
A literatura das ruínas de Vítor Ribeiro-Santos
“Escrever um livro sobre ruínas é não negá-las, mas fazê-las dizer algo”
Foto Divulgação
O que são ruínas? Para alguns, o fim de algo grandioso, os restos mortais de uma história interrompida pela roda implacável do tempo. Para outros, uma oportunidade de recomeço; uma nova chance para pôr de pé projetos abandonados. Para Vitor Ribeiro-Santos, autor de /um mapa das ruínas/, lançado, este ano, pela editora Mondru, a resposta é poética: “Escrever um livro sobre ruínas é não negá-las, mas fazê-las dizer algo”. As ruínas de Vitor dizem muito e dialogam, principalmente, com os próprios pedacinhos de nós que, por incapacidade ou medo, não conseguimos por em palavras.
Os personagens dos 11 textos que compõem o livro misturam-se em um fluxo de consciência, por vezes, sufocante, mas que nos oferece uma experiência sinestésica e um mergulho intenso nos sentimentos dos mais primevos e compartilhados por todos que, demasiadamente humanos, habitam a existência nesse mundo que pode, num piscar de olhos, tornar ao nada.
Autor de dois outros livros: Thales, ou O Desconhecimento (Minimalismos, 2024) e Pronunciar o Chão (Campo ou Bola, 2023), Vitor Ribeiro- Santos, vencedor do prêmio Alceu Amoroso Lima pela Academia Brasileira de Letras, afirma que /um mapa das ruínas/, apesar da diferença temática e de dicção entre suas obras anteriores, constitui “uma mesma constelação de problemas: meus tratados de ontologia acabam saindo acidentalmente como obras literárias. Em verdade, toda essa produção parte de um esforço em tentar uma literatura que parta das coisas – e as palavras são coisas – para uma investigação sempre parcial do mundo.”
Em entrevista à Revista O Odisseu, o autor comenta sobre o processo longo de escrita do livro, além de lançar um olhar crítico e certeiro sobre a produção literária em um mundo que caminha, a passos largos, para o irremediável.
CA: Você é autor de dois outros livros: Thales, ou O Desconhecimento (Minimalismos, 2024) e Pronunciar o Chão (Campo ou Bola, 2023). Qual a diferença do projeto estético e literário de /um mapa das ruínas/ para as suas duas obras anteriores?
VRS: Há uma diferença de tema e de dicção, sem dúvidas, mas todas as obras constituem uma mesma constelação de problemas: meus tratados de ontologia acabam saindo acidentalmente como obras literárias. Em verdade, toda essa produção parte de um esforço em tentar uma literatura que parta das coisas – e as palavras são coisas – para uma investigação sempre parcial do mundo. Em Thales, isso se manifesta em um discurso crítico sobre a educação, que transforma a realidade em algo plano, ensinável; em Pronunciar, o futebol se mostra como uma forma de investigar a relação entre corpo e espaço, abstrato e real. Acho que aí está a soma de interesses que a literatura, até hoje, me oferece.
CA: Em Você está aqui? vemos uma reflexão sobre os textos reunidos no livro, mas, sobretudo, sobre o fazer literário, que pode ser um processo árduo e complexo para uns, mas feliz e necessário para outros. Mesmo depois de dois livros lançados, você ainda tem medo do “ridículo de dizer” ou lhe assusta mais o peso da angústia do “ridículo de não ter dito”?
VRS: Em todo caso seremos ridículos – e esse me parece um grande ponto de partida. A Literatura – em maiúsculas – ganhou um local social levando-se a sério e produzindo discursos elogiosos sobre si própria e sobre seus próprios poderes quase sobrenaturais: quem estivesse de fora, estaria apenas por incapacidade. A reação a isso é, vemos em toda parte, um discurso ressentido que, a partir do anti-intelectualismo, quer tratar a literatura como uma forma arcaica de dizer e fazer mundos, restringindo seu espaço social. Vemos aí, me parece, o embate de uma classe média e de certa elite que se vale da literatura para se posicionar socialmente e, de outro lado, de uma classe alta que é orgulhosamente alheia a formas de pensar o mundo. Creio que partir de um ponto de vista ridículo é escapar dessa esquina infernal: é ridículo pois nunca terá fim, sempre será parcial, nunca será como imaginamos – mas o oposto disso é simplesmente abdicar.
CA: /um mapa das ruínas/ reúne textos produzidos ao longo de 10 anos de trabalho. Nesses 10 anos, como suas vivências influenciaram no processo de construção e concepção da obra?
VRS: Creio que há duas grandes dimensões aqui: a primeira, de uma relação com a escrita que mudou muito a partir do contato quase sempre doloroso e deletério com o campo literário, que é muito hostil para quem vem de lugares como eu vim – isto gerou um ajuste de expectativas para a obra, ainda que não a tenha feito ser menos propositiva – mas sem dúvidas menos idealizada em seu impacto. A segunda dimensão se dá, é claro, no nível social compartilhado durante a produção do texto: a ruína se redefine, e este é um país que foi erguido de ruína em ruína, bem sabemos. Em 10 anos, vimos o pacto social se esmigalhar completamente, testamos todos os limites do bom senso e do bom gosto, e vimos muitos acreditarem que esses ciclos se superam, são fatos isolados. Falar de ruína aqui, no entanto, é falar de uma continuidade perversa e inevitável.
