
Carolina Maria de Jesus e seus precursores
Em agosto passado, Quarto de Despejo (1965) comemorou seus 65 anos. Neste ensaio, Marcio Gregório Sá analisa a escrita de Carolina Maria de Jesus em diálogo com Borges, Cândido, Montaigne…
Capa: Carolina Maria de Jesus em detalhe de foto de Zélia Gattai, Acervo da Fundação Casa de Jorge Amado/ Reprodução
Em uma de suas vindas ao Brasil em 1984, Jorge Luís Borges, como de costume, repetiu a um público de fãs e estudiosos em São Paulo a ideia do livro como a maior invenção humana. O que, contudo, os ouvintes ali presentes talvez não imaginassem é que o erudito escritor argentino reproduzia ali uma noção presente no livro Quarto de despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus, que completa agora em agosto 65 anos de publicação. O leitor arguto poderia argumentar que isso já estava simbolizado em contos como “A morte e a bússola” e “O Sul” do livro Ficções (1944) do contista portenho. Vá, pode ser, retribuo a sugestão com um piparote e segue a prosa. Contudo, é imperioso suspender, por hora, essas supostas linearidades e positividades históricas para surpreender a potência crítica da escrita literária em lugares supostamente improváveis. Mesmo sendo o mesmo tópico frasal, o ato escrito e enunciativo da escritora pobre e negra no paulistano contexto favelado, analfabeto e iletrado do Brasil da época é, curiosamente, tanto mais potente e revelador do que a esperada fala do renomado autor de “Pierre Menard, autor de Quijote”, a uma plateia de acadêmicos.
Ao traçar um arco conjuntural que sai da década de 1950 na qual metade do povo brasileiro ainda não foi escolarizado e lançar a flecha até os dias atuais (passando pelo descaso dos governos ditatoriais com uma formação humanista, cidadã e crítica), o sentido dessa ousada ilação se amplifica, complexifica e atinge o trágico na contemporaneidade: segundo o Instituto Pró-livro na atual pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, pela primeira vez o Brasil tem uma maioria de não leitores, entre 2019 e 2024 houve uma perda de quase 7 milhões de folheadores de páginas ou arrastadores de tela. Ler no “… Diário de uma favelada que a catadora de lixo e escritora Carolina Maria de Jesus gosta “de manusear um livro”, e que “[o] livro é a maior invenção do homem” (Jesus, 2014, p.26) num momento em que a leitura atinge os piores níveis nos diversos extratos sociais do Brasil é um tapa em luva (suja) de pelica em todo cidadão brasileiro, independente de qual for sua classe social. Com esses dados desanimadores, saber desse seu prazer e elogio à leitura é mais intrigante e paradoxal do que vir a conhecê-lo em figuras aristocráticas como Borges e Michel de Montaigne. Isso nos leva a dizer que a natureza da literatura de Carolina é mais arriscada, corajosa e virtuosa do que a do autor de contos de duelo e mitólogo da valentia. Ela nos convence com mais força, suor, sangue e lama nas mãos de algo que não pode ser banalizado nem abandonado: a arte literária é uma das maiores gestoras da possibilidade e produção (utópica, por vezes) de um outro mundo.
Refazendo a trilha de Antônio Cândido (2013), uma obra artístico-literária, quando surge, não só é condicionada pelas outras que vieram antes dela, mas também determina a leitura que se possa ter dessas obras anteriores, fazendo, por vezes, delas suas precursoras. Algo parecido teriam dito teóricos como T. S. Eliot em “Tradição e talento individual” (1919), e o próprio Borges em “Kafka e seus precursores” (1951). Daí que parece pertinente daqui em diante operar desse modo alguns entendimentos. “E quando estou na favela”, metaforiza Carolina em Quarto de despejo, “tenho a impressão de que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo” (idem, p. 40), diz a autora, como ela se percebe neste cotidiano, dando a ler a respeito de regimes de exclusão e desumanidade, resquícios ainda da política colonial de séculos contra os negros em contextos sócio-históricos no Brasil. Dentre os temas desenvolvidos, a fome, mencionada setenta e cinco vezes neste livro, é um dos mais incisivos em sua reflexão. “Eu quando estou com fome”, diz Carolina, “quero matar o Jânio, quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos políticos” (idem, p. 35), conclui seu raciocínio, com uma frase aforística bem ao estilo do livro, seu descontentamento com todas as instâncias de governos que a oprimem na miséria.
