Entrevistas

‘Tinha interesse em romper com o silêncio em torno dela’, diz Cibele Tenório, biógrafa de Almerinda Gama

Nesta entrevista, Cibele Tenório deixa claro que, apesar de ter respeitado o “que se espera de todo pesquisador em relação às questões teóricas e metodológicas”, jamais escondeu que está do lado de Almerinda.

Publicado originalmente em 16 de julho de 2025.

Michelle Perrot reflete a necessidade de uma história das mulheres e, principalmente, contada por mulheres. A historiadora endossa o coro de intelectuais como Beatriz Nascimento, que antes mesmo de Chimamanda Ngozi Adichie proferir sua famosa palestra no Tedx, já temia os perigos de “uma história única” ou, ainda mais, de uma narrativa histórica tradicional que privilegia o discurso do “vencedor” para validar dispositivos de poder  que colaboram para invisibilização e silenciamento das vozes de minorias políticas ao longo do tempo.  

Quando pensamos em narrativas sobre mulheres, não é difícil verificar que o olhar sobre elas sempre foi o de estrangeiros ou de homens. Por isso, Perrot  afirma que “No teatro da memória, as mulheres são sombras tênues” e a assertiva ganha ainda mais peso quando relacionada à tentativa de revisitar a memória de mulheres negras em uma sociedade que sempre lutou para garantir que elas seriam meras citações discretas em rodapés. A escassez de fontes é, aliás, o maior desafio para quem decide contar essas histórias. Mas, mesmo diante do horizonte aparentemente complicado e da dificuldade de trilhar um caminho apenas desenhado a partir de rastros muito tênues,  Cibele Tenório decidiu dar ouvidos a voz por detrás da fotografia em preto e branco de Almerinda Gama, mulher negra, advogada, jornalista, pianista,  feminista  brasileira e  pioneira na luta pelo voto feminino no país. 

Na biografia “Almerinda Gama: Uma sufragista brasileira”, vencedora do prêmio Todavia de não ficção de 2023, a jornalista alagoana desvenda as muitas nuances da trajetória de sua conterrânea, mas sem deixar de fora as contradições que a constituem como figura  fascinante de uma história de muitos silêncios. Tenório precisou preencher essas lacunas com um longo e afetivo trabalho de pesquisa, explorando não apenas as fontes materiais (escassas), mas principalmente as que lhe possibilitaram acessar o que as páginas amarelas de documentos empoeirados são incapazes de expor: a complexidade de Almerinda. Nesta entrevista, Cibele Tenório deixa claro que, apesar de ter respeitado o “que se espera de todo pesquisador em relação às questões teóricas e metodológicas”, jamais escondeu que está do lado de Almerinda e pensa que é impossível “fazer uma história das mulheres” apartada de uma perspectiva feminista. É uma visita respeitosa e intensa à trajetória de uma mulher que burlou todos os nãos que assombram a alma de quem escolhe trilhar o caminho da ousadia.

“Sou uma jornalista alagoana, assim como Almerinda Gama”, diz Cibele Tenório

Segundo Edinha Diniz, biógrafa de Francisca Gonzaga, uma das grandes dificuldades enfrentadas por ela durante a pesquisa foi, justamente, os silêncios em torno da biografada e que partiram, em grande parte, de seus familiares. No caso de Almerinda, nota-se que a família ficou bastante entusiasmada com a pesquisa. Como foi essa experiência de colher os depoimentos e entrar em contato com essa camada mais afetiva e íntima e que distancia-se, em parte, da materialidade dos documentos históricos que ajudam a compor a pesquisa? 

CT: Iniciei a pesquisa sobre Almerinda com um punhado de fotografias e uma entrevista em áudio, realizada pela prof. Angela de Castro Gomes. Nesse depoimento, dado por Almerinda aos 85 anos, ela relatava ser viúva e sem filhos, o que configurava o cenário inicial da minha investigação. Imaginei que seria impossível localizar qualquer familiar e sempre me questionava se ela teria morrido sozinha, ou se contara com algum amigo no fim da vida.

