Entrevistas

‘Parto de imagens bem próximas, mas não me limito ao relato pessoal’, diz Lucas Litrento que relança o livro de contos ‘TXOW’

Em entrevista à revista O Odisseu, Lucas Litrento conta como foi o processo de revisita do livro de contos ‘TXOW’ com o qual foi semifinalista do Prêmio Oceanos. 


Lucas Litrento é um autor de muita transitividade na cena contemporânea. Ele é o que podemos chamar de artista interdisciplinar, já que trabalha com a realização cinematográfica e, mesmo na literatura, transita entre a poesia e a prosa no formato conto. Como todos nós já sabemos, a narrativa curta, por vezes, pode ser bem mais intrigante que a longa, mas Lucas não parece se intimidar com isso. “O conto combina comigo, como pessoa mesmo, sou obsessivo, muito capricorniano, meio chato, nasci pra escrever isso”, contou na entrevista que você lê a seguir. 

Por TXOW, projeto que relança agora pela Loitxa Lab, super projeto editorial nordestino de ponta, Litrento foi semifinalista do Prêmio Oceanos. O livro passou um tempo fora de circulação (coisa de colecionador), mas volta agora com a que parece ser a sua versão definitiva. E tem novidades! “Além de ter cortado três contos, inseri mais dois”, me contou Lucas na entrevista. 

Aproveitei para perguntar não apenas sobre essa obra, mas achei importante localizá-la dentro do seu projeto estético que é muito consistente. Como vocês poderão ler, Lucas se destaca por ter um trabalho que tem uma unidade na diversidade e TXOW certamente já previa muito do que viria em sua carreira.

Lucas Litrento. Autor do livro de contos TXOW (foto: @jubiracy).

‘Cada vírgula no conto é um pedaço do asfalto que constitui essa pista de mão única’, diz Lucas Litrento que relança o livro de contos TXOW

Ewerton: O projeto volta agora como uma republicação. Me conta um pouco como foi revisitar esses textos em outro momento da sua vida. Qual a visão que você tem de TXOW hoje?

Lucas: Não sei se é apenas pelo seu formato, mas sinto que o conto é um texto que sempre tá ali esperando pra ser lapidado. Seja no formato de esfera ou iceberg, sua unidade de efeito depende da precisão. Diferente do romance, que pode vagar um pouco ou ter uma nota meio fora, cada vírgula no conto é um pedaço do asfalto que constitui essa pista de mão única. Por isso que pode acontecer esse retorno ao texto. Anos depois, a gente vê que ainda faltava uma ediçãozinha, um corte simples, ou um diálogo menos explicativo. Isso é comum. E não vejo problema no fato de isso acontecer em um livro que já foi publicado. Faz parte do jogo do conto, mas não sinto isso no poema.

Há uma manifestação que se encerra quando o poema está pronto. Rever um poema talvez seja escrever outro. O retorno ao conto sempre marca um retrabalho, a continuação de um diálogo com o texto que ainda existe.

Voltar ao TXOW é um caminho natural tanto por isso quanto por ser um primeiro livro de contos. No fim das contas eu senti que ainda seria capaz de melhorar os textos. Não apenas os textos, mas o livro, refazendo a ordem, mexendo em passagens. Ele foi publicado da melhor maneira possível naquele momento, em 2020. Eu era mais jovem, conhecia menos do mundo e da literatura, de como se veste um texto. Agora me parece que cheguei numa versão definitiva desse livro (por enquanto).

Vejo o TXOW como um livro ainda mais tenso e violento, inclusive, cortei alguns contos que me parecem bonzinhos demais no sentido de manter essa tensão constante. Mas ele não é só isso, são histórias que captam bem o clima da minha cidade e das pessoas parecidas comigo: a fala norteia muito esses humores que rondam o ônibus lotado e as ruas do Biu. Parto de imagens bem próximas, como o meu bairro, a minha rua, o que vejo no olho mágico do portão da minha casa, mas não me limito ao relato pessoal, à vivência. Coloco essa experiência palpável (visual e auditiva) dentro da caixa mágica, aí a vivência vira um conto dentro das suas regras e convenções de gênero: poucas cenas e personagens, a tentativa de deixar o leitor fisgado, a história dupla correndo no mesmo rio, a precisão e a agilidade, a relação com outros textos e literaturas do mundo. 