Sobre a tradição do aforismo, é comum a reflexão sobre afetos, poder e escrita. No ensaio “Da desigualdade que existe entre nós” (1572-1580), o seigneur Montaigne dá a conhecer seu privilegiado regime de exceção gozado na monarquia francesa: “Na verdade, vamos bem longe com nossos reis”. Mais à frente, especula o nobre proprietário sobre como é visto por seus súditos na posição aristocrata que ocupa como um rico nas regiões montanhosas: “se meus súditos não me ofendem, isso não é prova de afeto” (Montaigne, 2000, p. 394-5). Orgulhoso de seu tipo de governo e do bom status que possui nele, essa leitura do texto de Montaigne torna curioso e perspicaz refletir o quanto a escrita também explicita a posição que o autor ocupa na sociedade, tornando problemático evidenciar os privilégios ou a falta de direitos básicos, o orgulho ou o desagrado com os governos. Notar, sobretudo, como escritas, como a de Carolina, aproximadas ao texto do francês, modificam e contrastam a ideia de virtude nobre que poderíamos ter dele, balançando-o de lugar como alguém de fato privilegiado e não virtuoso, reposicionado agora pelos modos de escrever que geram (auto)constituição, transformação e (re)organização provocadas no leitor. Se a natureza de um nobre se faz através da ação adequada e virtuosa sobre a fortuna, a prática escrita da autora favelada, sublimada após uma diária como catadora de material reciclável nas ruas paulistanas e mãe solteira de dois filhos, não esconde a alta estima que Carolina gozaria em qualquer regime letrado, civilizado e sério. Há muito pouco de virtuoso na constituição de um ser através de seus privilégios, sugere sua escrita-travessia.
Notar, sobretudo, como escritas, como a de Carolina, aproximadas ao texto do francês, modificam e contrastam a ideia de virtude nobre que poderíamos ter dele, balançando-o de lugar como alguém de fato privilegiado e não virtuoso, reposicionado agora pelos modos de escrever que geram (auto)constituição, transformação e (re)organização provocadas no leitor.
Embora movido pelo sofrimento da fome e o ódio dos políticos, o texto de Carolina também é modificado ao se aproximar da suavidade e domínio das paixões na escrita do nobre autor. “Assim, Leitor”, diz Montaigne no prefácio “Do autor ao leitor”, “sou eu mesmo a matéria de meu livro”, frase que capsula toda uma noção de escrita como constituição e devir do sujeito moderno, como quem diz: eu sou enquanto escrevo. “Eu fiz uma reforma em mim”, diz a pensadora dos encontros e afetos, “quero tratar as pessoas que eu conheço com mais atenção. Quero enviar um sorriso amável às crianças e aos operários” (p. 31). É como se o texto da escritora favelada acrescentasse algo a mais nessa ideia, tão montaigneana, do ensaio como forja da identidade, subjetividade, visão, compreensão, formação, interação e correlação com o mundo, ensinasse a esse membro da elite que vive do trabalho (serviçal ou escravizado) do outro algo a mais sobre o trabalho e o cuidado, tanto de si quanto da alteridade. Operária dos cacarecos nas ruas da grande Sampa, Carolina amplifica essa ideia da escrita como trabalho da própria subjetividade, aprendendo com sua lógica e ensinando com sua experiência. É preciso aprender a dominar essa “escassa tranquilidade interior” (p. 32), diz a escritora negra, e separar as palavras certas para o convívio social. Mais atual, seu texto educa o texto mais antigo, nossa leitura deles se engrandece nesses aspectos tão inerentes à condição humana.
