Correspondência Incompleta

Carta só para Aline Bei

Publicado originalmente em 5 de julho de 2025.

Foto: Mastrangelo Reino (Estadão Express)

Aline,

as coleções sempre envolvem uma obsessão particular diante de matérias coletivas: moedas, selos, papéis de cartas, ausências. E se estas últimas não nos pareciam tangíveis, vem o seu livro novo para guiar, delicadamente, nosso tato. Nossas mãos se agarram mais às páginas quanto mais a história avança, tentando conter, feito as margens sufocantes do texto, toda fuga. Não adianta. O que tem de ser tem muita força. Ainda bem.

Se o seu Pássaro nos apresentou uma Aline poeta (não só pela forma, como pelo olhar), e sua Pequena nos convidou à ribalta com uma Aline bailarina, sua Delicada, agora, nos presenteia uma Aline cineasta. Filha de Varda e Almodóvar. Consciência, lucidez e precisão. 

Enquanto Margarida lê as mãos de ansiosos transeuntes, você lê corpos inteiros pelas ruas e os traduz em personagens ricos de humanidade. A força das imagens e dos gestos captados na simplicidade da rotina: dia a dia, dano a dano, a cota do cotidiano. Entre a névoa do passado e o impulso do futuro, nós, os animais que não deram certo, habitamos, permitindo, ainda, que tanta atrocidade aconteça.

Sua decisão de investir na terceira pessoa foi certeira, Aline. E as rubricas, que você tanto ama, elevam os diálogos a uma categoria pulsante e envolvente.

Fiquei me perguntando, enquanto lia, por que você teria deixado mais aberta a torneira das palavras, já que elas, agora, preenchem um pouco mais das páginas. A resposta que me dei foi a necessidade de abarcar e abraçar mais gerações – o que é lindo! No Pássaro, há uma relação (ou a falta dela) com a descendência, enquanto que na Pequena moram os vínculos com a ascendência. Na Delicada, Margarida caminha por ambas as vias: era preciso mais fôlego. 

  Maria Valéria já bem disse dos cinco sentidos que se espalham pelo livro. De fato. Na soma deles, penso eu que nasce um sexto. Só seu. Essa sua perspicácia inteligente e segura de construir uma literatura digna de todos os aplausos. Apenas siga sendo, porque você já é uma enormidade. Meu abraço amigo,

Márcio 

D’onde ronca o peixe, 03-VII-2025

Leia Também: Quem tem medo do bruxo do Cosme Velho?