Entrevistas

‘Entendemos, enfim, que o lugar do estereótipo não nos cabe’, diz Octávio Santiago, autor de ‘Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste’

Em entrevista para a revista O Odisseu, Octávio Santiago, jornalista e autor ‘Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste’ (Autêntica, 2024), afirma que artistas nordestinos contemporâneos estão virando a página do estereótipo.

Fotos: Rierson Marcos.


Desde que ouvi falar pela primeira vez do livro do jornalista Octávio Santiago, fiquei muito interessado em lê-lo e trazer para a revista O Odisseu. Produzir a revista, de certa forma, foi o que me abriu os olhos para a realidade de preconceito contra os nordestinos. Até então, eu não tinha notado como, sistematicamente, existia (ainda, inacreditavelmente ainda) uma resistência à produção artística e intelectual de nordestinos. 

Os clubismos, a distância geográfica do “centro” literário do Brasil, me levaram a perceber que, para ser um escritor reconhecido ou um crítico a quem se leva a sério, era necessário mais do que apenas ser bom. Na verdade, ser bom parece nem ser tão importante quanto estar no Sudeste. Santiago, jornalista e doutor em ciências da educação pela Universidade de Minho, traz essa perspectiva de forma bem clara em seu livro, algo que ele reafirma nesta entrevista. “A missão de dizer a quem se entende como centro que é preciso olhar para o que supostamente está fora desse centro parece difícil”, disse na entrevista que você confere a seguir. 

Me identifico com o autor no sentido de que também tomei para mim essa árdua missão de questionar o centro hegemônico. As histórias contadas em “Só sei que foi assim”, revelam como um nordestino precisa sempre reafirmar a sua posição, a sua capacidade intelectual e as suas qualidades. São histórias absurdas, embora reais. Entretanto, o livro não se resume apenas a um compilado de histórias. Trata-se de um trabalho científico de ponta que reúne tanto as raízes históricas do preconceito contra nordestinos, como conceitua esse preconceito e abre caminhos para pensar no encerramento deste preconceito. No dia do nordestino, nada mais oportuno do que conversar um pouco sobre este preconceito.

‘O Brasil queria ser branco, e o nordestino era tido como um brasileiro excessivamente miscigenado’, diz Octávio Santiago, autor de ‘Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste’

Ewerton: Em seu livro, você apresenta o preconceito contra nordestinos como racismo, sendo que, geralmente, lemos enquanto xenofobia. Gostaria que você explicasse essa escolha semântica para este preconceito. 

Octávio: Foi uma constatação, na verdade. Eu desconfiava que a origem do preconceito contra nós tinha uma gênese racista, mas ficou muito claro na pesquisa. O Brasil queria ser branco, e o nordestino era tido como um brasileiro excessivamente miscigenado, com mais África e povos indígenas que Europa. O STJ fez a mesma leitura e entendeu que discriminar nordestinos era racismo desde 2022. Essa constatação ajuda a retirar a questão de um status mais “suave”, o da xenofobia, e fazê-lo constar onde deve ser: crime de racismo.

Ewerton: O preconceito contra nordestino está diretamente associado ao fator migração. Foi assim historicamente e tem sido assim na contemporaneidade. No entanto, você apresenta uma diferença do nordestino que hoje migra. Qual o perfil deste migrante nordestino contemporâneo?

Octávio: Muito sabedor do lugar que pode ocupar. Gosto muito de usar Que Horas Ela Volta?, da Ana Muylaert, como exemplo, trago ele no livro. Muitas Vals vieram antes, foram acomodadas no quarto dos fundos. O caminho que nos davam era o de menor prestígio social. Nordestinos e europeus migraram em mesmo volume para São Paulo: um grupo sob apontamentos e outro sob aplausos. Agora, os que ainda chegam, chegam como Jéssicas, a filha que quer protagonismo, e encontram no caminho uma rede incomodada com essa possibilidade de ascensão. Vale dizer que muitos conterrâneos estão retornando, como mostrou o IBGE. O Nordeste como polo de atração.

Ewerton: Há em seu livro o cuidado ao falar dos signos atribuídos à cultura nordestina (chapéu de cangaceiro, o forró, a culinária), no sentido de que se por um lado se apropriar desses signos pode ser uma forma de hastear uma bandeira ou pode ser apenas reforçar os estereótipos já existentes dessa região. Gostaria de ir além: poderia falar de como, também, o capitalismo pode utilizar desses símbolos como uma forma de fazer dinheiro? Por exemplo, artistas que parecem utilizar de toda a indumentária do cangaceiro, mas sem uma ligação direta com essa cultura, apenas como uma forma de monetizar o “exótico”?

