Autoficção

O fim de um romance

Publicado originalmente em 12 de julho de 2025.

Arte de capa: Verena Smit.

“O alcance do desejo se define na ação: belo (em seu objeto), frustrado (em sua tentativa), sem fim (no tempo)”
Eros, o doce amargo; Anne Carson

Se eu não acabar logo com esse romance, pulo do parapeito do sexto andar. Se eu não acabar logo com esse romance ele acaba comigo e com a minha carreira que mal começou ou nem começou, apenas sofreu um tropeço, ou tropeçou, não estou certa se foi caso de ato passivo ou ativo, tropeçou e no cavaco se viu dentro do jogo. Se se eu não acabar logo com esse romance, deixarei de acreditar nos fins, todos eles: da água, do pinguim-africano, da arara-azul-de-lear, do tatu-bola, da ararajuba, dos livros impressos, de todas as profissões menos as dos biólogos e programadores e especialistas de energias, da gentileza, dos recifes de corais, da minha procrastinação, do especial de Natal do Roberto Carlos, da fé, da fé na fé, das comidas de verdade e não de sabor idêntico ao natural, do natural. Se eu não acabar logo com esse romance, nada mais no mundo acabará e viverei em um eterno limbo da beira do fim.


Em um eterno limbo da beira do fim

Eu tenho medo dos abismos, ainda que reconheça a sua importância. Os abismos me lembram da fundura do mundo e isso me ajuda a manter um certo equilíbrio. Não que eu acredite no equilíbrio, acredito na tendência ao, mas isso é assunto para outros fins. 

Teve uma vez, dirigindo em Belo Horizonte – minha cidade natal e o único lugar onde dirijo, pois estou acostumada ao carro dos meus pais e aos caminhos feitos a partir da casa dos meus pais –, eu estava em busca de um retorno na saída da cidade e entrei na conhecida rua dos motéis que fica paralela à BR. Até aí, tudo bem, já tinha idade suficiente para não me preocupar com esse julgamento, me vissem eu faria até piada, ah sim, fui fazer pesquisa de campo. O problema foi eu quase me jogar em um pequeno precipício (me jogar em ou me jogar de?), achei que era uma rua (erro casto, achar que é plano o que te coloca em queda livre), não era. 

Freei a tempo. Me livrei da queda, da destruição total do carro dos meus pais, e das manchetes de jornal (acho que na época ainda se lia jornais): Jovem capota o carro dos pais em um precipício da famosa rua dos motéis.


O abismo me lembra da fundura do mundo

“Como Narrativa (Romance, Paixão), o amor é uma história que se realiza no sentido sagrado: é um programa, que deve ser cumprido. Para mim, ao contrário, essa história já teve lugar;
pois aquilo que é acontecimento, é o único rapto do qual fui objeto
e do qual repito o que vem depois (e falho).”

Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes

E se fosse possível editar os romances como se editam os livros? Ei, amor, vem cá, preciso fazer alguns cortes, nossa relação anda muito verborrágica: ou não tenho encontrado as palavras certas para dizer: ou sabe o que é, eu queria saber expressar melhor o nosso silêncio, mostrar como matamos todos nossos diálogos e vivemos um amor sem travessão: ou quero mudar o título, sair deste contrato frouxo, casar com registro na Biblioteca Nacional: ou preciso mesmo é de um respiro, mas calma, não é um ponto final, é só uma vírgula, assim, meio fora da gramática, eu sei, mas é que essa relação está pedindo um novo capítulo, quem sabe: ou, amor, o problema não é o seu personagem, sou eu, a narradora, é que ainda não encontrei minha voz, quem sabe seja o caso de uma terceira pessoa?

Três meses depois – talvez dois, pode ser que tenham sido um, o que importa é que durou muito tempo –, o editor me devolveu o livro editado. Abro o documento e quase que num ato imediato, sinto náuseas, ou, para fugir da linguagem Sartreana, sinto um embrulho, meu corpo se esquivando fisicamente do livro que convive comigo há mais de três anos (às vezes eu digo quatro, depende, sim, sofro de delírios temporais). 

