não têm de expiar os judeus que a Europa matou e expulsou. A Europa tem de parar de se ver nessa culpa, hipnotizada consigo mesma, como um narciso nazista”, escreve na página 312. “A culpa alemã é uma forma extrema de narcisismo”, escreve na página 300.
A coragem com que a autora diz o que tem de ser dito é o que faz do livro um feito extraordinário. Sim, a guerra contra os palestinos (porque não se pode mais chamar de guerra entre Israel e Hamas quando todos os palestinos estão pagando por ela) só continua porque existe um pacto de silêncio. Um pacto feito entre a mídia internacional e entre os países da Europa. Alexandra Lucas Coelho rompe com esse pacto. Sem desculpar o Hamas, sem esconder que o 7 de outubro foi um ato de extrema violência terrorista. É que não há como relativizar o que se acontece em Gaza e não há como comparar os efeitos da guerra do lado israelense do muro com o que aconteceu em Gaza e na Cisjordânia.
A guerra escancara o racismo contra os palestinos

Ao relativizar o que acontece com os palestinos, todos nós nos tornamos cúmplices e justificamos o racismo. Isso porque fica claro que, no Ocidente, uma vida israelense vale cinco vezes mais que uma vida palestina. Tenho pensado isso enquanto reverbera em minha mente um comentário que recebi na página da revista O Odisseu no Instagram, quando escrevi sobre o abaixo-assinado de autores brasileiros contra o genocídio. Entre os autores brasileiros, estava Lilia Schwarcz, uma judia-brasileira. O comentário questionava Schwarcz a respeito do seu posicionamento e diz:
“Que vergonha @liliaschwarcz . 58 reféns nas mãos de terroristas, gente da sua gente, e onde estão os seus olhos?? Lembro você que o ‘genocídio’ inexistente do ‘povo palestino’ termina quando o H_mas entregar os reféns de volta, mas não te vi exigir isso… que vergonha.”
Ora, não dá mais para negar que há um genocídio em curso. Os dados mostram isso e já há concordância no cenário internacional. O modo como a autora do comentário também coloca em aspas o “povo palestino” denuncia que ela nem os reconhece enquanto um povo e de que está tudo bem que todos os palestinos morram desde que os reféns voltem, mesmo que a esmagadora maioria dos palestinos não tenham nada a ver com o sequestro. Sim, uma vida de um judeu vale muito mais do que uma vida palestina nessa lógica. Não consegui excluir o comentário porque para mim ele testemunha muito claro algo que Alexandra diz no livro: estão todos bem com o genocídio palestino. Os israelenses que protestam em Israel contra Netanyahu assim o fazem por motivos políticos, mas não porque acham errado palestinos morrerem (com exceções consideráveis, claro).
Enquanto Israel celebra a si mesma enquanto um “paraíso dos direitos humanos” com uma parada gay celebrada no mundo todo, o lugar das liberdades individuais, do liberalismo econômico, proporciona uma hecatombe de corpos palestinos do outro lado do muro. Não por acaso, jovens de todo o mundo celebravam uma rave, música eletrônica, bebida, muito dinheiro envolvido, no dia 7 de outubro quando o Hamas atacou. Alexandra pergunta e eu repito a pergunta: como podem jovens celebrarem a vida a menos de 5 quilômetros da maior prisão a céu aberto no mundo?
Por outro lado, existe também outra denúncia, o de que não tem como existir Israel após este genocídio. Ao destruir Gaza, Israel também destrói a si mesma, porque não será possível mais ignorar o que acontece entre o rio e o mar. Na crônica de 24 de fevereiro de 2024, disponível no livro a partir da página 295, Alexandra escreve: “O fim de Israel, a Palestina e o nosso estado”. Israel acabando, a culpa é própria.
A seguir, algumas perguntas carinhosamente respondidas por Alexandra Lucas Coelho.
‘Gaza estava à beira de explodir já anos antes do 7 de Outubro’, diz Alexandra Lucas Coelho
Ewerton: Na introdução do livro (textos da última ida de Alexandra a Gaza, em 2017), a reportagem já expõe uma Gaza onde era impossível se viver plenamente por conta de bloqueios. Era uma grande prisão, um grande gueto. Fiquei com a sensação de que um conflito, a qualquer momento, seria inevitável. Inclusive, nesta sua última ida a Gaza, em 2017, você já escreveu: Se der guerra, será notícia (p. 33), se referindo, justamente, a um momento de revolta futura de Gaza contra Israel. Dito isso, em que medida o 7 de outubro de 2023 era previsível?