Octávio: Essa apropriação dos símbolos fica ainda mais escancarada quando percebemos que não há a valorização do sujeito. No São João, por exemplo, o Brasil quer consumir o Nordeste, mas parte dele não aceita a ideia do protagonismo nordestino. Sempre que há o consumo, o capitalismo vai agir, transformando cultura em mercadoria. O que não podemos é correr o risco de entendermos esses símbolos como definidores. Eles são parte, uma parte, mas não podem nos definir. É preciso lembrar que, historicamente, o Nordeste não foi apenas resumido, foi taxado como menor. Assumir nossa complexidade é fundamental no processo de levante.

‘Estou confiante de que poderemos ter mesas com múltiplos sotaques na próxima edição’, diz Octávio Santiago sobre FLIP após dois anos de ausência de escritores nordestinos

Ewerton: Na literatura, existe um grande debate (não de hoje) quanto a representação da fala nordestina. Muitos autores escolhem, por exemplo, mimetizar na escrita aquele modelo de sotaque único nordestino. Mas, se pensarmos que toda fala tem sotaque (e autores sudestinos não fazem essa demarcação do sotaque na escrita), essa também pode ser uma decisão perigosa? 

Octávio: Isso mostra o quanto nós mesmos internalizamos essa ideia de representação. Eu mesmo já li textos que revelavam uma vontade imensa do autor de estar dentro de uma trama de Dias Gomes ou Aguinaldo Silva: no Nordeste da televisão. Assumindo expressões que nem faziam parte do lugar narrado, mas sim do enlatamento recorrente. Essa necessidade de se preocupar com de onde escrevo e não sobre o que escrevo parece sufocar possibilidades. A caricatura do Nordeste foi tão bem construída que até conterrâneos podem ser atraídos por ela.

Ewerton: Este ano escrevi uma reportagem denunciando a ausência, pelo segundo ano consecutivo, de autores nordestinos na programação principal da FLIP, a principal festa literária do Brasil. No texto, escrevo que apesar dos autores nordestinos terem sido os principais vencedores dos prêmios literários no ano de 2024 (Itamar Vieira Jr. ganha o Jabuti com “Salvar o Fogo”, Luciany Aparecida ganha o Prêmio São Paulo com “Mata Doce” e Micheliny Verunschk ganhou o Prêmio Oceanos com “Caminhar com os mortos”) a programação teve apenas um autor nordestino. Pensando a partir de Cida Bento e seu conceito de “pacto narcísico da branquitude”, poderíamos dizer que existe também um “pacto narcísico dos sudestinos” em apenas privilegiarem a si mesmos?

Octávio: A missão de dizer a quem se entende como centro que é preciso olhar para o que supostamente está fora desse centro parece difícil. Esse esquecimento não pode ser relativizado. Não há como se pensar na literatura brasileira hoje sem considerar a literatura feita por autores do Nordeste. Agora, apesar de ser do celebrado “eixo”, a nova curadora, Rita Palmeira, me parece uma pessoa atenta, muito cuidadosa, e que, nas curadorias que já fez, incluindo a livraria Megafauna, sempre teve uma visão lúcida de Brasil. Estou confiante de que poderemos ter mesas com múltiplos sotaques na próxima edição.

Ewerton: A arte em geral produziu estereótipos sobre o nordestino difíceis de desconstruir. Entretanto, novos autores e artistas nordestinos estão contrariando esta imagem pré-estabelecida. Como você acompanha o novo momento de produção artística de nordestinos?

Octávio: Estamos em uma boa fase, para que se vislumbre uma virada de página. Parece que entendemos, enfim, que o lugar dos estereótipos não nos cabe nem favorece. Vejo muitos artistas compartilhando desse mesmo sentimento, buscando inaugurar um novo momento, e, a partir disso, podemos considerar a contaminação pro bem das pessoas. Uma produção artística voltada para uma atualização necessária.

Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do nordeste, de Octávio Santiago/ Autêntica, 2025/ 256 pp.

Ewerton: Outro estereótipo pela via “positiva” seria, por exemplo, o de que as capitais do nordeste são verdadeiros paraísos na terra por conta da beleza natural. No entanto, essas são cidades cheias de contradições também (aqui em Salvador, por exemplo, a segurança pública é uma grande questão). Em que medida essa outra via de estereotipação vem construindo imagens falsas do nordeste?

Octávio: É como se existissem apenas dois Nordestes: o sertão árido e a praia idílica. Sempre ambientes intocados pelo mundo moderno, pelo nosso tempo. As reduções por si só são incômodas, mas sobretudo o que existe nessas reduções. Eu quero ver na vitrine o Nordeste que tanto contribui para o saber nacional: a ciência, a tecnologia, a inovação. A complexidade das cidades. Isso se reflete na agenda política. A desigualdade urbana é menos falada que a rural. Quantos presidenciáveis não se dirigem ao Nordeste para falar apenas de acesso à água? Queremos falar de universidades, de startups, de indústria. É interessante pensar que, durante anos, a água resolveria o “problema” do Nordeste, mas nos foi negada em várias oportunidades. Aí agora, quando ela é apenas parte do que pode nos restabelecer, é a única coisa que nos é oferecida.

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