Escrevernar
É necessário muito mais que disciplina para escrever quando se tem crianças ao redor.
Publicado originalmente em 13 de julho de 2025.
Arte de capa: Documento Pós-Parto. Documentação III: Marcas Analisadas e Esquemas de Perspectiva do Diário, de Mary Kelly (1975).
Ando às voltas com uma história. A personagem flerta comigo desde a escrita do meu primeiro romance. De lá para cá, outras obras a atravessaram, mas agora a tal personagem vem implorando que eu lhe dê voz. Ela é insistente e me sinto pronta para escutá-la.
Escrever um romance é, antes de tudo, um vaivém constante entre intenção e forma, entre o que se deseja dizer e o que se consegue escrever. É ingênuo pensar que basta conceber a história mentalmente para que ela se converta em (boa) linguagem.
O papel (ou a tela), com sua aparente passividade, se revela um território hostil: nele(a) enfrentamos a opacidade das palavras, a resistência da sintaxe, o dilema eterno do sinônimo que nunca é exatamente o almejado. A escrita exige revisitas quase obsessivas; afinal, o que mais escutei nos últimos dez anos é que escrever é reescrever, incontáveis vezes, até que a linguagem, por exaustão (ou epifania), ceda. E, embora esse processo seja, por vezes, extenuante, há nele um fascínio irresistível.
Escrever é combate. Não com o mundo, mas consigo.
Há dias em que texto, corpo e pensamento parecem vibrar em uníssono, como se a escrita fosse apenas revelada. Em outros, o ofício se impõe como labirinto: a frase emperra, a personagem não avança, a cena embaça feito neblina. Tudo se torna ruído, impasse. Mas é nesse descompasso que reside a beleza da escrita: falhar e, ainda assim, insistir. Falhar melhor, (sempre cito Beckett). Roland Barthes trouxe o “rumor da língua”, essa inquietação do discurso que pede o gaguejo, como forma de verdade. Teorias há muitas, e todas dizem algo sobre o escrever, mas nenhuma substitui o gesto radical de se sentar diante da página (tela) e atravessar, com o corpo todo, a solidão da linguagem.
Escrever é combate. Não com o mundo, mas consigo. No meu caso, ainda enfrento as (infinitas) demandas maternas. Então, ainda que hoje eu tenha um quarto só para mim, como recomenda Virginia Woolf num de seus icônicos ensaios, nem sempre posso ocupá-lo e escrever o quanto gostaria. É necessário muito mais que disciplina para escrever quando se tem crianças ao redor. No entanto, penso que talvez esses tropeços sejam uma forma de me reconciliar com o imperfeito e com a elevada autocrítica que por vezes me maltrata; pois ainda que seja um quase, insisto em querer escrever. É um ato de ESCREVERNAR: escrever-maternar maternar-escrever, num eterno amálgama. Não escrevo quando quero, mas quando é possível.
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