Alexandra Lucas Coelho: Creio que o 7 de Outubro apanhou de surpresa a esmagadora maioria das pessoas no mundo, incluindo na Palestina. Quando semanas depois voltei à Cisjordânia Ocupada e a Jerusalém Oriental, essa surpresa era ainda manifesta entre muitos palestinos. Várias interrogações, sobretudo em relação à facilidade com que se deu o ataque liderado pelo Hamas. Como milhares de militantes ou seguidores passaram uma fronteira tão supostamente vigiada por um dos exércitos mais sofisticados, bem armados e financiados do mundo? Como iludiram uma lendária máquina de serviços secretos, de inteligência militar? Perguntas que ecoam até agora, alimentando toda a espécie de especulações. Sabemos hoje que chefias militares israelitas ignoraram avisos de moças soldadas na fronteira, o que pode ser explicado em parte pelo proverbial machismo de Israel, e pela crescente, cada vez mais delirante arrogância de quem se acha invencível. Mas sabemos também que o governo israelita ignorou outros avisos. Há muito ainda por esclarecer.
Alguns dos tradicionais apoiantes do Hamas, desde o Irã ao Hezzbollah, também foram aparentemente surpreendidos pelo ataque. Até alguns setores do Hamas terão sido surpreendidos. E muitos dos operacionais que trespassaram a fronteira terão sido surpreendidos por chegarem tão longe. O 7 de Outubro superou, sem dúvida, os seus próprios organizadores. Uma parte da violência terá saído do controle, muitos homens avulsos saíram atrás dos militantes. O imenso alcance histórico deste ataque e as suas consequências apocalípticas dificilmente poderiam prever-se. Portanto, de diversas formas, foi um acontecimento totalmente inesperado.
Ao mesmo tempo, não é nada surpreendente que Gaza explodisse, para quem tenha visto por dentro a evolução do território ao longo dos últimos 20 anos. Esse primeiro texto do livro, pré-7 de Outubro, chamava-se justamente “Gaza à beira de explodir” já em 2017, a data em que foi originalmente publicado. Ao relê-lo achei que tinha de ser a introdução do livro para mostrar porque Gaza estava à beira de explodir já anos antes do 7 de Outubro. Como Gaza era já, muito antes, um escândalo sem paralelo. Como o mundo — em especial a Europa — pôde viver com o fato de ter abandonado dois milhões de pessoas atrás de um muro como se não fossem humanas como os humanos. Como o mundo permitiu que o Estado de Israel exercesse terrorismo de Estado durante décadas até culminar no genocídio de que hoje somos testemunhas. Esse texto começa com a passagem do chekpoint de Erez, a travessia daquele corredor gradeado que era como a travessia do mundo dos vivos para o mundo dos condenados. Uma distopia que não se compara realmente com nada nosso contemporâneo. Depois, o texto é uma viagem pela asfixia daqueles dois milhões, a falta de perspectiva, de estudantes e pescadores, de rappers e desempregados. Todos reféns de Israel. Milhões de reféns, em que a dependência de químicos já era altíssima, como explica o psiquiatra no final. Um só psiquiatra senior, assistido por um jovem, para toda a população. A revolta, a intifada, a explosão ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Humano, apenas humano. Ou sobrehumano, como tem sido a resistência dos palestinos neste genocídio.
E uma pergunta perturbadora que podemos fazer sobre o dia 7 de Outubro: que Estado é este em que jovens vão fazer uma rave a 5 quilômetros de um campo de concentração, com a música chegando lá do outro lado, onde humanos foram trancados? Que nível de alienação, de doença, é este? O que nos leva a outra pergunta: que mundo é este, quem somos nós, o que é o humano, quando isto se torna possível?