Ewerton: Alguns escritores de contos, a exemplo do grande Dalton Trevisan, possuem o hábito de sempre editar seus contos para novas publicações ou incluir novos contos numa seleção. Há algo de inédito nessa nova publicação?

Lucas: Além de ter cortado três contos, inseri mais dois. Meio elas por elas, mas essas histórias novas são bem mais tensas do que as que caíram. Daí o livro fica mais maciço, enquanto efeito, pega mais. 

O primeiro conto novo se chama “Oferta de emprego” e traz o cotidiano de um personagem chamado Professor, um jovem negro que dá aulas de reforço escolar nas casas dos playboys da cidade. Escrevi algumas histórias dele, mas essa é a primeira vez que o Professor estará em livro, pro público. 

A outra novidade, “Aro 24, 18 marchas”, é mais uma história com jovens no Biu, meu bairro. Outra espécie de fotografia das ruas de cá. Partindo de um aspecto meio documental da minha memória, mas correndo atrás de um efeito, de um estilo de suspense. 

Ewerton: Há uma visualidade interessantíssima nos contos. Uma cinematografia. E você também é realizador cinematográfico e diretor. Escrever um conto é como filmar um curta?

Lucas: Não, graças a deus, não! Eu tenho total controle sobre o conto, ele é meu mesmo quando eu divido com alguns leitores de confiança. O filme é outra história: são vários filmes que são refeitos a cada processo. A ideia muda quando vira roteiro, o roteiro muda na pré-produção e ainda mais na filmagem, o material bruto das filmagens muda quando vai pra montagem. O filme que sai é completamente diferente do que foi planejado inicialmente.

O filme depende de muitas pessoas e do tempo, do céu, de dinheiro, é muito estressante, não sei por que faço. Gosto muito disso mesmo. O conto é diferente, ele tem o tempo dele, agora eu aprendi isso. Não tenho mais tanta pressa pra escrever.

Existem semelhanças temporais, não na produção, mas dentro dessas obras; o tempo é curto, assim como a quantidade de cenas e de personagens. O conto e o curta precisam ser memoráveis a partir da concisão. Não adianta querer contar toda uma vida cheia de detalhes ou emendar um discurso pesado, o lance é mais uma flechada, poucas ideias. Escrever a partir do limite de páginas é um jogo divertido, perigoso, mas divertido. Isso é o que aproxima com mais clareza o conto do curta-metragem. E tento atingir esse efeito quando trabalho nas duas linguagens.

Na poesia, muitas vezes, tudo é feito pelo e a partir do instante. No conto (e, de sobra, também no curta) não é bem sobre o instante, mas o caminho até chegar nesse momento. É a construção de um momento breve que às vezes nem chega, muito menos aparece.  

‘Não é porque eu escrevo narradores em primeira pessoa baseados na prosódia dos meus pais, amigos e vizinhos que o trabalho é fácil’, diz Lucas Litrento

Lucas Litrento. Foto: @mikmoreira.

Ewerton: Em termos de construção da narrativa, há uma presença forte da oralidade urbana no texto (a começar pelo próprio título). Fale um pouco de como foi dar essa voz aos personagens e à narrativa?

Lucas: É preciso prestar atenção, ouvir o que as pessoas falam e de que modo elas falam, pra depois começar a escrever. É notar que no burburinho de um ônibus lotado ou no caos da nossa própria casa cheia de gente existe uma musicalidade tão interessante quanto as histórias dentro das histórias contadas por Riobaldo no Grande Sertão. O que eu tento roubar, e gosto de chamar dessa forma, ao ouvir a fala dos alagoanos que me rodeiam não é apenas um causo, um fato ou uma imagem interessante, é também a forma desse discurso, a partitura das fofocas contadas por mainha às minhas tias.

A realidade e as questões do meu povo são essenciais e importantes, mas o que justifica escrever um conto e não outra coisa é o modo como essas pessoas falam e o desejo muito forte que sinto de emular (ou, na impossibilidade disso, homenagear) todos esses conhecidos e anônimos. 

Há um personagem que está sempre em duplas negativas, em estado de culpa, em luto. A linguagem desse conto é dura e não existem vírgulas. Em outra história, o início também é o final, já que realidade e sonho se misturam sem nenhuma marcação em itálico ou espaçamento duplo. A primeira história é um blocão, em único parágrafo, de uma desabafo em tempo real.

