‘A gente não resolve um problema sem falar sobre ele’, diz Rafael Costa Tavares, autor de ‘O Casamento de Maurício’
Em entrevista para a revista O Odisseu, Rafael Costa Tavares (O casamento de Maurício) conta que não conseguiria escrever uma história mais leve, em tons pastéis, da experiência LGBT+ num país extremamente intolerante.
Fotos de Jhonata Almeida (Divulgação)
Finalista do Prêmio Mix Literário – uma super referência para escritas LGBTQIA+ -, o livro “O Casamento de Maurício” é o primeiro romance do escritor Rafael Tavares Costa, que também é produtor de televisão e roteirista. Na narrativa, há de fato uma visualidade que lembra o cinema ou até mesmo as séries de televisão. É um livro que transita entre referências pop e reflexões sobre a vida, o amor e a família.
A história é narrada em primeira pessoa pelo personagem Marcelo, que volta para casa após anos no exterior, para o casamento do irmão, Maurício. A trajetória de retorno para casa não é necessariamente inédita na literatura, a começar pela Odisseia. O modo como o autor vai construir essa narração é o que fará toda diferença. No caso de O Casamento de Maurício (Ponto de Vista, Mondru, 2025), trata-se de um retorno para acerto de contas: ao voltar para casa, Marcelo volta para os problemas e traumas dos quais desejava fugir para sempre. Ao mesmo tempo, existe o ímpeto de afastar de uma vez por todas esses fantasmas.
“Existe, sim, uma experiência coletiva, similar, de violência, que nós enquanto pessoas LGBTQIA+ sofremos, e eu queria falar dessa violência”, diz Tavares Costa na entrevista que você lê a seguir. Ele, que também disse que não conseguiria escrever uma história mais leve, em tons pastéis, da experiência LGBT+ num país extremamente intolerante, conta como desenvolveu o personagem e a narrativa no entorno de um trauma.
Eu não conseguiria escrever um livro em tons pastéis, nem se tentasse, diz Rafael Tavares Costa, autor de O Casamento de Maurício

Ewerton: “O casamento de Maurício” trata de um assunto que pode ser bastante espinhoso para pessoas LGBT+: a família. De onde veio a inspiração para construir uma narrativa em torno da família?
Rafael: A narrativa foi surgindo como um quebra-cabeça, que aos poucos fui montando. No começo, eu sabia que queria falar sobre um personagem duvidoso, que queria falar sobre violências, no plural mesmo, porque para mim mais do que um livro de temática LGBTQIA+, ele é um livro sobre as violências que sofremos e praticamos, continuamente. E, pouco a pouco, a narrativa foi se descortinando. Para mim essa é a graça de escrever um romance: é abrir uma porta sem saber exatamente aonde ela te leva, mas você segue, você continua… Como a narrativa resgata momentos da infância e da adolescência, eu sabia que a instituição família seria um dos motivos de tensão. E assim Marcelo, o protagonista, foi me apresentando sua história. No tempo dele.
Ewerton: O livro abre com uma cena bem forte e explícita, uma cena de sexo. Atualmente, mais do que nunca, existe um purismo que chega à literatura e que condena cenas explícitas como as que você escreve, principalmente quando se trata de sexo entre dois homens. Como foi para você a decisão de falar de sexo tão abertamente? Em algum momento você temeu?
Rafael: Primeiramente, é uma pena que exista esse purismo na literatura hoje em dia. O sexo é parte da experiência humana. Não acho que excluir (ou minimizar) as cenas de sexo vai produzir uma literatura de melhor qualidade, pelo contrário. Mas, respondendo sua pergunta, tive medo, sim, mas da maneira como o livro seria recebido como um todo. É meu primeiro romance, então toda a experiência de escrevê-lo, publicá-lo, foi desafiadora…
Mas sobre as cenas de sexo, minha maior preocupação era que elas cumprissem sua função dentro da narrativa. Sem um objetivo claro, as cenas de sexo, e quaisquer outras, seriam descartadas. Muita coisa escrita ficou pelo caminho, não chegou ao resultado final.
Quanto à escolha por uma escrita mais explícita, ouso dizer que foi menos uma escolha do que uma necessidade narrativa. Ao escrever, meu compromisso é com a história que estou contando, com o personagem. A maneira como narro tem muito a ver com a maneira como o Marcelo cresceu, como ele entendeu o mundo a sua volta e como ele se relaciona com esse mundo, como ele entende o tipo de prazer, de amor, de afeto que ele pode ou não sentir e receber… E, para além disso, eu queria que o leitor se colocasse na pele do Marcelo com um certo desconforto, justamente porque aquele personagem não está confortável com a própria existência.
Eweron: Alguns dos temas que são abordados no livro, como solidão, conflitos familiares e traumas de infância/adolescência, infelizmente, são algumas características da vivência LGBT+ num contexto de LGBTfobia. Há algo da sua própria experiência enquanto uma pessoa LGBT+ que você trouxe para o livro?
Rafael: Como você colocou, existe, sim, uma experiência coletiva, similar, de violência, que nós enquanto pessoas LGBTQIA+ sofremos, e eu queria falar dessa violência. Como um homem gay, aproveitei muito do que vivi para poder dar consistência e textura às situações, mas não me limitei a reproduzir a minha experiência. Ela foi, obviamente, um ponto de partida.
Ewerton: Em que medida tocar nesses assuntos é importante para outras pessoas LGBTs?
A gente não resolve um problema sem falar sobre ele. Sem encará-lo de frente. Desde quando lancei o livro, senti que havia uma busca por livros com temática queer com histórias felizes, ou pelo menos mais felizes do que a que escrevi. Acho legítimo e super necessário, mas não é o tipo de narrativa que me interessa. O Brasil ainda é um dos países mais violentos para pessoas LGBTQIA+ no mundo, assim como tem números assustadores de feminicídio, de crimes contra a mulher, além da violência institucionalizada, de Estado, do racismo estrutural. Neste contexto, eu não conseguiria escrever um livro em tons pastéis, nem se tentasse. Para além das violências praticadas, existe uma cultura de violência, uma violência simbólica. Mesmo que eu não mate uma mosca em toda a minha vida, estou inserido nessa cultura de forma ativa, praticante. E eu queria escrever um livro sobre isso. Apesar da gente também ser vítima dessa cultura de masculinidade violenta, nós também fazemos parte dela, especialmente nós, homens gays.

