Na biblioteca do autor #3: Vinicius Neves Mariano
O autor de “A Pele em Flor” (Alfaguara, 2025) e “Velhos Demais para Morrer” (Malê) fala dos livros que marcaram a sua trajetória como autor e leitor.
Foto: Mauro Figa (Divulgação).
Um dos nomes mais promissores da nova literatura brasileira, o autor mineiro Vinícius Neves Mariano é autor de três livros, todos eles bem-recebidos pela crítica e pelo público. Por Velhos demais para morrer (Editora Malê – 2020), Mariano ficou entre os 5 finalistas do Prêmio Jabuti, venceu o Prêmio Malê de literatura e chegou a ficar em primeiro lugar na lista de mais vendidos da Amazon.
Este ano, Vinícius Neves Mariano chega ao com a publicação de A Flor da Pele, livro que sai pela Alfaguara e que já é uma das coleções de contos mais interessantes de 2025. A trajetória do autor, no entanto, não está apenas nos livros, já que ele também é roteirista e produz no audiovisual, participando de projetos como o longa documental Filho da Mãe e a série documental Família Gil.
Ao responder as perguntas da coluna Na Biblioteca do Autor, Vinícius trouxe algumas de suas inspirações que podemos reconhecer em seus textos, como o contemporâneo de Maria Valéria Rezende e Mia Couto, mas também cita clássicos de Mishima e Toni Morrison. Confira!
Na biblioteca de Vinícius Neves Mariano

Um livro que marcou sua trajetória como leitor
O mundo se despedaça, Chinua Achebe
Existe algo mágico na escrita do Chinua Achebe que me arrebatou na primeira vez que o li. Algo que transborda da história (de tramas tão intrincadas), que exala dos personagens (tão humanamente complexos), que não se revela (de forma óbvia) na forma em que ele conta. O mundo se despedaça, sobre uma vila que se deteriora a partir da chegada dos colonizadores, ironicamente, me apresentou a um mundo inteiro.

Um clássico que você recomenda para todo mundo
Amada, Toni Morrison É indispensável, para quem quer pensar o mundo, que enxergue os fantasmas aqui presentes. Em Amada, Toni Morrison enxerga um desses fantasmas, que não abandona sua casa até que tenha reconhecida sua humanidade. Não é isso que precisamos?

Um livro de não-ficção que você recomenda
Não consigo escolher apenas um.
Continuo preta — A vida de Sueli Carneiro, Bianca Santana
Com muita intimidade, como uma amiga em comum, Bianca Santana nos apresenta a uma das pensadoras e ativistas mais importantes da história do nosso país. A apresentação é generosa, sem nunca ser condescendente: Sueli é revelada em toda sua humanidade. O final do livro guarda uma preciosidade, quando Bianca explica como Sueli defendeu sua autoria do livro.

da próxima vez, o fogo, James Baldwin
A voz do James Baldwin é de um vigor único, que ecoa até hoje — e que ainda há de ressoar por bastante tempo. Sua capacidade de elucubração é arrebatadora, tocante, pois não cai em um racionalismo frio e distante.

Seu livro de cabeceira (que você sempre revisita)
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis “(…) preferi dormir, que é um modo interino de morrer”; “Cuido que não nasci para situações complexas”; “Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas”. Sempre que releio Memórias Póstumas, parece que me divirto mais. Machado é nosso maior gênio. Pobre Nobel que não lê em português-brasileiro.

O pavilhão dourado, Yukio Mishima Sempre que leio Mishima — e sempre que há uma tradução direta, eu leio —, me pergunto por que estou lendo Mishima? É angustiante, melancólico, desesperançoso e brilhante. O Pavilhão Dourado é, talvez, o mais denso de seus livros, que me desafiou a atravessar o deserto da alma de seu protagonista.

Um livro lançado recentemente que você amou ler
garota, mulher, outras, Bernardine Evaristo
Na forma, Bernardine Evaristo é uma ritmista: sua inventividade garante uma dinâmica tão gostosa à leitura que as 500 páginas passam como música. No conteúdo, sua visão tem longo alcance: seus personagens se recusam a serem taxados por qualquer traço de identidade. É fantástico!

Um livro de poesia que você ama
Não pararei de gritar, Carlos de Assumpção
“eu quero o sol que é de todos
Quero a vida que é de todos
Ou alcanço tudo o que eu quero
Ou gritarei a noite inteira
Como gritam os vulcões
Como gritam os vendavais
Como grita o mar
E nem a morte terá força
Para me fazer calar”
Os poemas de Carlos de Assumpção, suas palavras de fogo, são uma força da natureza: sua voz é incalável, como o vulcão, como o vento, como o mar. Ainda que sua obra tenha sido relegada à condição marginal, por décadas, pela crítica e pelo mercado editorial, ela é imbatível. Às vezes, ela soa como um desalento; outras vezes, ela traz esperança e orgulho; em inúmeros poemas, ela também exige francamente o que é seu por direito; em diversos momentos, ela invoca seus ancestrais; e finalmente, sua voz se revela muitas vezes um chamado à ação:
“Que não nos curvemos
Que não nos entreguemos
Que continuemos a marcha da liberdade”

Um livro que fez você chorar
Horas azuis, Bruna Dantas Lobato Horas azuis é como aqueles rios que, na superfície, parecem calmos e plácidos, mas que guardam, em seu leito, correntes vigorosas. No livro, se navega pelas sensações de uma filha que sai de casa para estudar fora. Distante da mãe, encontra calmarias e corredeiras, com as quais eu me identifiquei totalmente. Saí de casa aos dezoito anos (e três dias!) e a questão foi uma ruptura na minha jornada. Ler a Bruna me fez reencontrar, com um novo olhar, todos aqueles sentimentos.

Um livro que você gostaria de ter escrito
Kindred, Octavia Butler
Octavia Butler é radical na defesa do nosso direito à memória. Se nossa história nos foi tirada, soterrada, escondida, que a imaginação lance mão de todas suas ferramentas — como a viagem no tempo, como o horror — para buscá-la.

A descoberta do frio, Oswaldo de Camargo
Desde sempre, a humanidade recorre à ficção para tentar compreender fenômenos da natureza do mundo e da natureza da existência. A descoberta do frio me apresentou à um frio que eu sentia, mas que não sabia nomear. Como eu, muitas pessoas foram agasalhadas pela ficção do Oswaldo.

Um livro que influenciou sua forma de escrever
São tantas as formas que um livro pode influenciar nossa escrita que é difícil listar apenas um, ou dois. Cito dois que, no momento exato da leitura, pensei: “que este livro influencie minha escrita, amém”!
Quarenta dias, Maria Valéria Rezende
Em Quarenta Dias, acompanhamos Alice pelo que ela chama de “avesso da cidade”. O romance percorre a segregação, racial e social das grandes cidades brasileiras; além disso, também expõe um processo de “rebaixamento social”, até tornar a própria Alice em mais uma “invisível”. Impressiona muito como Alice de fato se enxerga enquanto desaparece a cada dia — lembro que foi esta a capacidade que desejei que influenciasse minha escrita.

Terra sonâmbula, Mia Couto
A poesia de Mia Couto encanta a leitura sem amenizar a história. Ela deslumbra com suas construções de imagens lindíssimas, mas não redime a história. Que eu seja capaz disso!