No contexto do humanismo renascentista, é comum, entre pensadores como Erasmo de Rotterdan, François de La Rochefoucauld, Baltazar Gracián e Jean de La Bruyère, a presença de práticas aforísticas, mesmo misturadas em ensaios e outros tipos de texto. Estilo de escrita breve, o aforismo toma um exemplo da realidade, geralmente pública, e abstrai numa reflexiva e curta máxima de cunho moral. Modo de escrever esse que formou uma série de pensadores moraliste como Montaigne. Mas é crível reconhecer, ademais dos textos desses nobres autores, que a escrita aforística da faminta Carolina Maria de Jesus alcança a imanência exemplar da visão sobre o seu real. Quando da favela do Canindé diz que “a fome também é professora” (ibidem), a autora pouco escolarizada ensina, paradoxalmente, algo que a gente não sabe e não pode geralmente conhecer, a despeito dos bancos escolares, acadêmicos ou de nossas quase volumosas bibliotecas. A fome é limite inegociável da civilização, Carolina ensina a nós, leitores nutridos e formados pela alta literatura ocidental de escritores muito bem alimentados. Ao questionar qual seria a dignidade do ser humano faminto diante dos animais que comem qualquer coisa para sobreviver, sua escrita posiciona a fome como motor de crise de todo esse sistema hierárquico humanista, constituído há séculos por nações violentamente colonizadoras e escravocratas, de modo lento e excludente, deslocando o pensamento para ser produzido por outros corpos no chão das ruas, vielas e matas da terra dos canibais.
Em seu relato, Carolina deixa explícito que famintos são os pobres, favelados, negros, eles são, sobretudo, mulheres, crianças e animais, seres tidos como irracionais, não incluídos no clássico Humanismo, ou colocados na base natural. Artista pobre e antena da raça, ela vai ainda mais além quando brinca com o tempo histórico, e lança ao presente e ao futuro o desafio que espelhava o seu desejo e o de milhões de brasileiros, afeto esse que só conheceremos no começo do milênio e século seguinte: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome” (ibidem). O resto da história pode contar os eleitos de cinco das seis eleições presidenciais do século XXI que passaram pela fome e tortura. A partir desse regime de exclusão e inutilidade, Carolina Maria de Jesus está menos comprometida com as ilusões que sustentam a controversa e evasiva noção de natureza humana tão presente em pensadores brancos, nobres, donos de terras e pessoas escravizadas ao longo do Renascimento. É neste período que o conceito de natureza humana, virado e revirado depois por filósofos como Hobbes e Rousseau, foi muito utilizado por autores, cada um a sua maneira, como Espinosa, Baltazár Gracián, Pascal e Montaigne, ao abordar, em linhas gerais, as condições fragmentada, conflituosa e enganosa do ser humano produzindo sentidos confusos na tentativa de fuga de seu sofrimento e vazio existencial. Mas é com essa autora de aforismo que uma noção realista da vida retoma a discussão em bases mais concretas: “a natureza não seleciona ninguém”, afirma Carolina, rechaçando regimes ideais e modelos sociais de exclusão.
A partir desse regime de exclusão e inutilidade, Carolina Maria de Jesus está menos comprometida com as ilusões que sustentam a controversa e evasiva noção de natureza humana tão presente em pensadores brancos, nobres, donos de terras e pessoas escravizadas ao longo do Renascimento.