Bastou abrir o documento com o livro editado para que meus sentidos pulasse um-a-um no abismo em um grande mise en abyme do drama.


Um grande mise en abyme do drama

“Alguém que escreve ou lê não pode assumir o controle sobre o começo. Devemos notar que o verbo grego ler é ‘anagignōskein’, um composto do verbo ‘conhecer’(gignōskein) e o prefixo ‘ana’, que significa‘novamente’. Se você está lendo, nunca está no início”
Eros, o doce amargo; Anne Carson

Voltando para casa da terapia, parei no Largo do Machado para comer um abará, achei que todo esse drama era falta de dendê, das lições que trouxe comigo de Salvador. Me sentei em uma mesa no meio da praça em frente a um palco com cinco senhoras lendo poemas que de tão ruins, eram encantadores. 

Foi quando desejei que, caso meu romance seja ruim, ele seja ruim ao ponto de se tornar encantador. Não, não é caso de discurso da benevolência, mas quando trabalhamos em algo por três ou quatro anos, existe um risco grande: aquele que alguns chamam de envelhecer, enquanto outros preferem dizer adquirir maturidade, não importa, escolham seus léxicos, o que eu quero dizer é que caso a Rita que começou a escrever esse romance e a Rita que tenta terminar esse romance se encontrassem em um café, não sei se fariam amizade facilmente. A Rita que começou esse romance diria e se a gente chamasse fulano e fulana, mas a Rita que tenta terminar esse romance diria que está sem bateria social, prefiro que seja só nós duas, e a Rita que começou esse romance pediria um café coado, e um bolo, e um pão de queijo e talvez um espresso, e outro pão de queijo desta vez com recheio, enquanto a Rita que tenta terminar esse romance pediria um capuccino com leite de amêndoas explicando que é por causa da gastrite, inclusive, espera, preciso tomar meu remédios antroposóficos quinze minutos antes de comer ou beber. 


A ironia é que o fim está resolvido

Todas as vezes que eu terminei um relacionamento, o que aconteceu em todas as vezes em que eu estive num relacionamento, eu não planejei terminar, eu simplesmente anunciei o fim em algum momento que não foi, mas deveria ter sido, planejado. Claro, havia indícios, motivos, pequenos avisos lançados ao mar – mas o fim, o desenlace, o prenúncio, eu anunciei todas essas vezes como se tivesse apenas visto o abismo e me desse um desejo irrevogável de pular. 

Me lembro do personagem de Crônicas de uma Passáro de Cordas, do Murakami, que desce ao poço e fica lá, na escuridão, tentando se conectar com sua própria consciência. Talvez fosse isso, eu ainda não sabia que vez ou outra eu precisava de um fim – eu ainda não sabia que são os fins que nos levam ao início. 


Os fins que nos levam ao início

“Um demônio nega o tempo, o amadurecimento, a dialética e diz a cada instante: isso não pode durar! Entretanto, isso dura, senão para sempre, pelo menos por muito tempo”
Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes

Abro uma taça de vinho, recomendação de uma psicanalista que me disse para tomar uma taça de vinho quando eu sentir o prenúncio de uma crise de ansiedade. Uma taça apenas, ela me disse. Uma taça apenas, eu me digo. Volto ao texto e decido resolver as pendências simples. Padronizar em uma ao invés de numa. Vou de numa em numa trocando por em uma. Me arrependo, prefiro numa do que em uma. Refaço tudo. Trinta e três modificações. 

Me lembro de quando fiz trinta e três anos e escrevi um texto no qual falava de Jesus, São Pedro e São Paulo. Paro a revisão para procurar o texto, leio, e a memória que me dizia ser esse um texto bom se envergonha de ter sustentado essa vaidade por sete anos. O texto é horrível.

Recomecei a leitura do romance e acabei reescrevendo o início pela incontável vez – não me lembro quantas vezes reescrevi o início desse romance. A ironia é que o fim está resolvido. O que eu não consigo terminar é o início.


