Conto

‘Tão Bonitinha’, um conto de Patrícia Lima

Leia com exclusividade o conto ‘Tão Bonitinha’, presente no livro ‘A glória dos corpos menores’ (Senac Rio, 2024), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura.

Imagem de capa: Arte ‘Pintura Habitada’, de Helena Almeida (1975). Foto de Filipe Braga (Reprodução).

O aluno, com eterno ar de sono, tinha dito um pouco antes do intervalo:

– Que bom seria ter uma avó como a senhora, assim, tão bonitinha!

Quem disse que ela queria ser avó de um menino chato daqueles? Ela levanta a cabeça do vaso sanitário, aturdida pelo pensamento abrupto e o gosto de vômito na boca.

Ao voltar à sala, os alunos estão conversando em grupos dispersos. Ela bate o apagador na mesa. Nada. Bate novamente.

Uma aluna tímida da primeira fila é a única a reparar:

– Pessoal, pessoal, a professora!

Tinha sido fácil gostar deles até ali, ser a professora avozinha. Essa coisa meio assexuada que as velhas viram, sobretudo se forem atenciosas e limpas. Entretanto, nos últimos tempos, algo tinha mudado. Aborrecia-lhe Gabriel e sua mania de perguntar o que era “obtuso”, como se aquilo fosse engraçado. Cansava-lhe Aline e suas lições entregues com letra gorda. Vinha ignorando as reclamações de Marina sobre os meninos. Parece que a achavam feia, ou chata, ou os dois.

Vira-se e escreve na lousa: Queda do Império Romano. Não é o que manda o cronograma, mas é o que ela quer ensinar. Faz uma lista de tópicos: corrupção, instabilidade política, instabilidade econômica, invasões bárbaras.

– É incrível pensar que um dos maiores impérios da história declinou e se desfez em um período tão curto de tempo.

Os alunos bocejam, alguns trocam bilhetes entre si. Ela dedica um tempo à invasão do território romano pelos povos bárbaros. Alguns alunos riem ao ouvir a palavra “vândalos”.

Ela tosse, sente o estômago pedir saída, mas segura.

Ao terminar as aulas da manhã, para em frente ao mural principal, ao lado da sala de reuniões. 

Há cartolinas com desenhos e colagens, avisos de reunião de pais e mestres, chamadas para conselhos de classe. Ela acha que, por mais que mudem o que é pendurado ali, a imagem é sempre a mesma. Busca um café na sala de reuniões, milagrosamente vazia a esse horário. Sente-se aliviada por não ter que cruzar com nenhum colega e ser obrigada a ouvir coisas como: “A senhora não vai se aposentar? Haja coragem para continuar. É preciso ter cuidado na sua idade, não?”

O cheiro de café se mistura à tinta fresca da reforma do pátio principal, o que seu aparelho digestivo considera insuportável, e ela resolve almoçar em outro lugar. No ponto de ônibus, senta-se e espera, sem saber para onde levar o corpo antigo.

Lembra das mãos hidratadas do médico segurando o pacote de exames. Num corte de cena, aquilo poderia se transformar numa fotografia em branco e preto bastante sofisticada, mas a cena era de um mau gosto completo. A assepsia do consultório, uma completa afronta aos pacientes que viam mais vômito do que gente pelos dias. As paredes lisas de cor creme, o cheiro de pinho, as secretárias dizendo coisas tristes com um sorriso no rosto… 

Ela puxa um lenço para perto da boca e tosse. Ao levantar a cabeça, pensa em algo inusitado: não dará as aulas da tarde. É isso. Ninguém vai morrer por sua falta, simplesmente chamarão um substituto ou darão uma atividade inespecífica para os alunos.

E não compartilhará seu estado de saúde com ninguém. Pronto. Alunos, colegas de trabalho, irmã, todos vivendo a realidade, enfim, como se a morte não estivesse à espreita. E como se ela fosse uma bonequinha velha. Se suas células avariadas não disseram nada por si, se ninguém notou seus vômitos, palidez, emagrecimento, não seria ela quem o faria.