Muito já se tentou, com fracos argumentos, diminuir a escrita da autora natural de Sacramento (MG), assim como já se tentou, levianamente, enobrecer sua literatura. Talvez fosse mais proveitoso se valer desses textos jogando exatamente com essas lógicas nem sempre contínuas de tempo, obras, autores e valores literários e sociais. Se o português de Carolina Maria de Jesus não agrada a elite letrada, é porque nele, segundo Lélia Gonzalez no texto “Racismo e sexismo na cultura brasileira” (1984), moram vozes negras e marginalizadas do “pretuguês” que pervertem o resquício formal de sintaxe colonial lusitana. É como se Carolina tivesse lido no ensaio “Da vanidade das palavras”, do próprio Montaigne: a boa retórica é sinal de “Estados doentes” (op. cit., p. 454). Simultaneamente, a não escolarização completa de Carolina não tirou sua sensibilidade e intuição nem a impediu de reconhecer tanto as “frases de veludo” (p. 22) com que os políticos mascaram as porradas que dão na população, como o uso ativo e resistente da linguagem, estes necessários em certos contextos de sobrevivência da periferia: “As rascoas da favela estão vendo eu escrever”, ela diz em certa altura de seu diário, “e sabem que é contra elas. Resolveram me deixar em paz” (p. 38), conclui a autora, evidenciando sua compreensão da dimensão tanto simbólica quanto materialista da linguagem. Noutro trecho postula sua possibilidade de sobrevivência como processo de interação linguística: “vocês com essas cenas desagradáveis me dão os argumentos”. Em sua escrita, a favela são páginas de um livro (desagradável), mas que ela conhece bem e lê até o fim sem perder o afeto: “eu adoro o meu Brasil”, o que revela sua capacidade de olhar a fundo e ainda desejar outra situação melhor.
Quem pensa que Carolina é avessa às regras por ingênuo romantismo também se equivoca, pois, em seus escritos, há também rasuras às idealizações românticas dos privilegiados e por vezes ingênuos autores brancos do século XIX: “E eu pensei no Casemiro de Abreu, que disse: ‘Ri criança. A vida é bela’’’, diz a autora. “Só se a vida era boa naquele tempo. Porque agora a epoca esta apropriada para dizer: ‘Chora criança. A vida é amarga’” (p. 38), ela conclui diante da filha que recebe de presente de aniversário um sapato remendado do lixo. A partir de seu neorrealismo urbano, ela reescreve, criticamente, o romantismo do poeta burguês e filho de proprietários do Brasil imperial. E por que não aproximar o texto de outra autora mineira com fortes marcas românticas, como o da merecida ganhadora do Prêmio Camões, Adélia Prado, das leituras que Carolina fez com a fome no Brasil? “Não quero a faca / nem queijo / quero a fome”, diz a poetiza branca no poema “Tempo”, do livro O coração disparado (1978), sua dupla recusa ao objeto e ao meio de obtenção, expressando um sentimento que, ao ser contextualizado com o relato realista da experiência da falta do que comer refletida pela literatura coetânea de Carolina, torna-se, assim, idealista e inocente, quando não insensível aos que ainda passam por essa tragédia no país. Carolina, portanto, corrige os sentidos que a literatura de extrato romântico teria nos variados contextos nacionais.
Sempre resta uma dúvida ao especular sobre o que incide a uma certa época ser o cume da história artística, ou determinado evento histórico o ápice da violência contra um povo. Em ambos os casos, trata-se de sensibilidade estética, de uma percepção que faz aparecer o engano de certa eurocêntrica visão teleológica: na ponta superior de importância, seja na grandiosidade do simbólico ou no horror material, precisa sempre estar a elite europeia para a comoção ser maior. A denúncia da tragédia nazifascista torna-se seletiva com o ignorar da tragédia colonial nas Áfricas e Américas. Ocorre igual fenômeno na valoração da literatura de autores sobreviventes de abandonos cotidianos, como a de Carolina Maria de Jesus, “Emma Zunz”, negra dos trópicos, que Borges poderia ter pensado quando diz em seu incrível conto homônimo: “A história era inacreditável, de fato, mas se impôs a todos, pois substancialmente era certa”, diz o contista e ensaísta argentino: “Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que padecera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios” (Borges, 1990, p. 36). Como especula Borges através da práxis de Emma, quando não se têm o controle sobre o tempo e o discurso histórico, os afetos são desacreditados e a violência mitigada e aceita.
O modo hierárquico com que organizamos o valor histórico das violências sobre as vidas humanas e sua evolução positiva reflete a importância de gênero, raça e classe que a história de alguns povos têm e outras não, o grau de solidariedade e empatia à violência sobre certos corpos, o desprezo e relativismo a outros e às suas formas simbólicas e culturais.
