Ensaio

A literatura como modo de vida

Ler um livro de literatura é ter um tipo de experiência e através da leitura poder interrogar sua própria experiência. E às vezes basta apenas um livro. Um livro esquecido, mas o livro que te acompanha.

Por Renan Porto.

Na foto, Roberto Bolaño (Reprodução).


Neste mais de um ano vivendo em Cracóvia na Polônia, fiz um amigo com quem gasto horas falando de literatura, um escritor português chamado Miguel Oliveira. Nos conhecemos depois de uma exibição seguida de debate do filme palestino Sem Chão (No Other Land), vencedor do Oscar de melhor documentário em 2025. Miguel, escritor português que escreve em inglês depois de anos vivendo nos Estados Unidos, me deu de presente uma cópia do seu livro Waltz at the Eagles’ Nest: A Fable of Contemporary Dystopia, livro autopublicado contando com mais de mil páginas de extensão. Eu e Miguel às vezes gastamos horas falando de literatura, através da qual muitos outros temas se desvelam como reverberações dos ‘sons do mundo desmoronando’, para falar com Paul Preciado, quem um ano antes eu pude ver e ouvir dizendo que ‘vivemos em ruínas epistêmicas’, também após a exibição de um filme, seu filme, Orlando: Uma Biografia Política, que fui ver junto com a querida Lara Ovídio em Londres quando eu ainda morava lá. Lara, que é artista e professora, também é outra companheira de aventuras literárias. Nas minhas conversas com Lara e Miguel, a literatura se torna um modo de elaboração dessa experiência de mutação do mundo e suas muitas crises concomitantes e conjuntas. 

Depois de mais uma dessas animadas conversas com Miguel, decidi retomar esse texto que escrevi há cinco anos, depois de ter lido Os Detetives Selvagens do Roberto Bolaño. Recentemente, não sei exatamente por que motivo, voltei a ler o Bolaño, seus livros Estrela Distante e Amuleto (que a Lara, grande leitora de Bolaño, me emprestou), bons companheiros na passagem das horas. Sempre me impressiona a rede de estórias que se interconectam em sua obra, fazendo da literatura um jeito de pensar a si mesma ao mesmo tempo que permeia temas como a violência social e política, a imigração, as ditaduras na América Latina, dentre outras questões. Se os teóricos expandem e refinam as linhas de suas malhas conceituais para apreender o mundo, explicar suas falhas e procurar uma alternativa de transformação, Bolaño o faz com suas estórias que transformam escritores/as imigrantes em personagens conceituais que atravessam a precariedade econômica da experiência literária e os desertos de Sonora em busca de algo que não dá garantias de que estará lá para ser encontrado, mas cria a possibilidade de uma outra experiência que nunca se encerra numa única resolução, tal como sua metaficção não fecha qualquer interpretação única sobre os livros que passam e desaparecem na dispersão da vida de seus personagens.

Comecei a escrever esse texto durante a pandemia, quando os livros eram, como sempre foram, os companheiros que povoavam minha solidão. Naquela época eu andava pensando em questões que para mim nunca tiveram uma única resposta, pois cabiam a cada contexto vivido sua elaboração: para que escrever, para que literatura etc. Também há um ano li o fabuloso romance de Mohamed Mbougar Sarr, A Mais Recôndita Memória dos Homens, que começa metralhando essas questões irresolúveis na intensidade de seus primeiros capítulos que são como a irrupção de águas agitadas que a seguir desbocam num caudaloso e denso rio escuro onde as respostas demandam mais e mais silêncio. 

“A literatura como um modo de vida. Essa era minha resposta há cincos anos à questão da utilidade e efetividade da literatura.”

Na época que escrevi esse texto, que aqui reescrevo, eu estava relendo um ensaio do Reuben da Rocha que colocava esses problemas sobre os quês e porquês da literatura, o ensaio “Poesia inútil, poesia irrelevante?”, e também estava mexido por outro ensaio intitulado “Literatura de esquerda” escrito pelo argentino Damián Tabarovsky, onde ele interroga um conflito da criação literária entre duas dimensões: as demandas de popularidade, acessibilidade e circulação da literatura via mercado versus o trabalho de invenção conceitual, experimentação formal e tensionamentos de estilo via academia — não que essas dimensões não se atravessem. Ambos os ensaios percorrem caminhos diferentes para chegar numa conclusão similar, que é bem próxima de uma posição que vem desde Blanchot, perpassando autores como Foucault e Deleuze, que seria: a literatura fende a linguagem e quebra a circulação saturada dos signos; leva a linguagem ao seu mutismo; faz dizer o que a linguagem tem de mais interior: sua exterioridade; diz mais quando consegue dar à intuição o que lhe escapa e que não pode ser dito. Toda essa perspectiva é muito bem abordada também pelo livro da Tatiana Salem Levy, A Experiência do Fora, que discute os três franceses mencionados acima.

Li esses franceses discutindo literatura quando fazia meu mestrado na UERJ e escrevia minha dissertação que virou o livro Políticas de Riobaldo. Autores que marcaram muito minha formação, mas quando eu escrevia esse texto de cinco anos atrás que aqui retomo para provar a circularidade do tempo, eu já me deslocava para outras perspectivas e pensava na leitura e nos livros como dispositivos de uma experiência, de uma certa gestão da atenção, de um certo processo de subjetivação. Isso num contexto em que nossa atenção é estilhaçada numa enxurrada de informações e interações mediadas por telas e imagens digitais, que nos faz perder horas numa função de autômato, produzindo dados e valor para as redes sociais em que interagimos.

Eu pensava e continuo pensando e vivendo com os livros como uma mídia óptica. É possível ter uma conexão cibernética com ele tanto quanto com o celular, que molda os tempos, linguagens e hábitos de nossa rotina. A literatura como um modo de vida. Essa era minha resposta há cincos anos à questão da utilidade e efetividade da literatura.

