Ensaio

‘A Escrita como Acontecimento: Processos Criativos em Junho e Matzatea’, por Emanuel Souza

Publicado originalmente em 25 de julho de 2025.

O presente artigo tem como objetivo refletir sobre os processos criativos e conceituais envolvidos na elaboração das obras Junho e Matzatea. A partir de uma perspectiva autoral, o texto explora a gênese de uma técnica narrativa denominada “exteriorização presente”, situando-a dentro de um campo literário influenciado pelo movimento beatnik e por referenciais filosóficos, como o pensamento de Gilles Deleuze. Ao traçar os caminhos percorridos na construção dessas obras, busca-se não apenas compartilhar os bastidores da escrita, mas também propor uma abordagem epistemológica que interliga literatura, filosofia e linguagem cinematográfica.

Sobre a Escrita e Junho

Quando comecei a escrever Junho, tinha como objetivo escrever uma série de crônicas que não necessariamente seguiriam a ordem de um livro. Por isso, neste primeiro momento, o título da obra foi Crônicas dos Anos Dez. Contudo, insatisfeito com o encadeamento da trama, tomei uma nova abordagem. Mergulhei profundamente na inspiração beatnik, que, já presente, passou a ser a principal referência.

A mudança marcante veio com a transformação do texto em terceira pessoa para primeira pessoa. Da mesma forma que em On the Road, narrador e protagonista se confundem, a nova voz transformou as Crônicas dos Anos Dez em Junho, com o tom de diário de alguém vivendo intensivamente os acontecimentos narrados. Tomando o “eu oculto” como voz ativa, a narrativa ganha dinâmica e fluidez, aproximando a velocidade entre a escrita e o fluxo do pensamento, gerando um manifesto de escrita frenética da mesma forma que construído por William Burroughs (BURROUGHS, 2004).

Tomando esse referencial beatnik como base, e continuamente buscando autores e técnicas únicas, é possível recortar uma nova abordagem literária — um conjunto de ferramentas organizadas em uma forma específica, gerando uma técnica. Essa abordagem epistemológica nos aproxima da perspectiva deleuziana do “filho monstro”. Na “Carta a um Crítico Severo”, publicada no livro Conversações, Deleuze (1992) descreve sua abordagem singular à história da filosofia. Levando essa abordagem para a literatura, criar novas técnicas a partir de uma concepção monstruosa gera um filho que remete a diferentes filiações, ao mesmo tempo em que é único.

Neste ponto, uma nova técnica literária é concebida, alcunhada pelo escritor Emanuel Souza de Exteriorização Presente. Este estilo literário é marcado por uma linguagem fluida e cortes que aproximam a literatura da linguagem cinematográfica. Acompanhando o fluxo do pensamento, a narrativa atua na intercessão entre interior e exterior — experiência do entre, onde o experienciado e o narrado coemergem em um fenômeno presente. Essa experiência é acentuada pela escolha do tempo verbal: mormente ao longo do texto é utilizado o tempo presente. Mesmo quando a narrativa retoma o passado, ou se apresenta como memória, os fatos são narrados no tempo verbal presente. Desta forma, o tempo narrado é sempre o agora. Assim como lembrar é reviver a experiência, a técnica da Exteriorização Presente cria, entre o leitor e a leitura, um catalisador intensivo em que o acontecimento é o principal protagonista.

Matzatea

Após a publicação de Junho, passei um tempo dedicado à leitura e à escrita poética. Buscando afiar a técnica de Exteriorização Presente, optei, desta vez, por trocar a narrativa em primeira pessoa pela narrativa em terceira. Mesmo com essa derivação, o essencial da técnica permanece. O desafio torna-se criar a simultaneidade entre a ação e o narrado, tendo em vista que, em determinados momentos, narrador e protagonista se confundem, entretanto, em outros, a narrativa escorre entre um narrador onisciente e a escrita fragmentada, compondo, por meio de cortes, cenas e cenários que excedem o tempo e o espaço daquilo que poderia ser chamado de trama principal.

Neste livro, acompanhamos o protagonista Abelardo. A história é situada no Rio de Janeiro dos anos noventa. Nesta versão da realidade, o Brasil ainda é governado pela ditadura militar, compondo um fundo distópico no qual os acontecimentos seguem seu curso.