O tempo é manejável a quem o detém, planeja e interessa, como também o valor de seus feitos e efeitos, de suas ações e paixões, como lemos no forjado plano de Emma, ou na teleológica visão de uma estudiosa como Hannah Arendt, por exemplo. Leitora de Aristóteles, Kant e Hegel, esta pensadora afirma que o colonialismo europeu nas Áfricas e Américas foi um estágio preparatório às catástrofes vindouras do nazifascismo. O crime, segundo ela, é supostamente o mesmo, só não são dignas de melhor reflexão “as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios” dos seres escravizados. Mesmo sendo um número muito maior o de pessoas negras e indígenas escravizadas e mortas, e os modos políticos de fazê-los muito mais duradouro e complexo, para a autora alemã do conceito de “banalidade do mal”, todos esses eventos ainda não foram em suas épocas o ápice da tragédia, haveria de ser somente no futuro linear e positivo, aquele em que o povo europeu o vivesse na própria pele no regime nazifascista. O modo hierárquico com que organizamos o valor histórico das violências sobre as vidas humanas e sua evolução positiva reflete a importância de gênero, raça e classe que a história de alguns povos têm e outras não, o grau de solidariedade e empatia à violência sobre certos corpos, o desprezo e relativismo a outros e às suas formas simbólicas e culturais.
Dizia Millôr Fernandes, num jeito sucinto e bem-humorado: “quando uma ideologia fica bem velhinha, vem morar no Brasil”, resume o frasista carioca, numa noção similar à complexa elaboração do crítico Roberto Schwarz no livro As ideias fora do lugar (2014). Quem dera as ideologias trouxessem experiência concreta e não mais fraqueza, inação e alienação. Além de pensar com dificuldade o tempo histórico e tratar mal a memória, é sabido do apreço ingênuo, inadequado e acrítico que temos aqui com as ideias estrangeiras de países supostamente mais desenvolvidos. “Ao longo de sua reprodução social”, ele diz, “incansavelmente o Brasil põe e repõe ideias européias, sempre em sentido impróprio” (Schwarz, 2014, p. 29). Agora, são aquelas ligadas aos estudos culturais de matriz norte-americano, que recentemente ficaram associadas ao termo pejorativo “identitarismo”. Reflexões ressentidas muitas vezes da dificuldade de uma formulação mais histórico-materialista e revolucionária não feita pelos gringos, satisfeitas com uma proposição mais individual e liberal de identidade racial e de gênero. Algumas sofisticadas compreensões de Carolina em seu diário podem ser mobilizadas para rebater esse sequestro de nossa realidade e sua inadequada compreensão, aceita pelas bandas de cá sem muito viés crítico. “A joia da favela (a personagem espanhola Maria Puerta)”, diz a autora de modo debochado, “é ouro no meio do chumbo” (p. 29), ela devolve com mais uma metáfora. Com sua literatura, aprendemos que é necessário confrontar, modificar e rasurar os contextos em que escrevem e inscrevem as pessoas pobres, negras e marginalizadas na favela, dos quais sua obra abre franco diálogo e reescrita com textos eruditos e ilustrados.
Brincadeiras e anacronismos (deliberados) à parte, o complexo nisso tudo não para por aí: além de atualmente se ler menos no Brasil, se interpreta, aproxima e relaciona com menos ousadia, maturidade e apropriação os saberes acumulados de contextos distintos. Boa parte da literatura contemporânea está atravessada por um tipo de escrita corrida, mas vazia, fluente, porém sem sustância, esvaziada de elementos férteis e, portanto, menos porosa à produção de outros sentidos. Consumida e lida como nunca havia sido por extratos graduados e politizados da sociedade brasileira (contrastando com a baixa leitura da população em geral), essa prática literária entretém de modo leve esse público, no entanto não joga com ele, não provoca esse leitor a ir ao encontro e questionar outras texturas e contexturas das obras passadas, conservadora em se limitar a fazer bem sua função de contar uma história com novos protagonistas, sejam lá quais forem, para desaguar em desfechos ingenuamente liberais. Sem contar o receio de não perder o leitor para qualquer outra distração, resvalando muitas vezes para tons de autoajuda e romances juvenis de fruição, entretenimento, quando não lacração. Desse controverso estado de coisas se depreende uma noção não tão consciente assim: os conhecimentos das obras antigas e modernas estão superados, é preciso escrever tudo de novo, inventar todas as coisas desde o zero. Como Crusoés do século XXI, suspeito que essa atitude seja a tentativa de negarmos nosso cansaço cotidiano e as ruínas do passado que se avolumam, incansavelmente, em avalanches vindouras.
