
‘O deus das infinitas surpresas’, conto de otavio leonidio
E então, por puro instinto, ao modo de quem reage a uma pedra ou uma faca lançada contra a sua cara, ele fechou os olhos, e o que ele viu, para sua surpresa e arrebatamento, não foi nem a transparência do que é nem a opacidade do que não é […]
PQNA VOLTE!
Grafite, Curitiba, 1972
“… que toda viagem é feita só de partida” – foi o que ela disse, assim, do nada, enquanto baixava o olhar e mergulhava a ponta do torrão de açúcar na superfície do café à sua frente, calculando mentalmente os segundos que precediam o colapso que cedo ou tarde viria e transformaria o que era imaculado e íntegro em corrompido e ruinoso, ou então, quem sabe naquela noite, naquela rodoviária fria e feia e úmida, como só aconteceu uma única vez ao longo dos quase seis anos em que eles viveram o que foi de fato uma única e mesma vida – a vida deles –, a eventualidade de o café se infiltrar por completo no torrão de açúcar e o torrão de açúcar teimar em permanecer íntegro ainda que inteiramente encharcado, suspenso entre o polegar e o indicador da mão que, naquele dia, por puro acaso, se ocupasse da empreitada, ainda que apenas pelo espaço de tempo de, num átimo, ela o levar à boca e, de olhos fechados, o saborear como quem saboreia uma vitória inverossímil – a vitória da coesão precária do torrão de açúcar sobre a infiltração corrosiva do café, do praticamente impossível sobre o líquido e certo, do invulgar sobre o lugar comum, a vitória daquilo que nasceu votado à perda e que no entanto, justo naquela noite, cismou em protestar, em dizer não, em seguir adiante, existindo, apenas existindo, do jeito que tantas coisas seguiam todo dia existindo sem que ninguém jamais tenha se surpreendido ou admirado ou implicado com aquilo, ora pois, coisas grandes e pequenas, modestas e estrondosas, plausíveis e miraculosas. E tudo isso para quê? Para terminar do mesmo jeito de sempre: dissolvido, destroçado, deglutido numa rodoviária fria e feia e úmida como só mesmo no inverno de Curitiba. E foi bem nesse momento, vendo o café se infiltrar no torrão de açúcar suspenso entre os dedos dela, que ele se deu conta do sentido daquela frase que, como no poema que ela um dia leu para ele – ele que até aquele dia nunca tinha conhecido a Graça de ouvir ninguém ler poema nenhum para ele –, era de fato só-lâmina de tanto que só-cortava tudo que encontrava pela frente, a começar por um mundo que, como a esta altura já estava mais do que claro, dali em diante ia seguir para sempre partido ao meio: de um lado, o mundo dela; do outro, o meio mundo que sobrava para ele e que no fim das contas não era mundo nenhum porque nele não havia mais ela. E então, por puro instinto, ao modo de quem reage a uma pedra ou uma faca lançada contra a sua cara, ele fechou os olhos, e o que ele viu, para sua surpresa e arrebatamento, não foi nem a transparência do que é nem a opacidade do que não é; foi, isso sim, quem jamais poderia imaginar, sortilégio dos sortilégios, oh Deus das infinitas surpresas – um torrão de açúcar! Mas um torrão de açúcar tão mágico e tão benfazejo que ninguém precisava que lhe solicitassem nada para que ele, esse torrão encantado, por sua conta e iniciativa próprias, restituísse a inteireza do mundo e de todas as suas coisas, tomando por início, bem entendido, as coisas que àquela altura se encontrassem muito corrompidas e ruinosas, coisas que eram tantas, mas tantas, que era impossível enumerá-las e mais ainda hierarquizá-las, mas que, mais por magia do que por pura coincidência, tinham à sua frente, naquela lista imaginária, de quem ninguém jamais terá um dia visto o fim, justamente aquela frase e todas as calamidades que dela advinham – a começar por um mundo partido ao meio sem qualquer possibilidade de reparo ou remendo: o mundo deles. E o que ele viu se desenhar na sua mente era tão imaculado e tão íntegro e tão coerente e tão conforme ao que tudo deveria ser que, também por instinto, sem pensar nas consequências desse ato porventura temerário, ele abriu os olhos; e o que estava ali à sua frente e ele viu, maravilhado, oh Deus das infinitas surpresas, não foi só um torrão de açúcar imaculado e para sempre suspenso entre o ser para sempre e o não ser nunca mais, mas algo que ele nunca poderia ter jamais imaginado ver nessa vida, porque era um mundo em que nada, nunca, em tempo ou lugar nenhum, seria de novo partido.1
- O verso “Que toda viagem é feita só de partida” faz parte do poema “V, de Viagem” de Paulo Leminski. A imagem do torrão de açúcar é um still (doméstico, de minha autoria) do filme A liberdade é azul, (1993) de Krzysztof Kieślowski. ↩︎

otavio leonidio é arquiteto e doutor em história. Professor associado do Departamento de Arquitetural & Urbanismo e dos programas de pós-graduação em Arquitetura e História Social da Cultura da PUC-Rio. Autor de Carradas de razões: Lucio Costa e a arquitetura moderna brasileira (Loyola/PUC-Rio, 2005), Espaço de risco (Romano Guerra, 2016) e Objeto impróprio: arte, política e o contemporâneo (Numa/PUC-Rio, 2024).
