Coluna Terra Estrangeira

Esperar a neve em um país tropical

Publicado originalmente em 6 de julho de 2025.

Em 18 de junho, o navio Kasato Maru chega ao porto de Santos trazendo os primeiros 781 imigrantes japoneses sentenciados a trabalhar nos cafezais paulistas, inebriados pela fantasia contada por seu imperador de um país em explosão demográfica. Até 1941, foram 188 mil. No romance de Oscar, está entre eles Hideo, acompanhado de sua primeira esposa, Kimie, e um amigo, Jintaro, ouvindo alguns declamarem sonhos ao som do “Hai” (sim) de suas esposas, esperando cruzar o oceano outra vez em poucos anos com muito dinheiro, enquanto outros olham o mar engolir a última mancha de um país que acreditavam — ou sabiam — não ver outra vez. Hideo fazia parte dos sonhadores, e Kimie, parte das esposas que tentavam esquecer os próprios sonhos.

“Kimie, sentada sobre as pernas, as mãos pousadas uma sobre a outra, pensava que preferiria, como Marichan, abrir um pequeno restaurante, onde poderia se dedicar a preparar iguarias que sua mãe lhe ensinara a fazer, enquanto o marido se encarregaria do atendimento e do caixa. Logo, porém, desviou suas ideias para a loja de utensílios domésticos, pois desejar outra coisa seria inútil. Então sonhou com a loja, mas sem saber se era a mesma que habitava as expectativas do marido.”

Diante da casa destinada a eles na fazenda Ouro Verde, no entanto, perceberam que o sonho não era algo a se alcançar, mas uma isca para se perseguir até essa terra. De fato, “faltavam braços para arrancar de suas entranhas a riqueza que oferecia”, mas essa riqueza jamais passaria por suas mãos como havia prometido o imperador. Ainda assim, a adoração por ele permitia que Hideo sustentasse outra ilusão: a de que o governante do seu país fora tão enganado quanto eles. Apesar disso ser muito importante, o autor não se limita a falar das dificuldades da vida como imigrante e se dedica às questões internas dessa comunidade nipônica que se forma em terras brasileiras.

“Existem territórios que não são geográficos. Existe um estrangeiro que não é da terra, um deslocamento que não se relaciona com os mapas, exercido apesar de um país — e Oscar Nakasato explora isso em Nihonjin.”

Ocean Vuong, escritor vietnamita, questionou uma vez: “O que é um país senão uma sentença para toda a vida?”. Foi em Sobre a Terra Somos Belos por um Instante. Leio isso outra vez, e penso na Kimie, também em Shizue, em Sumie, em Haruo, personagens que vão surgindo ou nascendo ao longo da história. Também penso no conceito de território como um lugar dominado por um grupo; no conceito de lugar de uma maneira expandida para além daquilo que é físico; e penso em todas as sentenças que elas e ele receberam além daquelas que tinham a ver com estar em outro país. Existem territórios que não são geográficos. Existe um estrangeiro que não é da terra, um deslocamento que não se relaciona com os mapas, exercido apesar de um país — e Oscar Nakasato explora isso em Nihonjin.

Para Kimie, Shizue e Sumie, um desses deslocamentos está presente desde o nascimento — em qualquer lugar do mundo — são mulheres. Para Haruo, desde o questionamento sobre a validade de um território simbólico de manutenção de uma pureza cultural, de tradição. Enquanto, no entanto, era possível ver o fogo da punição de Haruo, em um incêndio que retornaria outras vezes, até que sua vida desaparecesse, não era possível ver tão claramente a chama que apagava muitas dessas mulheres. Ela estava sempre presente, colocada como parte constituinte delas, a ponto de, mesmo diante da angústia, demorarem a impedir que fossem consumidas por ela. E apagar essa chama era imperdoável. Entretanto, algo acontecia com Haruo que conseguia seus perdões, apesar de qualquer pedido, pois não havia o que ser perdoado.

O escritor Oscar Nakasato. Foto de Gilvan C. Borges (Divulgação)

É possível observar essa diferença em evidência quando comparamos a vida de Haruo, filho de Hideo com Shizue, e sua irmã, Sumie, que, nascidos aqui, passam a se interessar e incorporar elementos da nossa cultura e a se relacionar com mais proximidade com outros brasileiros — afinal, eles também são. Algo reprovado sobretudo pelos nascidos no Japão. Apesar de ser muito combativo desde a infância, e das punições físicas que recebeu até a morte, nunca foi negado um retorno para casa a Haruo, muito menos o reconhecimento como filho — o que não acontece com Sumie, e não aconteceu com Kimie.

Não há qualquer vergonha em insultar a memória dela — “Gostaria de ter conhecido essa mulher.” “Para quê? Não fazia nada direito, mal falava.” — como foi insultada em vida por não corresponder às expectativas do que seria uma boa esposa. Seus desejos e opiniões jamais importaram; sua voz foi reduzida a concordar com o marido o tempo inteiro. Foi impedida de ter em sua vida alguém que realmente se importasse com ela, até ser abandonada, ardendo de febre em um país tropical, vendo a neve cair no cafezal que jamais levaria qualquer um de volta ao Japão — em uma imagem que sintetiza o que é ser mulher e imigrante naquele contexto, e que foi a mais marcante para mim no livro.

“Uma noite, e era a noite mais fria do ano, Kimie não conseguiu dormir. Estava doente. Tomara os chás de Maria, ficara quieta sob as suas mãos enquanto ela rezava aquelas rezas que não entendia, mas não melhorara. De madrugada aumentou a febre. Quis ver neve. Hideo roncava ao seu lado. Levantou, caminhou até a porta da sala e a abriu. A neve cobria a terra. Saiu, correu o cafezal, correu entre os pés de café, sentindo a neve cair sobre sua cabeça, sobre os seus ombros. Correu durante muito tempo, estrela do espetáculo, abrindo os braços, ela, que sempre preferia ficar na janela. Finalmente, quando cansou, sentou na terra fria. A morte chegou lentamente. Há quanto tempo morria? Tranquila, congelada pela neve, congelada pelo sol.” (p.36)

Apesar de visualizar esse contraste, de ser apresentada com destaque no livro e, de ter certo questionamento sobre machismo, não há como negar a influência  do que fato que as  histórias dessas mulheres são afinal contadas a partir do olhar do neto que adquire certa onisciência e tem claramente como figura central o avô que torna a discussão esporádica de uma maneira que me incomoda. Ao mesmo tempo que conseguiu representar como as mesmas ações adquirem roupagem nova mesmo em grupos que se dizem combatentes dessa prática, como o fato de que na época do avô as mulheres só comiam após os homens, e na casa dos amigos marxistas do neto “a mulher de zé carlos” (sem nome) faz “o que as mulheres fazem enquanto os maridos conversam, chega no meio da tarde para preparar o café e os bolinhos de chuva. Continuamos conversando como se ela não existisse porque ela não entenderia.”.

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Nihonjin, de Oscar Nakasato
Fósforo, 2024
165 pp.