Não é porque eu escrevo narradores em primeira pessoa baseados na prosódia dos meus pais, amigos e vizinhos que o trabalho é fácil, muito pelo contrário. É um processo que envolve muito teste e investigação, o ouvido precisa tá pronto. Leio muito em voz alta, emulo a urgência do relato, repenso, volto ao texto com outros olhos, tento ser outro leitor. Falho muito, mas não desisto. Funciona quando escuto a minha voz cada vez mais baixa, o personagem precisa tomar as rédeas.

Ewerton: Outro fator que me interessa bastante é o uso do humor. Seus contos, mesmo quando trágicos, trazem essas jogadas humorísticas deliciosas. Como se dá esse encontro entre humor e dramaticidade na sua escrita?

Lucas: É o jeitinho alagoano, o jeitinho brasileiro. As coisas acontecem de tal modo que nem dá tempo de separar o riso do choro. A violência do cotidiano não pede licença, o racismo não dá nó, todos esses problemas que vemos percorrer os contos do TXOW são parte dos nossos calendários. E a gente vive rindo da própria desgraça. Acredito que essa minha investigação com os ouvidos me fez perceber que não dá pra separar muito bem os sentimentos não.

E isso não tira o peso da violência nem a graça das resenhas, o buraco é mais embaixo. É mais ou menos como diz o Al Capone do Robert De Niro no ótimo Os Intocáveis (1987), de Brian De Palma: “Como muitas coisas na vida, nós rimos porque é engraçado e nós rimos porque é verdade”.

Ewerton: Um dos contos, Ajude os menor, foi transformado em curta-metragem este ano e está circulando o Brasil em festivais. Conta como foi esse processo de adaptação e a tradução da linguagem literária para a cinematográfica. 

Lucas: Inicialmente não era um desejo transformar esse conto em filme, mas aí veio a necessidade. Com necessidade eu quero dizer: abriu um edital de cinema, nós não temos roteiro pronto e agora? O caminho foi pegar o conto e jogar pro formato de roteiro sem muito trabalho de adaptação. Daí a gente vê essa coisa do cinema dentro da minha prosa mesmo, o roteiro foi aprovado e eu e Janderson ganhamos mais um curta pra produzir. 

A segunda etapa, a adaptação de fato, começou depois da aprovação. Aí a gente foi passeando por algumas possibilidades de gênero pra história. Porque o nosso lance é fazer cinema de gênero, o Samuel é uma comédia de terror, pra esse novo filme logo pensamos no suspense, no thriller. O ‘Ajude os menor’ é uma história que se passa em um único ambiente, no canteiro de obras, em um prédio em construção. Uma história sobre a raiva e o conflito de classe que formalmente se passa antes do instante. Eu já tava numa pesquisa muito obsessiva do faroeste e o Janderson (que é a outra metade do filme) sugeriu que a gente transformasse o curta em um western americano dos anos 50.

Percebi que muitas rimas e tensões do faroeste já estavam no próprio conto. Investigamos isso com mais força e decupamos o filme à maneira de produções de baixo orçamento do pós-guerra. Outra mudança central surgiu na pré-produção. Invertemos a raça do vilão, que no filme passa a ser um homem negro, aumentando o jogo de espelhos e deixando o filme ainda mais fanoniano. 

(Continua após a foto)

Imagem do filme ‘Ajude os menor’, de Lucas Litrento e Janderson Felipe (2025).

Ewerton: Um tema que é recorrente nos contos é a precariedade do trabalho contemporâneo nos centros urbanos. Esse é um tema que parece compôr o seu projeto estético enquanto artista, já que volta em outros trabalhos, como Samuel foi trabalhar (curta-metragem). Em tempos de debate de fim da escala 6×1 e outros temas relacionados ao trabalho, você acha que a arte pode contribuir para o debate?

Lucas: A real é que o trabalho é um dos temas que mais se repetem nas histórias, sejam elas poemas, contos, filmes, narrativas orais, romances de formação ou autoficcções. Vivemos pro trabalho, morremos em função dele. A novidade, nesse caso, são esses trabalhos informais que surgem nesse regime capitalista da era do celular, das redes sociais. É o entregador por aplicativo, é o jovem aprendiz, é o motorista de Uber, há um padrão nesses corpos, aqui é assim. 

