Coluna Escrevernar

Dia dos Pais

É curioso que, no Dia das Mães, o presente ideal seja o descanso, enquanto, no Dia dos Pais, o presente mais simbólico seja a presença. Isso revela muito.

Publicado originalmente em 10 de agosto de 2025.
Arte de capa: Fotos da série My Fathers Legs, de Sara Periovic.

Quando eu era criança, logo me ensinaram que, quando meu pai estivesse em casa, a ordem era de silêncio. Ele precisava descansar. Afinal, era o provedor da família; e o cochilo após o almoço era sagrado, assim como a hora do Jornal Nacional. Bastava ele abrir o portão da garagem para que a casa entrasse em outro ritmo.

Vovó e mamãe eram quem orquestravam o movimento: não podia fazer bagunça, não podia atrapalhar, muito menos irritar o meu pai. Por isso, acredito que, à medida em que cresci, desenvolvi um amor reverencial por ele. Eu até queria me aproximar mais, mas ele estava sempre preocupado e vovó fazia questão de manter o silêncio. 

Como primogênita, me acostumei a ser só. Minha irmã só nasceu sete anos depois. Naquela casa, aprendi a brincar falando baixo, a não incomodar. Existia um ritual para ser filha. Foi só bem mais tarde que consegui me aproximar do meu pai. Mas, embora ele estivesse distante fisicamente, eu o carregava sempre em pensamento. Quando ele saía de casa, eu ia até o seu mundo: seu escritório, sua biblioteca. Escutava seus discos, lia seus livros, tentava aprender as letras das músicas que ele tocava aos domingos. Queria estar mais próxima daquela pessoa que tanto admirava, mas que precisava respeitar; e, por muito tempo, esse respeito veio acompanhado de distância.

Hoje, já adulta, com ele sendo avô dos meus filhos, com o ar muito menos severo do que antigamente, posso dizer com alegria que estamos mais próximos. Talvez a literatura não tenha transformado apenas a mim, mas a ele também. Ele é um dos meus primeiros leitores: revisa meus originais, conversa comigo, me escuta, repensa suas certezas. E, ultimamente, com uma frequência assustadora, me diz: “Eu te amo, minha filha.” A literatura é realmente revolucionária. 

A poeta Marília Garcia escreveu em seu recente livro Pensar com as mãos que “começar é escolher uma palavra que vai inventar um mundo.” Não pude deixar de associar essa bela frase com a maternidade. Para mim, escolher ser mãe é recomeçar a inventar um mundo para si. Há mais de uma década sou mãe de dois meninos. De início, supus que seria mais fácil, por saber como é tenso criar meninas em um mundo machista. Mas me enganei. Justamente por ser feminista, percebo o tamanho do desafio de educar homens para o mundo que eu desejo: um mundo melhor tanto para eles quanto para as meninas.

Ainda não existe uma fórmula. Todos nós estamos imersos no patriarcado. Mas é urgente encontrar um novo jeito de educar meninos, se quisermos transformar de verdade o mundo, principalmente para as próximas gerações. 

A pensadora bell hooks, a quem costumo recorrer com frequência, na obra A Vontade de Mudar, explica que o patriarcado ensinou os meninos a negar seus sentimentos. O patriarcado é um sistema político-social que insiste em afirmar que os homens são, por natureza, dominantes e superiores a tudo e a todos, principalmente às mulheres; e, por isso, têm o “direito” de dominar e governar. Esse pensamento precisa acabar urgentemente.

Os homens precisam aprender a ser vulneráveis. Precisam deixar de temer demonstrar amor pelos pais, pelos filhos, pelas mulheres, pelas pessoas, pelo meio ambiente que nos acolhe.

Não é mais possível educar homens para serem futuros dominadores e opressores. O planeta não suporta mais tanta violência. Nossa cultura os prepara para as guerras, quando deveríamos ensiná-los a sentir, a amar, a oferecer amor. É preciso aceitar que somente uma revolução de valores poderá conter a fúria masculina. Se quisermos criar futuros homens amorosos, precisamos ensiná-los a amar e a demonstrar amor desde a mais tenra idade, sem exigir posturas “de homem”, como costumam falar para os meninos quando tentam ser gentis ou demonstrar sofrimento. Esse é o meu propósito enquanto mãe de dois garotos. Não podemos mais aceitar que as únicas emoções valorizadas nos homens sejam a ambição e a raiva. Um homem ambicioso e furioso é capaz de atrocidades, mas jamais será capaz de deixar um mundo melhor para quem ainda virá. Os homens precisam aprender a ser vulneráveis. Precisam deixar de temer demonstrar amor pelos pais, pelos filhos, pelas mulheres, pelas pessoas, pelo meio ambiente que nos acolhe.

Eu queria ter abraçado mais o meu pai na infância, mas nem eu nem ele fomos educados para isso. Hoje, faço questão de que meus filhos me abracem, e abracem o pai e os avôs deles. Meu marido e eu temos um enorme combate pela frente. E sabemos disso. 

Mas há algo que me intriga: é curioso que, no Dia das Mães, o presente ideal seja o descanso, enquanto, no Dia dos Pais, o presente mais simbólico seja a presença. Isso revela muito. Revela que os pais, em geral, ainda não estão passando o tempo devido com seus filhos. Ou seja, repensar a vulnerabilidade masculina, implica também rever a política do cuidado. Não é justo que o cuidado seja visto como uma responsabilidade exclusivamente feminina. As mulheres estão exaustas, sobrecarregadas, adoecendo em silêncio sob o peso de jornadas triplas, e ainda assim invisibilizadas.

Compartilhar os cuidados com o parceiro ou familiares é importante, mas não é suficiente. É preciso também que o cuidado seja valorizado como trabalho essencial à vida e sustentado por políticas públicas. O cuidado é fundamental para a continuidade da espécie humana. E isso precisa valer para todas as classe sociais, pois de nada adianta que apenas uma parcela ínfima das mulheres seja privilegiada com a transferência dos cuidados para mulheres racializadas e pobres. A verdadeira revolução do cuidado só será possível se for pensada para todas, sem distinção.  O cuidado precisa sair da esfera do privado, do “dever feminino”, para entrar na pauta das decisões coletivas. Aliás, urge que voltemos a pensar coletivamente.

Falar apenas de amor e presença talvez fosse mais bonito, mas não seria verdadeiro com os meus princípios.

Embora o Dia dos Pais normalmente me comova e me convide a revistar memórias doces da infância, hoje não consigo dissociá-lo da estrutura patriarcal à qual ainda estamos submetidos. Falar apenas de amor e presença talvez fosse mais bonito, mas não seria verdadeiro com os meus princípios. O Dia dos Pais não pode ser apenas uma data para se ganhar presente e se reunir para um almoço em família.

Tudo é político. Tudo deve ser repensado. Desejo que meus filhos cresçam em um mundo mais justo; e isso passa, inevitavelmente, por transformar a forma como enxergamos e cuidamos uns dos outros.

Vivemos tempos profundamente individualistas, com os olhos colados às telas e o pensamento, muitas vezes, distante. Olhar o outro nos olhos, ensinar o cuidado, cultivar a empatia e a presença verdadeira, permitir que meninos demonstrem seus sentimentos sem temer a repreensão, isso também é um ato revolucionário e poderá garantir um futuro menos hostil a todos nós.

Feliz Dia dos Pais!