Flipelô

Vencedores do Prêmio Myriam Fraga lançam livros esta semana na Flipelô

Prêmio Myriam Fraga para Autores Inéditos abre caminho para novas autorias e incentiva a produção literária no Brasil. Lançamento dos livros acontecerá na Festa Literária Internacional do Pelourinho, a Flipelô.

Publicado originalmente em 6 de agosto de 2025.

A Fundação Casa de Jorge Amado, realizadora do Prêmio Myriam Fraga para Autores Inéditos, abre espaço para jovens autores e incentiva a produção literária no Brasil. O prêmio foi batizado em homenagem à escritora, jornalista e poeta Myriam Fraga, falecida em 2016. Myriam ocupava a cadeira de número 13 da Academia de Letras da Bahia e foi Diretora Executiva da Fundação Casa de Jorge Amado desde a sua instituição, em julho de 1986, até fevereiro de 2016. 

A premiação, que este ano conta com o patrocínio do Nubank, dá continuidade a uma tradição de incentivo às autorias inéditas promovida pela Fundação e que teve em Myriam uma grande realizadora. Em 1997, ela promoveu o primeiro prêmio da Fundação voltado para esse público e, desde então, a Casa continua abrindo espaço para escritores de várias partes do Brasil que desejam trazer à luz os seus trabalhos. 

Apesar de não haver divisão entre textos de prosa e poesia, como costuma ocorrer em outros concursos, este ano o prêmio agraciou três livros de poesia. Segundo Marcus Vinícius Rodrigues, escritor e imortal da Academia de Letras da Bahia e um dos organizadores do concurso, isso aconteceu por conta da excelente qualidade dos livros de poesia, o que gerou uma configuração inédita em relação às outras edições de prêmios promovidos pela Fundação, que costumam selecionar textos de prosa e poesia. Ainda em depoimento à Revista O Odisseu, Marcus Vinícius contou sobre a sua relação com a premiação e a importância de render homenagem à Myriam Fraga: 

“O nome de Myriam no prêmio é muito mais do que justo”, diz Marcus Vinícius Rodrigues

O escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues. Foto: Danilo Alves.

“O Prêmio Myriam Fraga para autores inéditos é uma retomada do histórico prêmio Copene (e depois Brasken) para autores inéditos da Fundação Casa de Jorge Amado, que existiu entre o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000. 

Essa retomada sempre foi uma vontade nossa. Digo “nossa” porque esse sempre foi um assunto recorrente em minhas conversas com Ângela Fraga, diretora da FCJA. Deve ter sido por isso que ela me convidou para coordenar o projeto.

O nome de Myriam no prêmio é muito mais do que justo. Não se trata de uma vontade de pessoas próximas a ela. Myriam, além da grande poeta que é (poetas não passam), foi responsável pelo estímulo, fomento, o nome que você quiser dar… ela incentivou de maneira determinante a literatura baiana, primeiro na Fundação cultural e depois à frente da FCJA, não só com o prêmio Copene, mas com muitas outras ações, inclusive a FLIPELÔ.

Seguimos a mesma estrutura sui generis da primeira encarnação do prêmio. São três vencedores, sem hierarquia, de prosa e poesia. Tanto pode ser um vencedor de prosa e dois de poesia como o inverso. Nesta primeira edição do prêmio Myriam Fraga, aconteceu de a qualidade dos livros de poesia ser tão forte que a comissão resolveu premiar três livros e autores de poesia. Essa configuração é inédita e foi decisão soberana da comissão.”

Os poetas agraciados com o prêmio Myriam Fraga para Autores Inéditos foram Francisco Pedrosa, autor de A Hora do Lobo, Alan Rezende, autor de O ciclo do Ciclope e Mariana Lima, autora de Contrações.  Em depoimento à Revista O Odisseu, os escritores falaram sobre a experiência de participar da premiação e a felicidade de ter o seu trabalho publicado. 

Para mim, participar do Prêmio Myriam Fraga foi um divisor de águas na minha trajetória poética até agora, diz Francisco Pedrosa, autor de A hora do lobo. 

Para mim, participar do Prêmio Myriam Fraga foi um divisor de águas na minha trajetória poética até agora. Primeiro, por ter dado concretude, com o lançamento, a um livro que venho escrevendo há oito anos. Segundo, por se tratar de um prêmio nordestino — e, como pernambucano, considero essencial, inclusive como tomada de posição, lançar meu primeiro rebento na minha própria região. O livro ‘A hora do lobo’ é uma sinfonia, um réquiem para o fim do século XX. O novo século que se anuncia, o XXI, terá que nascer, como em qualquer parto, com dor, angústia e ira. É um livro que, afinal, reafirma a vida, porém sem piedade, sem um otimismo vulgar.

