
‘O futuro glorioso do livro’, por Ted Gioia
“Imagino um futuro glorioso para o livro. Ele resolve problemas que nem existiam alguns anos atrás. E continuará sendo uma afronta para todas as novas ameaças produzidas pelas tecnologias digitais.”
Texto publicado por Ted Gioia em 26 de agosto de 2025 em sua newsletter The Honest Broker e traduzido por Davi Boaventura. Tradução publicada originalmente em sua newsletter Dengoletter em 26 de setembro de 2025.
Os data centers estão ocupando as manchetes nos últimos tempos.
E não é por um bom motivo.1
Eu tenho meu próprio data center em casa. Ele não precisa de água, eletricidade ou de qualquer outro recurso em vias de extinção. É totalmente renovável.
E este é apenas o primeiro ponto positivo. Existem várias outras vantagens.
Você consegue imaginar um banco de dados que nunca precisa de atualização? Melhor ainda, você não precisa pagar uma assinatura por ele. E o sistema nunca trava — não existe nenhum registro desta natureza na história.
Mas tem mais:
- Sem termos de serviço;
- Sem taxas ocultas;
- Sem robôs de atendimento ao consumidor;
- Sem spams irritantes;
- Sem invasões de privacidade ou vigilância de qualquer tipo;
- Sem problemas de incompatibilidade, tanto agora quanto no futuro;
- Sem publicidade ou notificações.
E a lista continua: sem cookies, sem cartões de crédito, sem pegadinhas, sem condições extraordinárias. Nada disso.
Um milagre!
Estou falando sobre meu aparelho portátil favorito, e não preciso de uma nuvem para armazenar seus conteúdos.
Somente de uma estante.
Você já adivinhou, claro — estou me referindo aos livros. Os maiores bancos de dados da história da humanidade, e nenhum outro sequer chega perto deles.
O livro é o aplicativo definitivo.
As pessoas anunciam a morte dos livros há décadas. A internet iria torná-los obsoletos. Mas, de um jeito ou de outro, eles sobreviveram.
O lançamento do Kindle em 2007 parecia representar um perigo iminente. Até eu me vi convencido disso — pelo menos por um tempo. Comprei um Kindle e botei a mão na massa, mergulhando com entusiasmo no mundo dos e-books e do armazenamento digital. Mas, um mês depois, eu já tinha voltado para os livros físicos. Era uma experiência melhor, em todos os aspectos.
Não ajudou muito o fato da Amazon começar a deletar livros dos Kindles. Para surpresa dos clientes, as pessoas acabaram descobrindo que não possuíam o livro que elas haviam comprado — estavam apenas “comprando uma licença de conteúdo”.
O acesso pode ser revogado. E a Amazon é uma grande revogadora.
Nunca aconteceu nada parecido com qualquer um dos livros nas minhas estantes. Tenho milhares de exemplares, e ninguém nunca revogou meu acesso a eles. Também posso vendê-los ou dar de presente para alguém, e quem os receber será dono dos seus direitos para sempre.
Você não pode fazer isso com um Kindle. Você não tem permissão para vender um e-book. Você não pode nem mesmo doá-lo para uma biblioteca. Sua licença é restrita e não-transferível.
A capacidade de transferência, porém, é a base para a sobrevivência dos livros e da cultura literária. Os livros devem circular livremente por gerações, fronteiras e limites. Alguns livros têm dezenas de proprietários ao longo de centenas de anos — um legado que não possui qualquer paralelo no mundo das tecnologias digitais.
O cenário, na verdade, é ainda mais tortuoso, porque, no Kindle, a Amazon pode simplesmente atualizar os livros — modificando os textos sem a autorização do autor ou dos leitores. Isso já aconteceu, por exemplo, com livros de Roald Dahl, R.L. Stine, Ian Fleming e Agatha Christie. Se alguém em uma posição de poder decide que o trabalho de um autor é problemático, o seu e-book ganha uma bela de uma faxina.
“Editores podem lançar atualizações por qualquer motivo e, de modo geral, não identificam nem explicam as revisões”, alerta o New York Times. Muita gente só ficou sabendo da limpeza de Agatha Christie e de outros autores quando as mudanças foram relatadas pela imprensa. Em alguns casos, os livros tinham sido alterados, em silêncio, há alguns anos já — e os leitores simplesmente não notaram nada.
Você consegue entender o quão complicado é isso?

‘O futuro glorioso do livro’ por Ted Gioia: o livro físico será mais importante do que nunca
E em breve vai ficar pior. Estamos entrando em uma época perigosa, onde as mídias falsas — em texto, imagens, vídeos e áudio — são mais convincentes do que as coisas reais. Tecnologias enganadoras avançaram à velocidade da luz, enquanto continuamos a passos lentos, humanos.
Esta é a nossa vulnerabilidade. Nós somos humanos.
Outro problema é que a Amazon — a mesma companhia que promove os e-books — também é a líder de vendas de cópias geradas por Inteligência Artificial e de livros que são puro lixo eletrônico2. Não sei se ela é negligente ou perversa, mas o fato é que está provocando um mal irremediável à sociedade.