Em determinado momento, por meio de um comentário no YouTube, descobri uma pessoa que se identificava como neto de Almerinda. Foi um susto. Passei meses tentando contato até localizá-lo e, quando o encontrei, juntamente com sua mãe e irmã, um novo horizonte se abriu. As fontes que eu havia localizado e analisado até então (como jornais e documentos) revelavam a Almerinda pública; porém, ao encontrar a família, tive acesso a um outro lado dela, tão interessante quanto o de sua atuação política. A história de como os encontrei e de como Almerinda formou uma família afetiva acabaram sendo incorporadas ao livro.

Durante muito tempo, lidei apenas com os arquivos, mas estar diante de pessoas que conviveram com Almerinda, poder ouvi-las, foi realmente muito gratificante. Esses depoimentos me ajudaram a entender mais daquela mulher em sua complexidade,  sua personalidade, sua vida íntima e também como foram seus últimos anos de vida, algo que era uma grande incógnita até então. Os familiares sempre foram solícitos, pois acreditavam que Almerinda merecia reconhecimento e que ela mesma ficaria feliz em ser objeto de pesquisa. No entanto, nunca submeti textos ou qualquer material a eles. 

“Aprendi que só é possível fazer história das mulheres numa perspectiva feminista”, diz Cibele Tenório

A pesquisadora Cibele Tenório, biógrafa de Almerinda Gama. Foto: André Gomes/ Secom UnB

É bastante comum que a trajetória de mulheres e, principalmente, mulheres negras, que alcançaram relevância social, política ou econômica, nos séculos passados, sejam relegadas aos rodapés da chamada “história oficial” e isso diz muito sobre como a história precisa ser contada a partir de outros olhares e como ela foi constituída sob uma sistemática patriarcal. Sendo assim, como você enxerga o fato de você ser uma mulher e decidir escrever sobre outra mulher, considerando todas as dificuldades que a tarefa exige? 

CT: Aprendi que só é possível fazer história das mulheres numa perspectiva feminista. Este livro é a versão adaptada da minha pesquisa de mestrado em História, defendida na Universidade de Brasília. Tive o cuidado que se espera de todo pesquisador em relação às questões teóricas e metodológicas, mas nunca escondi que estava ‘do lado’ de Almerinda. Meu interesse era descobrir e entender sua contribuição e, de alguma maneira, romper com o silêncio em torno dela, o que não significa que esconderia suas contradições. Elas existem e estão no livro.

Sou uma jornalista alagoana, assim como Almerinda, e cresci sem ouvir falar sobre ela. Não só sobre ela, mas sobre outras mulheres que foram pioneiras em determinadas áreas, que foram parte das transformações do país. Do jeito que aprendemos, parece que as mulheres sempre foram coadjuvantes na História, e a situação de invisibilidade é ainda maior para as mulheres negras, que lidam tanto com a subalternização de gênero quanto de raça. Hoje, trabalhamos para encontrar as histórias de nossas mais velhas, para honrar seus legados e para aprender com elas. E em um país em que temos tantos homens (inclusive brancos) biógrafos, muitos dos quais sou admiradora, é uma honra para mim ser biógrafa de Almerinda.

Almerinda foi uma mulher de múltiplas atividades, e as exerceu intensamente. Você destaca o trabalho dela como datilógrafa e como ela tirava o seu sustento “ da ponta dos dedos”. Porém, para além disso, ela também foi jornalista e escreveu exaustivamente para muitos periódicos. Como a atuação dela dentro do campo da comunicação, considerando o papel essencial que os jornais exerciam como ferramenta de interlocução com as massas, foi importante para a sua trajetória política? 