O que tentei fazer foi colocar minhas dúvidas, minhas angústias, à serviço do meu leitor. Sem a ilusão de ter respostas, soluções, pelo contrário, meu papel é colocar mais questões, é apontar para o elefante na sala. E a importância em tocar nesses assuntos está nisto: precisamos falar justamente daquilo que preferimos esconder, é muito fácil falar do mal que está no outro, da violência que o outro pratica. Mas nós, gays, também estamos inseridos nessa sociedade, nessa cultura. Também somos violentos. A nossa sexualidade não nos isenta de nada.
“Nós, queers, somos pessoas plurais, e a gente precisa conhecer a nossa pluralidade“, diz autor de O Casamento de Maurício
Ewerton: A propósito, vivemos num ótimo momento em que cada vez mais pessoas estão trazendo suas vivências plurais como pessoas LGBTs para a literatura. Como você encara esse momento?
Rafael: Acho que qualquer experiência é cumulativa e pode ser apreendida: eu não preciso viver determinada situação na pele para poder refletir sobre ela. Então, para mim, é importante falar dessa experiência de violência, dentro da comunidade lgbtqia+, justamente por expandir nosso repertório, abrir nosso campo de visão para outras realidades, outras imaginações. Nós, queers, somos pessoas plurais, e a gente precisa conhecer a nossa pluralidade, não só no campo da existência, acredito que não nos basta existir de forma plural, é preciso também escrever, fabular, imaginar, de forma plural. Essa pluralidade precisa estar refletida naquilo que a gente faz, mas também não pode nos limitar, nossa pluralidade não pode ter o efeito contrário também, de nos colocar em uma espécie de gueto. Mas considero maravilhoso ter contato com livros, filmes, músicas, enfim, com arte feita por pessoas queers, conhecer através da arte a maneira como cada um percebe e experimenta o mundo. Isso nos enriquece.
Ewerton: E quanto à própria experiência enquanto leitor? Quais referências de literatura queer você tem/teve e como elas foram importantes para você?
Rafael: Na época em que escrevi o livro, li coisas como “O Fim de Eddy”, do Edouard Louis; “Jhonny, você me amaria se o meu fosse maior?”, do Brontez Purnell e “O Que Te Pertence”, do Garth Greenwell. Esses livros me ajudaram a perceber que era possível contar a história do Marcelo como eu gostaria de contá-la: crua, às vezes explícita, incômoda. Mas sou do tipo de leitor que pega referência em qualquer leitura. Recorri bastante ao Lolita, aos primeiros livros da Elena Ferrante, que são focados em relações familiares em situações muito específicas.
Ewerton: Gostei do modo como você construiu o personagem Marcelo. Fale um pouco mais dele. Como ele surge para você?
O Marcelo foi se revelando aos poucos. Eu não tenho uma abordagem muito tradicional na hora de construir um personagem: até tentei fazer a biografia do personagem, tentei fazê-lo responder aquelas 100 perguntas que a gente aprende na aula de escrita criativa, mas meu processo criativo é caótico e intuitivo demais para isso, embora eu tente colocar alguma ordem nesse caos. De cara, eu sabia que ele guardava um segredo, que ele não era uma fonte tão confiável assim, por que se fosse de outra maneira, eu não me interessaria por ele. A minha escrita é como um convite à aventura, as mesmas descobertas que o leitor teve ao longo do livro, eu tive ao escrevê-lo, por que escrevo na ordem que o texto aparece no livro. Primeiro o capítulo 1, depois o 2, o 3… Assim, algumas cenas iam surgindo e aí eu voltava ao Marcelo tentando entender por que aquilo tinha acontecido com ele. Ou por qual razão ele tinha se comportado daquela maneira. Foi assim com a primeira cena, por exemplo. Com ela em mente, eu passei a questionar o Marcelo sobre os motivos que o levaram até ali.
Ewerton: Você começa na literatura com um romance que já chega finalista do Prêmio Mix Literário. O romance, geralmente, é um gênero que mete um pouco de medo. Mas como foi para você escrever uma narrativa longa?

Ponto de Vista (Mondru)
2023
120 pp.
Rafael: Vou confessar uma coisa: o conto me assusta mais do que o romance. Usando uma metáfora péssima, o conto é como a neurocirurgia, o romance é ortopedia. Na narrativa curta você tem que ser preciso, milimétrico. Qualquer pausa ou palavra fora do lugar estraga o todo. Quando escrevo contos, eu tenho essa preocupação de não ter nada sobrando. Não dá para trapacear no conto. Já no romance, sinto que existe tempo para você construir a narrativa, montar a trama, apresentar os personagens. Além de que eu gosto desse processo, gosto de viver um tempo com esses personagens, conhecê-los, e, no final, me despedir deles.
Ewerton: E quanto aos próximos passos? Já tem algo em mente?
Rafael: Existe sempre um livro à caminho… Já tem um ano, mais ou menos, que venho trabalhando em um novo romance. Estou naquela fase em que ainda estou conhecendo os personagens, coabitamos a mesma casa mas ainda não nos conhecemos bem, mas já tenho algumas páginas escritas.