CA: No texto Você está aqui? o narrador afirma: “Lidamos profissionalmente com nossas próprias vidas, as administramos e admitimos, batemos o ponto no horário combinado”. O texto nos coloca diante da constatação que, por vezes, vivemos como autômatos e agimos como quem apenas existe ou nos esforçando para “que a vida não atravancasse nossas próprias formas de vive-la – já que delas não parecemos dispostos a abdicar”. Na sua opinião, para que possamos repensar uma existência, por vezes, tão mecânica é necessário ruir para nos reerguer um pouco mais dispostos para a vida?
VRS: Não sei bem se seria tão otimista, acho que há poucos momentos de verdade na vida que admitimos como normal e aceitável – por isso me parece muito cínica uma literatura que se baseia em apenas buscar certa beleza no cotidiano, ou rir disso. Não há nada emancipador ali, e parece que perdemos o horizonte crítico quanto a isso. O que aprendemos, por exemplo, numa pandemia? Não me parece que muito. A vida segue sendo uma das mercadorias a serem repartidas, e o bem-estar é, hoje, seu produto mais caro.
CA: Os textos apresentam um fluxo de consciência, por vezes, sufocante, o que oferece ao leitor uma experiência sinestésica e lhe permite um mergulho nos pensamentos dos personagens/narradores de forma a conhecer as entranhas das almas ruidas. Escrever de forma a subverter uma estética “esperada” para uma narrativa é produzir nas ruínas ou faz parte de uma tentativa de transformar as ruínas em matéria-prima para dizer?
VRS: Acho que você colocou, e muito bem, os dois termos de uma dialética entre o real e sua construção. Por mais que haja o close-reading, o estruturalismo ou o que quer que seja, é de uma experiência corporal que surge a vontade de dizer: em /um mapa/, essa chave é uma sensação de quebra. Tal quebra encontrou, no texto, uma emulação a partir das defasagens de expectativa, de ritmo, na falta de ancoragem: a ideia foi de fato, produzir sua sensação, e fazer com que ela retornasse ao mundo por meio de palavras – também objetos arruinados. E então o ciclo pode se reiniciar.
CA: A morte, física ou mesmo emocional, acaba surgindo nos textos e nos remete ao lugar do luto e da finitude como lugar irremediável na vida de todos. Como você lida com a ideia do fim?
VRS: Lido escrevendo textos sobre isso (risos). Porque, quanto mais eu leio os clássicos gregos ou latinos, mais me parece claro que nos afastamos de uma dimensão essencial da vida: a gente só está aqui enganando a morte ou, como uma frase que Ricardo Araújo Pereira sempre usa, uma coisa engraçada me aconteceu enquanto eu estava à caminho da sepultura. A arte, ao menos, nos repõe à certa dimensão pública para a morte – algo que se perdeu muito, e deliberadamente, quando o sofrimento é rechaçado se não puder ser um produto. Lembro-me dos enterros no interior da Bahia, e sinto que ali estavam cristalizados séculos e séculos de entendimento sobre o pacto social ao redor da morte.
CA: Embora distintos em conteúdo, os textos parecem complementar-se tal como um mapa que, no fim das contas, desemboca no “Nada”, que o narrador/personagem chama de “um ente pleno, mineral, honesto”. O nada pode ser assustador, principalmente para um escritor. Mas para Vitor Ribeiro-Santos, o que o nada representa?
VRS: O nada representa o destino natural de todas as coisas, belas ou horrendas. Mas, pensando em nossos termos miudinhos de uma espécie em vias de acabar, o nada é a expressão daquilo que Safatle chamou de desamparo: a ideia de operar para além de conceitos como esperança e liberdade: permite-se então às coisas irem além de expectativas pré-concebidas, busca-se novas relações entre ser e coisa. O nada é assustador pois é, de fato, assustador ver-se como algo finito: tudo é trágico, tudo é cômico. Lidamos com isso enquanto nos for possível lidar.
CA: Por fim, conte-nos sobre sua relação com a literatura e como ela lhe ajuda a lidar com suas próprias ruinas.
VRS: Literatura é jogar futebol com as mãos, acariciar um cão que não existe, sonhar os sonhos dos outros. Não sei dizer o que é isso, mas sei que podemos chegar muito mais longe se acabarmos com uma suposta essência excepcional que essa prática teria. Ela não tem nenhuma obrigação com este mundo que não a mesma de um peixe abissal ou de uma semente de girassol: ainda assim, deixa neste espaço uma marca que, é claro, será apagada um dia. Falar sobre isso já me parece algo significativo que este espaço oferta a quem se apresenta disposto a pensá-lo, e ser pensado por ele. Escrever um livro sobre ruínas é não negá-las, mas fazê-las dizer algo.

/um mapa das ruínas/, Vitor Ribeiro-Santos
Editora Mondru
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