CT: Almerinda era muito diligente em seu trabalho junto à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), entidade onde foi uma das lideranças ao lado de Bertha Lutz, e que tinha como principal bandeira o voto feminino. A imprensa era uma arena importantíssima para o movimento de mulheres nos anos 1920 e 1930, pois ali elas tentavam sensibilizar a opinião pública sobre a necessidade de uma reforma jurídica que diminuísse as discriminações sofridas pelas brasileiras, sendo a impossibilidade de votar e de ser votada a primeira delas. Assim, muito do que lemos sobre a atuação da FBPF nos anos de 1930 foi pensado e escrito por Almerinda. E não apenas nos jornais, mas também no rádio. Na minha pesquisa, descobri que Almerinda era redatora de um programa de rádio chamado “Cinco Minutos Feministas”, que buscava traduzir essa pauta para o público em geral.

Mas, além desse papel de atuação em prol de um coletivo, Almerinda também construiu voz própria na imprensa carioca, por vezes inclusive se posicionando publicamente sobre assuntos que eram tabus dentro do movimento feminista, como o divórcio. Desse modo, os jornais foram importantes para que Almerinda alçasse um voo solo, apresentando seus pontos de vista sobre os assuntos ligados às questões de gênero, se deslocando um pouco do grupo das feministas. Vale dizer também que, mais velha, ela viria a trabalhar de fato como jornalista em algumas redações.

Almerinda foi poeta, compositora e pianista e também transitou entre os séculos XIX e XX, uma vez que teve uma vida longa. Sendo assim, provavelmente entrou em contato com mulheres que também atuavam no campo das artes e que estavam produzindo nesse período. Há algum registro sobre essas trocas, caso elas tenham existido?

CT: Sim, foi possível identificar algumas dessas interações de Almerinda com outras mulheres das artes. No próprio grupo das sufragistas, havia escritoras e poetas, como Maria Eugênia Celso e Maria Sabina de Albuquerque.

Fora desse círculo, Almerinda foi próxima da poeta Gilka Machado e de sua filha, a bailarina Eros Volúsia, eram figuras meio “malditas”, mulheres muito livres. Sabemos, através da análise das fontes e do relato dos familiares, que Eros frequentava a casa de Almerinda e que esta era presença certa nos saraus promovidos pela bailarina. Para Gilka, escritora pioneira na poesia erótica feminina, Almerinda dedicou um de seus poemas. Inclusive, a maneira como Gilka se posicionava no espaço literário brasileiro, escrevendo versos considerados sensuais à época por manifestarem o desejo feminino, foi uma inspiração para Almerinda. É possível perceber essa influência em alguns dos poemas de Almerinda publicados em seu livro “Zumbi”, de 1942.

Qual contribuição a biografia de Almerinda traz para pensarmos sobre a nossa sociedade atual? 

CT: São muitas as lições que Almerinda nos oferece. Primeiramente, sua presença entre as lideranças brancas do movimento sufragista nos leva a questionar onde mais pessoas negras participaram ativamente de mudanças significativas no país, cujas contribuições foram apagadas ao longo do tempo. Essas histórias existem e precisam ser contadas.

Almerinda era uma mulher em constante movimento. Em diversos momentos de sua vida, esteve envolvida em múltiplas frentes de atuação política, mesmo sendo uma trabalhadora assalariada, que batia ponto, vivendo a dupla jornada que nós, mulheres, conhecemos bem.Almerinda nos ensina que é preciso estar organizado coletivamente, ela fez isso ao se juntar ao movimento de mulheres e ao movimento sindical. Ela se uniu a outros pares que buscavam as mesmas mudanças que ela almejava.

Outro aspecto da vida de Almerinda era sua autonomia. Diante das impossibilidades e das portas fechadas, Almerinda, com muita resiliência, tentava construir suas próprias oportunidades. Durante pelo menos seis anos, ela tentou publicar seu livro de poemas, “Zumbi”, em uma época em que poucas mulheres publicavam. Só conseguiu lançar “Zumbi” de maneira independente em 1942. Assim, ela também nos ensina que, se não há lugar para nós à mesa, devemos ser aqueles que constroem nossa própria mesa para termos nosso lugar e convidarmos outros para se sentarem conosco.

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