Fodam-se eles. Essa seria sua vingança.

Um bem-estar começa-lhe a cutucar a ponta dos dedos e ruma ao centro de seu corpo. De súbito, parece incrível que tenha um resto de vida sem a intromissão de ninguém. Sem explicações ou caras de comiseração.

O ônibus Ferreirinha veio chegando – era o que ela tomava há mais de dez anos. Desde que José falecera, ela não usava mais o carro. Tinha a habilitação para dirigir, mas não a coragem. Sentada naqueles altos bancos, inspirou por anos o cheiro das fumaças da cidade e viu pessoas se despedindo de seus trabalhos, suadas, falantes, aflitas de sol. Dali viu diariamente o portão azul descascado de Adelaide, sua irmã. Por um tempo teve raiva, em outros saudades. Desde a grande briga, a irmã não a tinha procurado, o que mostrava que devia estar ótima com sua família de margarina e seus vizinhos bajuladores. A irmã sempre tinha se valido de sua beleza física, seu carisma. Os cabelos aloirados migraram sem muitos dramas para as faixas grisalhas. Se o amor e as amizades nunca tinham sido um problema para Adelaide, imaginou que com o envelhecimento não seria diferente.

Em dois minutos, veio o Hugo Freire, ônibus da frota antiga que ela nunca havia tomado. Lembra de alunos dizendo que era o ônibus que levava até a casa deles, que fazia um caminho longo e sinuoso, passando por uma boa parte dos bairros de periferia. Ela não tem por que demorar mais e correr riscos. Mas, ora, se for para pensar em riscos e razões, ela não tem por que ter recebido do médico de mãos hidratadas a notícia que recebera, não é mesmo?

Deu o sinal.

Cumprimenta o motorista e apresenta o cartão de idosa, de modo que a passagem lhe é liberada. Num dos primeiros assentos está um homem que parece ter mais ou menos a sua idade, um homem que sorri sem motivo para a tarde que se inaugura. A pele negra descansa sob o sol alto, os cabelos encaracolados e brancos expandem-se assimétricos. Ela se senta ao seu lado, apertando a bolsa entre as pernas.

O ônibus entra na avenida principal. Pelo vidro, ambulantes apinham-se, confirmando uma terça-feira comum. Mulheres gritam o preço das roupas em frente às vitrines. Ela sempre admirou mulheres com coragem de gritar o preço das roupas.

O homem se move no banco, encosta o braço no seu.

– Opa, desculpa.

– Imagina.

Ela sente um arrepio. Abre a bolsa e procura por um batom no fundo do tecido. 

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– Tarde quente, não é? Ela diz, passando o batom vermelho sem muito traquejo.

– Sim, sim. Estou suando mais do que o normal até.

Passa o batom no lábio inferior, procurando em seguida um reflexo possível. No vidro sujo do ônibus, encosta um lábio no outro até sentir que a vermelhidão lhe agrada por completo. Olha-se um pouco mais, rosto sulcado e olhos de um azul transparente. Apesar da idade e da doença, é bonita.

Ao lado, um outro reflexo se sobrepõe. O homem a contempla, confirmando a beleza que de dentro se firma num quadro de moldura imprecisa. Estão conectados pela vida em sol e cimento. São animais velhos da mesma linhagem.

O corpo deles se alarga no banco. O ônibus os embala numa toada constante, entre o cansaço e a contemplação das ruas. Entram num bairro de passagens estreitas e íngremes, com meninos descalços correndo pelas calçadas. Ela nunca havia passado por ali, talvez tivesse se escondido, esses anos todos, das partes mais sujas e recônditas da cidade. Pensa em qual seria o nome do homem. Antônio. Ou Rubens. Tinha sido pedreiro e há pouco se aposentado. Devia ser viúvo. De terça-feira tomava o ônibus até o centro para visitar a filha e o neto. Voltava animado por ter visto o menino balbuciar algumas palavras novas. Ao chegar em casa, tomava banho, fazia um macarrão com qualquer coisa e zapeava pela TV, procurando um filme qualquer para dormir antes de chegar na metade.