Se a Amazon é a guardiã dos livros e do mundo literário, não quero nem imaginar quem é o inimigo de verdade. Assim que um livro importante é lançado, o lixo eletrônico invade o site da empresa em poucas horas — inúmeras cópias com títulos semelhantes, criadas com o objetivo único de enganar os desavisados.
E a Amazon é, entre as vigaristas, apenas a mais famosa. Milhares de outras empresas também estão surfando nessa mesma farsa.
Muitos ainda estão começando a entender a ameaça representada por essa fraude institucionalizada generalizada. Tal nível de falsificação não era concebível há uma década, ou mesmo há alguns meses. Mas agora estamos nos aproximando de um ponto de inflexão onde as falsificações vão atropelar a realidade, uma espécie de Lei de Gresham da esfera criativa.
Nesta nova Idade das Trevas da mídia fake, o livro físico será mais importante do que nunca. Minha humilde estante será um bunker à prova de erros, onde bots, agentes de IA e tecnocratas intrometidos não vão conseguir entrar.
Os donos do poder podem, neste momento, destruir documentos digitais com um estalar de dedos. Mas eles não têm qualquer poder sobre a tinta seca em uma página impressa. Mesmo os regimes mais autoritários enfrentam dificuldades para controlar os textos físicos (e não ache que eles nunca tentaram).
É por isso que imagino um futuro glorioso para o livro. Ele resolve problemas que nem existiam alguns anos atrás. E continuará sendo uma afronta para todas as novas ameaças produzidas pelas tecnologias digitais.
“Em breve, vamos precisar ler livros para nos proteger”
[O livro] é uma tênue linha de tinta seca entre a realidade e a mentira.
Neste exato momento, escuto especialistas ainda prevendo o fim do livro. À primeira vista, esses alertas parecem plausíveis. É verdade que a leitura por lazer está se tornando mais rara. E que os casos de brain rot3 provocados pelas telas são cada vez mais comuns.
Mas não importa.
Em breve, vamos precisar ler livros para nos proteger. Vamos precisar deles para sobreviver. Vamos procurá-los porque eles nos oferecem uma fuga dos domínios digitais degradados, onde a dissimulação é ditada pelas maiores plataformas e seus donos riquíssimos.
Talvez algumas pessoas achem que os livros são chatos. Mas até essas pessoas podem mudar de ideia quando entenderem por completo o que está acontecendo nas suas telas.
Leiam O fim do homem soviético, uma história oral contada pela ganhadora do Nobel Svetlana Alexievich sobre a derrocada da União Soviética. Ela entrevistou centenas de sobreviventes do totalitarismo, e, para eles, os livros eram suas tábuas de salvação.
Os livros preservavam a sanidade daquelas pessoas. Os livros davam esperança a elas. Os livros as faziam seguir em frente.
Livros que, inclusive, foram proibidos. Que foram apreendidos e destruídos. O que, mesmo assim, não inibiu seus leitores, porque eles buscavam uma verdade que escapava ao controle dos poderosos.
Em situações como essas, as pessoas arriscam a própria vida por causa de um livro.
Quando as coisas vão de mal a pior, você não precisa de lista de mais vendidos, de frases de efeito ou de campanhas de marketing. O livro exala um charme irresistível.
É o último refúgio para as pessoas que se importam. Pessoas que pensam. Pessoas que querem mais. E essas pessoas não vão desaparecer — suspeito, aliás, que vamos ter muito mais pessoas assim na era do lixo eletrônico. Por isso, estou confiante de que o humilde livro terá um futuro glorioso.
Olho para os livros na minha estante e tenho certeza de que essas unidades de armazenamento, que por ora residem em minha casa, vão durar mais do que qualquer data center construído pelo bilionário mais rico do mundo. E, se os bilionários forem inteligentes, eles também deviam começar a estocar uns livros por aí.
Notas
Essa matéria da BBC explica um pouco do que está acontecendo e das demandas ambientais provocadas pelos data centers [N. do T.]. ↩︎- No texto original, Gioia usa o termo “slop”, que ainda não ganhou tradução no Brasil (e que talvez nem ganhe, talvez continue a ser um termo usado em inglês mesmo). Para entender melhor, recomendo esta matéria do portal UOL [N. do T.]. ↩︎
- Outro termo que tem sido usado em inglês, embora, bem ou mal, possa ser traduzido como “apodrecimento do cérebro”. Essa matéria do G1 ajuda a entender [N. do T.]. ↩︎
Leia Também: Para Werneck, cronistas hoje estão sem chão e sem teto

Ted Gioia Gioia é crítico e historiador musical com doze livros publicados, traduzidos para onze idiomas.
Davi Boaventura é escritor, tradutor e fotógrafo. Doutor em escrita criativa pela PUCRS. Autor de “Mônica vai jantar” (Dublinense) livro finalista dos prêmios São Paulo de Literatura, AGES e Minuano e também adaptado ao teatro.