“Estrear é trazer algo à vida”, diz o escritor carioca Alan Rezende, autor do livro O ciclo do Ciclope. 

“É sempre muito sinuoso falar sobre qualquer coisa, agir discursivamente dentro de um campo objetivo, seguir certa lógica. Um poeta age e é agido nas palavras, então quando precisa do idioma pra comunicar, sente a língua desgastada. 

O ato de estrear não se repete e isso diz tudo. Não se repetir é o que dá certa graça à vida. Estrear é trazer algo à vida. Foi no sentimento de vida – ia um tantinho mal de saúde  – e no esvaziamento da linguagem que recebi a notícia do prêmio. A ousadia de escrever e inscrever era um risco, eu sabia. No entanto, num momento de crise, resolvi me dedicar a sabotar meu eu do futuro. Era novembro passado e eu havia, a reboque do acaso, iniciado a composição metódica de sonetos sobre um monstro, quando li sobre o prêmio Myriam Fraga. Ignorei o prestígio do prêmio para ter a coragem e, na coincidência do método, calculei que ao fim do prazo para submeter a obra, haveria um conjunto orgânico que alguém poderia chamar de livro. Agi sem pensar. Precisei cada soneto com a data do labor, enviei e silenciei no sofrimento da possibilidade de ser visto ou de não ser visto. 

Na janela do meu quarto, li a notícia de que alguém se enganou. Desviei o olhar pro rio, caminhei por Laje do Muriaé e, numa rara vitória da razão, aceitei: se estava escrito então era assim!, não havia que pensar “vão premiar a mim? será que leram certo esses sonetos?”: estava ali. Discordei do Groucho Marx e topei fazer parte de um clube que me aceitou como sócio. Já há alguns meses estou esperando a mensagem dizendo que foi engano, enquanto isso, abraço uma honraria que nunca vou merecer.”

“Participar deste concurso, idealizado pela Casa Jorge Amado, foi a chance de me mostrar, me reconhecer e me lançar como escritora.”, diz a escritora baiana Mariana Lima, autora do livro Contrações

“Sou de Ilhéus, terra de Jorge Amado. Sou formada em Direito, mas foi uma relação tóxica, rs. Me sentia deslocada e incapaz de entender das leis, dos números, dos artigos. Eu sempre atuei com as palavras. A escrita é o ofício que sonho. Ganhar o prêmio Myriam Fraga foi como construir uma ponte para fora da minha ilha – um sentimento profundo de validação depois de anos dedicados à escrita. Sempre escrevi poesia, mesmo tentando um livro de prosa que nunca consegui terminar, porque o ritmo do meu pensamento me levava sempre de volta aos versos. Participar desse concurso, idealizado pela Casa Jorge Amado, foi a chance de me mostrar, me reconhecer e me lançar como escritora. Foi um passo para tirar a escrita da intimidade e colocá-la no mundo, e realizar o sonho de todo livro: ser lido. Voltar a Salvador, cidade onde comecei o curso de Direito, agora como escritora, é um símbolo muito forte para o horizonte – que só agora vejo – que percorri nessa longa caminhada.Contrações, meu livro, meu primeiro filho, nasceu da maternidade – minha vida real, minha experiência profunda com o verbo mais difícil de conjugar: se doar. Nasceu dessa transformação do amar, e amar Helena. Das vísceras que descobri ao vigiar meus pensamentos. Das dores, medos e até esperança. Das vozes que escutei nas ruas, nos olhares dos destinos que desaguam histórias quando o sinal fecha, e o mundo para por um instante no vermelho.  Essas vozes metamorfosearam, e viraram versos. E isso só acontece quando eu acredito na bondade de estranhos. Eu me sento, e sou escuta de tudo e todos. Eu saio de mim para deixar os outros entrarem. E as mãos sempre encontram o estado alterado da palavra.Eu me sinto muito honrada de estar participando da Flipelô, e ter a oportunidade de conhecer escritores que tanto admiro. E como é regozijador ver esse evento germinar raízes tão poderosas na cultura da Bahia. A resistência de quem acredita que a arte, a literatura é matéria de salvação. Poder fazer parte disso, é um sonho realizado.”

 O lançamento dos livros vai ocorrer no dia 7 de agosto de 2025, às 19 horas, no Sesc-Senac Pelourinho, como parte da Programação da Flipelô- Festa Literária Internacional do Pelourinho. A mesa Vozes Que Emergem: os novos poetas do Prêmio Myriam Fraga contará com a participação dos autores premiados e também dos escritores Micheliny Vernunschk e Rodrigo Casarin, com a mediação de Marcus Vinícius Rodrigues. A entrada é gratuita.

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