Ela acorda com uma virada brusca, o ônibus está entrando numa viela tão estreita que parece impossível que passe sem bater. Mas passa. Quando olha para o lado, Antônio (ou Rubens) não está lá. Ela levanta os olhos e vê que ele está prestes a descer, o braço a segurar o apoio em frente às escadas. Ele é mais baixo do que ela imaginara, as mãos mais negras, os dedos bonitos. Há um pequeno símbolo em sua camisa, um sinal discreto que faz a peça particular: um brasão do Palmeiras bordado numa camiseta branca, algo que poderia ter sido feito por uma esposa. Mas quem poderia dizer? 

Levanta e o segue.

Ela agora pensa em como seria mais solta e alegre se tivesse tempo. Caminha atrás do homem enquanto avista mulheres descendo as ruas em saias coloridas, dispostas a espantar o calor. Ela gostaria de tomar mais cerveja em mesas vermelhas como essas em que há amigos do homem, os quais ele cumprimenta com intimidade, sem beber nenhum gole, entretanto. Ela pensa que poderia dançar músicas que não sejam essas clássicas que ela costuma ouvir sozinha em casa. Não acha que pode dançar funk – como fazem os meninos do outro lado da rua –, seria pedir demais de uma velha bastante debilitada. Mas talvez uma música mais animada, talvez alguns passos menos retesados.

Senta-se na guia da calçada e toma um gole da garrafinha que leva na bolsa. O homem caminha por mais duas ruas estreitas e entra numa casa verde de portão descascado.

Ela espera alguns segundos, avaliando o entorno. Tem medo de ser vista, mas só há crianças gritando e correndo atrás de uma pipa a muitos metros dali. Aproxima-se do portão e empurra devagarinho a ferragem. Ajoelha-se com dificuldade sob uma janela branca, no intuito de escutar os movimentos de dentro da casa. Armários abrindo e fechando, molho de chave sendo jogado sobre uma superfície de madeira. Passos e silêncio. Um chuveiro sendo ligado.

Aperta a bolsa no peito e caminha em direção ao que imagina ser a porta da sala. Um sofá de três lugares, a televisão ligada. Entra num corredor, à direita um quarto com um espelho alto. Apenas roupas masculinas no quarto, certeza que é viúvo. Ao ficar de frente para o espelho, assusta-se com a bagunça de seu próprio corpo. Descabelada, olhos vivos, a blusa cheia de poeira. Olha em volta, um prazer imenso. Mira-se novamente no espelho. Solta os cabelos, derramando-os sobre as orelhas. Linhas finas e muito azuis irradiam de seu pescoço. Abre as mãos: longas, cheias de vincos. É, sim, uma mulher viva. Retira o colar com um pingente turquesa, deixando-o sobre a cômoda, ao lado de um isqueiro. Levanta a blusa amarela até deixar o corpo branco à vista. Descalça as sapatilhas, sentindo o piso frio eriçar seus pelos ralinhos. A saia creme é a última a deslizar.

Os dedos finos abrem a porta do banheiro. Um bafo quente de vapor faz seus olhos arderem. São bonitos os movimentos de homem a se lavar, sombreados na réstia de luz que entra pela janela. Ali mais um espelho, dessa vez retangular – desses comprados em lojas populares de utensílios. Acaricia o próprio braço, depois a barriga, um afago tardio de sua existência.

Abre o pequeno box onde o homem nu se ensaboa. Seus olhos negros estão assustados e limpos, imensos como aquela tarde.

Patrícia Lima tem 38 anos, nasceu na periferia de São Paulo e é funcionária pública da Unesp. Graduada em Letras, com especialização em Linguagem, Cultura e Mídia, coordena o clube de leitura Cevadas Literárias, com debates literários em bares da cidade de Bauru. É autora do livro de poemas O amor é um solo de jazz (Patuá, 2020), além de A glória dos corpos menores, sua estreia nos contos, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2024, um dos mais relevantes prêmios para estreantes do país.

A glória dos corpos menores, de Patrícia Lima
Senac Rio, 2024
120 pp.