Subir uma ladeira íngreme

“Essas pessoas escritoras compartilham uma mesma estratégia; pretendem recriar em você certa ação da mente e do coração – a ação de buscar por um sentido ainda não conhecido. É uma busca que nunca alcança nada de fato, doce-amarga”
Eros, o doce amargo; Anne Carson

Cansei das telas. Resolvi imprimir o livro. Fazer como se fazia, revisões com canetas coloridas e comentários ilegíveis que são também testemunhas do gosto ou não de quem revisou. Acontece que imprimir está tão caro quanto o azeite e o café. Resolvo tentar consertar uma impressora que ganhei e que há muito deveria ter enviado ao conserto. Desconfio que o problema seja o cartucho e assisto a vários tutoriais na internet que me ensinam como desentupir o cartucho de tinta usando um desinfetante Veja. Não dá certo (veja só). Saio à procura de algum lugar que venda cartuchos. Volto com um cartucho preto e branco, uma água de coco e um pote de sorvete mais caro do que o cartucho. 

Depois de seguir muitos tutoriais ruins de internet, a impressora funcionou, mas por algum motivo ela só imprime o capítulo trinta e um. Mesmo quando eu mando o arquivo sem o capítulo trinta e um. Comecei a achar que era um sinal.

O número 31 é composto pelas energias e vibrações do número 3 e do número 1. O número 3 indica que os anjos estão ao seu redor, te ajudando a se concentrar na centelha divina dentro de si para que você encontre paz, clareza e amor. O número 1 traz consigo os atributos de auto-liderança e assertividade, iniciativa, instinto e intuição, novos começos e uma nova abordagem. Está é uma mensagem de seus anjos de um futuro brilhante e próspero. Use seus talentos e habilidades naturais ao máximo para manifestar prazer, alegria e felicidade. O que você lançar para o Universo voltará para você. 

Não quero que o livro volte, assim que eu lançá-lo no abismo, vou tapar os ouvidos a fim de não ouvir o estalo do seu contato com chão.

O capítulo 31 é uma cena de sexo, e anjos não têm sexo. Desconsidero o sinal. 


Assim que eu lançá-lo no abismo


Todos os dias, mas nem sempre, quando dá seis da tarde, eu paro para ouvir a Ave Maria. Não sou católica, sou ritualística, além disso, a repetição faz com que eu sinta que o tempo tem uma duração única, o que me acalma diante da finitude. Também porque me lembro da casa dos meus pais, onde a Ave Maria toca todos os dias nos sinos da igreja de Santa Rita de Cássia, a santa das causas impossíveis, igreja onde fui batizada – a pedido de uma das avós, já que meus pais não são nem católicos, nem religiosos, são apenas artistas –, e que fica no alto de um morro, desses tão comuns na minha cidade que não permitem que os carros subam em dias de chuva, exceto os fuscas, claro.

[Talvez eu devesse acender uma vela para Santa Rita pedindo para acabar logo com esse romance, mas tenho medo de gastar uma causa possível à toa]

Adoro morros, montanhas e ladeiras – principalmente ladeiras, basta uma leve inclinação no meio de uma cidade estrangeira para que eu me sinta em casa. É que tem algo de grandioso quando você termina de subir uma ladeira íngreme, o peito ofegante, o joelho em vias de sucumbir, a boca em delírio de água, a cidade vista de cima do mundo todo da cidade abaixo. 

A ladeira quando angulosa o suficiente, parece não ter fim, e o que parece não ter fim, tem um  retrogosto de infinito. 


Quando angulosa o suficiente, parece não ter fim

Acabei. O romance. Acabei de editar o romance. Não é possível, mas parece que é. Mudei muita coisa, mas digo ao meu editor que fiz apenas algumas poucas mudanças, não se preocupe. Ele fica apavorado. Digo para ele ficar tranquilo. Eu também estou apavorada. Isso eu não digo.