‘O Hamas foi sendo fortalecido ao longo de décadas por vários lados’
Ewerton: Na página 75, você escreve que o não reconhecimento do Hamas como vencedor das eleições em 2006 (pela comunidade internacional) e o isolamento político que o Hamas enfrentou ajudou a “radicalizá-lo” e “favoreceu a ocupação israelense”. Como a insistência ocidental em rotular o movimento de 2006 como “anti-democrático” ou como um “atentado aos direitos humanos” favoreceram o extremismo? Aliás, como conceitos como “democracia” e “direitos humanos” estão sendo utilizados para justificar um genocídio?
Alexandra Lucas Coelho: O Hamas foi sendo fortalecido ao longo de décadas por vários lados. Por Israel, quando isso era útil para minar a Autoridade Palestina. Pela corrupção e negligência da própria Autoridade Palestina. E pelo fato de a comunidade internacional dita democrática ter abandonado os palestinos desde 1948. O Hamas nunca teria ganhado o espaço que ganhou sem tudo isto. E as democracias internacionais levaram-no a um beco. Cobri a campanha e as eleições gerais de 2006 na Palestina, as primeiras (e únicas até hoje) com todos os partidos, em que o Hamas concorreu, escrutinadas por observadores internacionais. Tudo correu de acordo com as regras democráticas, comprovaram esses observadores. E o Hamas ganhou em todos os territórios ocupados: Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental. Uma vitória inequívoca e limpa. Mas os mesmos observadores que atestaram o processo não gostaram do resultado. A Europa perdeu uma grande oportunidade de trabalhar com o Hamas. Em vez disso, encurralou-o, radicalizando tudo. Não tenho ilusões sobre o Hamas, no livro há várias passagens críticas, eles torturam opositores, torturaram o meu amigo e tradutor. Mas não são a Al Qaeda ou o Estado Islâmica, como a propaganda israelita tenta vender. São um movimento islâmico nacionalista, que nunca atuou fora das fronteiras da Palestina Histórica, que tem uma visão para a libertação do seu povo. Não seria a minha visão, não é uma visão laica, não é a visão de muitos palestinos. Mas, sem dúvida, é uma visão de resistência de um povo. Explico no livro que não considero o Hamas um grupo terrorista. É um movimento que passou a recorrer a terrorismo, como muitos outros na História, incluindo vários grupos sionistas pró-Israel, autores de múltiplos ataques terroristas. Se considerarmos que atacar civis indiscriminadamente é terrorismo, o 7 de Outubro é um ataque terrorista com certeza, matou crianças, bebês. O Hamas recorre a terrorismo, mas não é um grupo terrorista. E houve momentos em que teria sido possível negociar com eles noutra direção. Há um documento de 2017 em que o Hamas se dispõe a reconhecer o Estado de Israel.
Quanto à democracia e direitos humanos, são expressões que têm de ser requestionadas depois do 7 de Outubro. A chocante cumplicidade das democracias que não travam Israel até agora deixa a nu a mentira, o racismo. Uma democracia seletiva. Uns Direitos Humanos que são apenas para uns. Mas não haverá liberdade de uns à custa de outros.
‘Não acredito numa solução Dois Estados sem os milhões de palestinos que até hoje continuam a nascer refugiados nos campos miseráveis do Líbano, ou na Jordânia, na Síria.’
Ewerton: Você também fala algumas vezes que não acredita mais na solução de dois estados. Então, em que você você acredita? Qual seria um caminho?
Alexandra Lucas Coelho: Não acredito numa solução Dois Estados sem os milhões de palestinos que até hoje continuam a nascer refugiados nos campos miseráveis do Líbano, ou na Jordânia, na Síria. De cada vez que o mundo fala nos Dois Estados abandona mais uma vez esses milhões, descendentes de 1948. A Nakba que agora é completada com aquilo a que podemos chamar a Solução Final de Israel. Assim, em Julho de 2025, as pilhas dos mortos, dos exterminados em Gaza, continuam a arder como as da “Ilíada”.
Neste livro há um destaque na orelha: “Toda a gente livre desde o rio até ao mar. Toda a gente livre: não há outra moral. Ou: nunca mais é para toda a gente. O passado é pai e filho de Israel. O futuro é filho de Gaza.” Na libertação ou na derrocada, a Palestina nunca foi tanto o espelho do destino humano.

Gaza está em toda parte: Textos e fotografias pós 7 de outubro (com uma última ida a Gaza anos antes), de Alexandra Lucas Coelho
Bazar do Tempo, 2025
399 pp.