Essa questão da escala de trabalho me toca profundamente porque eu sempre entrei em crise quando pensava nisso, no futuro, em ter um trabalho convencional. Eu não queria perder a possibilidade de poder ser artista, eu odeio trabalhar batendo ponto, em empresa, em escritório, essas coisas. Meus personagens perdem pro regime, deixam de ser artistas, deixam de sonhar, são engolidos, eu não; eu escrevo eles perdendo, nem é um jeito de ganhar, mas de respirar, pelo menos.

Esse sistema 6×1 não é feito pra que pessoas como eu pensem na forma do poema, na mise en scène de um filme. Bom, eu penso. Por conta disso, não vivo com regalias, mas pago o preço, aceito, prefiro conseguir me expressar com a minha arte. Eu vou, mas ela fica, eu acho, eu espero.

‘Maceió uma cidade muito conservadora politicamente, assim como todo o Estado de Alagoas’

Ewerton: Em uma entrevista que você já me concedeu (ao Podcast O Odisseu), você falou como praticou a escrita de contos por meio de oficinas e das suas influências à época (Lygia Fagundes Telles, por exemplo). E hoje? Continua pensando a escrita de contos e lendo contos? Quem você tem lido e que você recomenda?

Lucas: O conto combina comigo, como pessoa mesmo, sou obsessivo, muito capricorniano, meio chato, nasci pra escrever isso. É uma das minhas leituras favoritas desde que me apaixonei por Ficções (1944) do Borges. Cabe um mundo todo dentro de um conto, é um dos gêneros mais complexos e incompletos da literatura. Me interesso muito por seu grau de lacuna, de sombra, de fresta, mas também por sua circularidade, por sua resolução, pelas fórmulas ao redor do conto. Tenho minhas fases, mas geralmente é o gênero que mais leio (às vezes perde pra poesia).

Ando lendo os vizinhos latino-americanos, me identifico muito com essas escritas que se desdobram em comentar a violência dessas terras por meio de uma investigação formal inesgotável. Agora tô lendo o Ricardo Piglia e recomendo um dos seus primeiros livros de contos, Prisão Perpétua (1988). Também cito Chamadas Telefônicas (1997), do Roberto Bolãno, além de Pássaros na Boca (2017) e O Bom Mal (2025), ambos de Samanta Schweblin, escritora incrível e cruel.

Em paralelo ao romance do Piglia, tô lendo os contos do pernambucano Osman Lins: o livro Os Gestos (1957), de uma edição nova da Olho de Vidro. Tem uns contos incríveis. Preciso retomar essa leitura. 

Ewerton: Lemos, em alguns contos, a capital alagoana, Maceió, como plano de fundo. Como toda cidade grande, é uma cidade que tem as suas contradições e violências. A violência urbana é uma questão que você apresenta, assim como a questão da mobilidade urbana. Nesse sentido, é parecido com Salvador (onde eu moro). Tanto Salvador quanto Maceió são cidades que são pintadas tidas como paraísos turísticos por conta da beleza natural, mas também uma miséria que não se conta. Como você sente essa contradição em Maceió?

Lucas: O engraçado é que comparada a cidades como Salvador, Maceió tá longe de ser grande. Mas ela tem praticamente todos os problemas de uma metrópole. Digamos que sejam problemas de capitais. Eu tenho uma relação de amor e ódio com esse lugar, não tem nenhuma condição de ser bairrista como vários recifenses e soteropolitanos. As coisas aqui são muito concentradas, feito dose de cachaça.

É claro que isso não é bom, em linhas gerais. É uma cidade muito conservadora politicamente, assim como todo o Estado de Alagoas. Mas em termos de narrativa essa contradição é o que move dramaticamente as histórias. A terra de Zumbi dos Palmares é também a terra do Quebra de Xangô. A resistência e o seu antídoto correm em paralelo. É uma loucura. Pro tipo de texto que quero escrever, pro tipo de cinema que quero fazer, é o lugar certo pra onde jogar luz. E pensar a política a partir dessas imagens contraditórias, desses personagens dúbios, dessa moral incerta, é um objetivo.

Ewerton: Alguma chance da gente ler uma coleção de contos inéditos num futuro próximo?

Lucas: Terminei um novo livro de contos e já tô colecionando nãos de editoras. Espero não ser tão azarento quanto o Joyce, que passou uns 10 anos pra publicar o Dublinenses, mas também espero ser tão sortudo quanto ele, por ter escrito o Dublinenses.

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TXOW, de Lucas Litrento
Loitxa Lab, 2025