Ao ver os duzentos e setenta e um comentários e um novo capítulo, o editor pergunta se desejo a sua morte lenta, depois diz que entende, ele também é escritor, mas é preciso decidir, uma hora o livro precisa chegar ao fim, não da história, da edição mesmo, você tem certeza das suas mudanças? Não, claro que não. Ótimo, então chega, você está proibida de mexer no livro.


Chegar ao fim

Estou no avião revisando o livro diagramado impresso. Não posso mais editar, apenas re-vi-sar.  Adoro trabalhar em aviões, não tem espaço para procrastinar – apesar de tanto espaço ao redor. Também não tem wi-fi, ao menos nesta aeronave, o que me permite cinquenta minutos de concentração offline com minhas folhas de papel sem nenhuma conexão. 

Não tem wi-fi, mas tem televisão. A mulher ao meu lado dormiu e deixou a tela ligada no jornal que diz: Guerra ao vivo. O mundo em guerra e eu aqui brincando de ficção. Penso em plagiar Kafka, mas me falta humor. Penso em chorar, mas o antidepressivo não permite. Estou no mesmo céu de onde lançam mísseis em algum lugar do planeta, e a aeromoça me oferece biscoito de polvilho e balinhas em forma de avião acompanhados de água, refrigerante ou suco de uva ou manga. 

Disse ao editor da Odisseu que estou escrevendo um diário do fim do romance e ele se anima a publicá-lo. Releio o diário é acho que é mais seguro se eu misturar ficção com realidade, até porque, não tem tanta diferença entre uma coisa e a outra.

A mulher ao meu lado acorda e me pergunta se o serviço de bordo já passou. Digo que sim e ao ver sua insatisfação ofereço minhas balinhas de avião. Ela fica feliz. Minha simpatia desperta nela alguma necessidade de interação, me arrependo. Ela pergunta o que estou corrigindo, se são redações, e emenda dizendo que a escola do filho dela também permite que os alunos escrevam as redações no computador, um absurdo, ninguém mais sabe escrever à mão, na minha época a gente estudava caligrafia e apanhava se saísse da linha. 

É um romance. Ela não entende de primeira. É meu primeiro romance. Nem de segunda. É um livro, estou revisando meu livro. Assim que entende que sou escritora ela diz, que chique. 

Só se for chique de chiqueiro, onde a lama é o primordial da criação suja e gosmenta, e somos porcos, esses seres sensíveis e inteligentes, que choram a caminho do abatedouro, mas que, mesmo assim, insistem, dia a dia, em se jogar na lama. Ou se chique for o ato de renegar uma profissão rentável, com FGTS e aposentadoria e férias e salário para passar vinte e quatro horas do seu dia observando o mundo em busca de algo que não seja narrável porque tudo é, tudo é passível de ser narrado, e você acaba escrevendo mesmo quando não quer escrever, dia desses eu escrevi textos maravilhosos enquanto eu caminhava na rua e me esqueci porque eu só queria caminhar, não queria parar para escrever e reneguei às boas ideias, se for chique quem se dá ao luxo de renegar as boas ideias, então sim, sou chique. 

Mentira, não foi bem assim.

A mulher ao meu lado acorda e me pergunta se o serviço de bordo já passou. Digo que sim e ao notar sua insatisfação ofereço minhas balinhas em form de avião. Ela recusa, não come doce. Eu também não, peguei para o meu sobrinho, digo. Deixo cair uma folha do livro, ela pega e me entrega. Digo que é meu primeiro romance, estou revisando. Ela sorri sem mostrar os dentes, chama a aeromoça e pede um fone de ouvido. 

Mentira, não foi bem assim também.

A mulher ao meu lado abre o olho, não posso dizer ao certo se acorda, ao ver a notícia da guerra desliga a tela e volta a dormir. 

Tá, a verdade é que a mulher nunca acordou. Já estamos em solo firme. Ligo meu celular e tem uma mensagem so editor: e aí, pronta para a impressão?