Nesse mesmo texto, que aqui reescrevo, cumprindo o que Waly Salomão disse sobre ‘a memória como uma ilha de edição’, eu dizia preferir pensar tudo isso como uma quebra na função ‘populista’ do livro: pode ser que não convença ninguém, que ninguém leia, que seja esquecido e dez anos depois encontrado. Não, seu livro não vai ser premiado, dizia eu para mim mesmo, eu que nunca tentei prêmio nenhum, não que eu lembre. Se conseguir denunciar todo o mal do mundo, talvez não vá além de alimentar o sentimento de culpa e impotência diante dessas estruturas perversas — receita de um policial. Que ele ganhe o Nobel, há menos mistérios nessa contingência do que nomes na lista de grandes autores que passaram sem ele. Tentava eu me convencer dessas coisas que nunca me fizeram escrever uma linha.

Gostoso foi redescobrir nesse texto um poema de Ernst Jandl traduzido pela Myriam Ávila, e que foi um achado para mim naquela época:

ESTE POEMA

ainda não está bom
e tens de trabalhá-lo mais
mas o mundo não virá abaixo
se o deixares como está
nem mesmo a casa virá abaixo

Como eu disse, uma das leituras que me levaram a pensar sobre esses problemas aqui colocados foi o livro Os Detetives Selvagens do Roberto Bolaño, mas também textos do Ricardo Piglia, outro argentino. Dois autores que interrogam a experiência literária de forma muito interessante. Eu estava pensando sobretudo no ensaio do Piglia chamado “O escritor como leitor”

Com Os Detetives Selvagens, Bolaño conta estórias de um monte de gente tendo experiências diversas, relacionamentos, conflitos, viagens, desaparecimentos, numa vida imersa em livros. Personagens que são poetas, artistas, bandidos, prostitutas, estudantes, livreiros etc. Haverá um livro para todos eles. Já o ensaio do Piglia comenta a experiência de Witold Gombrowicz, escritor polonês que foi para Buenos Aires e lá ficou sabendo da eclosão da Segunda Guerra Mundial, o que impossibilitou seu retorno ao país onde hoje me encontro. Gombrowicz viveu num estado de pobreza em Buenos Aires. Tem duas dimensões que Piglia aborda que acho bem interessantes. Uma é a relação da literatura com os guetos e vielas frequentados por Gombrowicz e toda a língua menor que se constitui em sua errância. Outra, bem mais contraintuitiva, é quando Gombrowicz consegue um emprego num banco e Piglia deixa algumas intuições sobre a relação da literatura com a moeda e com as finanças, elaborando algumas reflexões interessantes sobre o valor da poesia que não vou poder elaborar aqui, mas deixo uma outra sugestão bem interessante, que é outro ensaio do Piglia intitulado Teoria del Complot.

O ponto que quero chegar é: pensar a literatura como experiência — e via de troca de experiência — que permeia tudo. E é bom que haja mesmo uma enxurrada de escritos. Pelo menos 10 livros para cada situação possível. 10 perspectivas diferentes, 10 especulações possíveis sobre aquela situação, 10 panoramas, 10 visões distanciadas de um grande bloco de tempo e um conjunto de eventos ou mesmo uma incursão nas infinidades de um dia, como no Ulysses de Joyce. Ler um livro de literatura é ter um tipo de experiência e através da leitura poder interrogar sua própria experiência. E às vezes basta apenas um livro. Um livro esquecido, mas o livro que te acompanha. Você nem sabe direito quem é a pessoa que escreveu, mas se apropria dele. O Vinicius Ferreira Barth tem um conto que apresenta isso muito bem. O conto se chama “A Epifania do Mundo em Torno de Um Sussurro” e está em seu livro Razões do Agir de Um Bicho Humano. É a estória de um cara que só tinha um livro, era o único que ele havia lido. Ele teve a oportunidade de conhecer a autora e foi frustrante. Era um livro renegado para ela e ela ficou enraivecida quando o personagem pediu um autógrafo. Mas era o livro da vida dele e ele se apropriou daquilo como seu.

Na época que escrevi este ensaio, eu dizia achar bonito pensar nos leitores encarcerados e a companhia que os livros lhe trazem. O que hoje penso, Deus me livre, prefiro ser ‘um prisioneiro das linhas brancas da estrada’, como cantou Joni Mitchell. Mas eu dizia naquela época, confinado pela pandemia, que também pensava nos dias em que desmorona sobre nós o sentimento de abandono e não conseguimos sustentar nenhuma certeza ou uma mísera expectativa positiva sobre o mundo, e daí pegamos um livro chorando e lemos. Se tivermos sorte na escolha, ganhamos até mais uma hora. Nessa passagem de horas, cheguei aqui, cinco anos depois, para terminar com o mesmo poema que naquela época segurou ainda um pedaço de céu sobre mim. Era este poema da Ana Martins Marques:

MESA

Mais importante que ter uma memória é ter uma mesa
mais importante que já ter amado um dia é ter uma mesa sólida
uma mesa que é como uma cama diurna
com seu coração de árvore, de floresta
é importante em matéria de amor não meter os pés pelas mãos
mas mais importante é ter uma mesa
porque uma mesa é uma espécie de chão que apoia
os que ainda não caíram de vez.

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Renan Porto é pesquisador, ensaísta e poeta. É professor assistente (pós-doc) na Universidade de Silésia na Polônia e doutor em direito na Universidade de Westminster. Publicou o livro de poemas O Cólera A Febre (Urutau, 2018) e o livro de ensaio Políticas de Riobaldo: a justiça jagunça e suas máquinas de guerra (Cepe, 2021).