Evento

‘Nós já tínhamos demarcado este território com o sangue dos nossos ancestrais’, diz Ailton Krenak ao se tornar 1º indígena doutor honoris causa pela UFBA

Cerimônia de outorga do título de Doutor Honoris Causa a Ailton Krenak na Reitoria da Universidade Federal da Bahia se torna ato de defesa do povo Pataxó na Bahia e tem gritos de “Sem anistia”.

Fotos de Marlon Chagas – Revista O Odisseu.

O ativista indígena e escritor Ailton Krenak recebeu ontem, 23, o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia. Trata-se da terceira vez que Krenak recebe este título, sendo anteriormente agraciado pela Universidade Nacional de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Na UFBA, é a primeira vez que um indígena recebe a honraria. Na cerimônia, o reitor da universidade, Paulo Miguez, enfatizou que a instituição estava em falta, pois líderes quilombolas e pessoas de axé já haviam recebido anteriormente o título, faltando agora líderes indígenas. 

(Continua após a foto)

Foto: Marlon Chagas (O Odisseu)

Antes mesmo da fala de Krenak, a cerimônia foi aberta com os cantos dos povos Pataxó/Tupinambá pelas vozes da Mestra Mayá Tupinambá, liderança indígena do Sul da Bahia, e de Thiago Tupinambá, também liderança indígena e estudante da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Os dois foram recebidos sob forte aplauso e receberam do homenageado um abraço. 

A fala de recepção foi do professor Felipe Milanez, coordenador do Pós-Cultura na UFBA e professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, o IHAC/UFBA. Foi esse o instituto que garantiu a outorga de Krenak ao título de doutor honoris causa. Em sua fala, Milanez destacou que essa honraria é resultado de uma série de outras ações da Universidade Federal da Bahia em garantir o direito de acesso e permanência de pessoas indígenas na universidade. Ao longo do discurso de recepção, o professor também citou a entrada de outros saberes, que não os da ciência ocidental, no ambiente acadêmico, com referência aos saberes quilombolas e ancestrais iorubá.

Ailton Krenak durante o recebimento do título de Doutor Honoris Causa pela UFBA. Foto: Marlon Chagas (O Odisseu)

‘A blindagem é o exercício do cinismo político’, diz Ailton Krenak ao receber o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia

A cerimônia aconteceu sob forte viés político. Em seu discurso de abertura, Miguez citou que a reunião aconteceu dois dias depois do povo ir às ruas para cobrar os políticos e dizer não ao projeto de anistia e à PEC da Blindagem. A fala foi recebida com forte aplauso e gritos de “sem anistia” que se repetiram durante toda a noite.

Durante o discurso de Krenak, várias vezes o tema da PEC da Blindagem e do projeto de anistia voltaram a ser mencionados. “A pec da blindagem é um exercício do cinismo político”, disse Krenak com referência à conceituação de cinismo político da professora Marilena Chauí. 

Krenak também citou o projeto de anistia e mencionou que, no Brasil, os brancos estão sempre se anistiando. No entanto, o tom de denúncia que foi predominante na cerimônia foi contra os assassinatos e invasões nas terras indígenas dos povos Pataxó, Pataxó Hã-Hã-Hãe e Tupinambá no sul da Bahia. 

‘Meu coração não aguenta mais ver camburões entrando em territórios indígenas’, diz Ailton Krenak ao receber o título de Doutor Honoris Causa na UFBA

Ailton Krenak e Mestra Mayá no Salão Nobre da Reitoria da UFBA. Foto: Marlon Chagas (O Odisseu).

Segundo informações do relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – 2024”, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 244 indígenas foram mortos no Brasil em 2024. Isso acontece enquanto o projeto do Marco Temporal, projeto que quer reconhecer como terras demarcadas apenas aquelas que haviam sido reconhecidas até a Constituição de 1988, tramita no Supremo Tribunal Federal. 

No Sul da Bahia, o conflito tem como alvo principal os povos Pataxó e Pataxó-Hã-Hã-Hãe. Em abril deste ano, o indígena pataxó João Celestino Lima Filho foi morto aos 50 anos por conta de conflitos envolvendo a terra no Sul da Bahia. Durante o seu discurso no recebimento do título de Dr. Honoris Causa, na UFBA, Krenak traz os dados da violência contra pessoas indígenas na Bahia: “Essa terra é conhecida como a terra da alegria, como pode então a violência contra os indígenas?”, disse. 

(Continua após a foto)

Foto de Marlon Chagas (O Odisseu)

Mais para o fim da reunião, Mestra Mayá voltou ao púlpito e clamou pela demarcação das terras: “Estamos cansados de dizer demarcação já, queremos demarcação agora”, disse com muita emoção. Ailton Krenak afirmou acompanhar de perto as notícias dos conflitos no Sul da Bahia: “Meu coração não aguenta mais ver camburões entrando em territórios indígenas”.

Após o discurso, uma série de outras manifestações artísticas foram realizadas por pessoas indígenas, maioria estudantes da Universidade Federal da Bahia, em homenagem a Ailton Krenak.

Leia Também: Luiz Gama filho de Luiza Mahin