No começo, a narrativa tem um tom kafkiano, enquanto o leitor segue o protagonista em sua entediante rotina — entre o trajeto casa-trabalho e o ambiente do escritório de contabilidade. É nesse ambiente que a narrativa nos apresenta os primeiros personagens. O escritório da Conta Conta Contabilidade é o cenário inicial. Entre o tom cômico dos nomes e os personagens extravagantes, há uma sátira à política burocrática. Sendo uma engrenagem desse sistema, Abelardo devaneia em questões existenciais, questionando sua presente situação e procurando saídas que não encontra. Enquanto isso, segue o automatismo da rotina com a incômoda sensação de espera.

A história encontra um ponto de quebra em uma noite chuvosa. Após um dia estafante e entediante, Abelardo espera em um ponto de ônibus a almejada condução para casa, atrasada, já que o trânsito está parado. A cidade transborda frente ao grande volume de água que, em tempestade, cai do céu. No ponto de ônibus, Abelardo espera, tocando memórias da infância e do que, na época, esperava. Memórias seguem o filme da vida, expostas na tela do agora, tornando a metáfora da espera uma presença incômoda atualizada na espera encharcada.

Quando, por uma fração de tempo, o clima tempestuoso parece respirar, Abelardo decide ir andando. Já molhado e mal-humorado, parte destemido, ainda que saiba ser grande a distância. Sente algo até então não sentido: está cansado de esperar. A caminhada na chuva é uma experiência de diluição do eu, deixando as águas pluviais levarem pensamentos e estigmas, a tal ponto que começa a questionar se o que vive é real ou um sonho. A dúvida se acentua quando, na vitrine de um antiquário, encontra um sofá.

Um velho sofá, carismático, quase vivo, emanando uma vibração hipnótica. Enquanto o mesmerizado observa a vitrine, Ramon Ruiz, o idoso dono do antiquário, aparece, convidando-o a conhecer a loja. Atravessar para o interior da loja é atravessar um portal para o Fora. Os primeiros passos trazem susto, quando os olhos encontram o inesperado. A fachada simples esconde a alcova de maravilhas e perigos, acentuando a dúvida sobre a realidade do momento. O estatuto do real é colocado em xeque. Os dias seguintes já não são mais os mesmos. Abelardo tocou o outro lado do véu da realidade. Ainda que não dê conta de colocar em palavras a confusão mental que experimenta, questões existenciais parecem encontrar resposta.Neste ponto, a narrativa ganha intensidade, acentuada pela Exteriorização Presente. O tom kafkiano desaparece, dando lugar a uma aura ambiental com similaridades com os cenários de Lovecraft (LOVECRAFT, 2017). Neste autor, frequentemente nos deparamos com situações-limite entre a loucura e o sobrenatural. Nesse viés, a história toma um novo rumo enquanto acompanhamos a rotina de Abelardo, agora modificada. Cessa a sensação de espera e, em seu lugar, surge uma estranha sensação de dúvida e certeza — paradoxo posto, seguimos os fatos e suas ramificações, tanto nas realidades físicas quanto nas ocultas e inconscientes.

Conclusão

As obras Junho e Matzatea não são apenas narrativas, mas exercícios de linguagem que tensionam os limites entre pensamento e expressão, entre vida e escrita. A partir da elaboração da técnica de exteriorização presente, delineia-se uma proposta literária ancorada na velocidade do pensamento, nas lacunas da memória e na diluição do eu enquanto personagem e narrador. O uso do tempo presente como catalisador intensivo e o flerte com uma estética cinematográfica criam uma experiência de leitura que atravessa o sujeito e o coloca diante de um campo de afetos, rupturas e fabulações.

Mais do que buscar um lugar fixo na tradição literária, essas obras propõem deslocamentos. Dialogam com Deleuze, com Burroughs, com Kafka e Lovecraft não para imitá-los, mas para gerar — como filhos monstros — algo novo, singular e híbrido. Ao final, resta o convite: que o leitor não apenas leia, mas se deixe atravessar, se perca nos fluxos e se reencontre, talvez transformado, no desfecho incerto das páginas.

REFERÊNCIAS

BURROUGHS, William. Almoço nu. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

DELEUZE, Gilles. Carta a um crítico severo. In: ______. Conversações. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 1992. p. 11–20.

KEROUAC, Jack. On the road: pé na estrada. São Paulo: L&PM, 2008.

LOVECRAFT, H. P. O chamado de Cthulhu e outros contos. São Paulo: Hedra, 2017.

SOUZA, Emanuel. Junho. Rio de Janeiro: Editora Telha, 2024.