Com a leitura de Carolina Maria de Jesus, parece, contudo, se passar o contrário. Podemos aprender materialmente a todo momento com seus relatos encarnados, sua capacidade de diálogo com o leitor sobre temas universais presentes nos antigos e modernos, nela relidos e produzidos em formas inovadoras, força afetiva e contextos improváveis. Com exceção do artigo “Montaigne y Borges, escépticos afines. El hombre, la duda, el libro” (2016), desconheço outros estudos que aproximem esses autores, muito menos algum em que a obra da escritora brasileira seja um ponto de inflexão e reflexão sobre eles. A partir de uma materialidade da palavra no relato, sua literatura ressignifica as obras de Montaigne e Borges, demonstrando um processo literário em que depende menos quem escreveu antes e sim por onde o leitor começa sua prática de leitura, produção e relação de sentido. É preciso rebater os textos que conformaram os contextos geradores das opressões sofridas pelas minorias, ricocheteando sua lógica discursiva e seus sentidos políticos. Com a leitura na veia, sua escrita de rebote pode até ser um segundo tiro, mas pega para si a potência do que vem antes, devolvendo com mais força, refazendo a originalidade de modo mais crítico. Um vivenciar encalacrado de um mesmo chão histórico que é tão necessário e próprio da experiência intelectual e escrita entre nós em contextos periféricos. Ouso defender que a leitura de Carolina Maria de Jesus enriquece as leituras de autores como Borges e Montaigne, assim como lê-los agrega à leitura dessa escritora negra, seu livro prepara as obras deles, tornam-se precursores não só do que possa vir depois, mas também de uma leitura mais crítica daquilo que veio antes e que não pode deixar de ser feita.
Referências bibliográficas
BORGES, Jorge Luís. Obras Completas Jorge Luís Borges. 4 volumes. 1ª ed. São Paulo: Editora, Globo, 1999.
GONZALEZ, Lélia. “Racismo e sexismo na cultura brasileira”. In: Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244. Disponível em: https://bibliotecadigital.mdh.gov.br/jspui/bitstream/192/10316/1/06_GONZALES__L%c3%a9lia_Racismo_e_Sexismo_na_Cultura_Brasileira_1.pdf. Acesso em 31/05/2025.
GUERRERO, Almagro B. Montaigne y Borges, escépticos afines. El hombre, la duda, el libro. Cartaphilus, 13, 2016, 81–97. Disponível em: https://revistas.um.es/cartaphilus/article/view/247551/188291] Acesso em 31/05/2025.
JESUS, Carolina Maria de. (1914-1977). Quarto de despejo: diário de uma favelada / Carolina Maria de Jesus; 10. ed. São Paulo: Ática, 2014. 200p.
MONTAIGNE, Michel de. (1533-1592). Os ensaios: livro I. Trad. Rosemary Costhek Abílio. 1ªed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. (Paidéia)
PRADO, Adélia. O coração disparado. São Paulo: Siciliano, 1978
SCHWARTZ, Jorge (org.). Borges no Brasil. São Paulo: UNESP, 2000.
SCHWARZ, Roberto. As ideias fora do lugar. São Paulo: Penguin – Companhia, 2014.

Marcio Gregório Sá é escritor e educador social negro. Graduado em Letras (UNIFESP, 2015), e Mestre em Literatura latino americana (USP, 2019). Escreve ensaios e artigos para coletâneas literárias e revistas culturais e científicas. Compôs as antologias “Poesia negra cubatense” (Comuna negra, 2022) e “Zarpadas” (Abarca, 2023). Editor da Revista Cuipatã, foi premiado pelo Proac estreando na ficção com o livro “Cordilheira de sonhos’ (Patuá, 2023). Finaliza outro livro de contos e aforismo para 2026.
