
O retorno de Jean Genet ao mercado editorial brasileiro
Duas novas edições e traduções do autor francês chegam ao mercado editorial. Uma delas, obra inédita descoberta em biblioteca nos Estados Unidos; a outra, romance transgressivo escrito na prisão.
Publicado originalmente em 11/08/2025. Imagem de capa: Jean Genet fotografado por Roger Parry, 1960; desenhos de Jean Cocteau em edição de Notre dame des fleurs, 1943; desenho Apolo com lira, 1950.
Não fosse pela literatura, o destino de Jean Genet não teria se alterado de maneira tão surpreendente – nascido em 1910, em Paris, foi entregue à adoção pela mãe antes mesmo de completar um ano de idade. Adotado por um casal de camponeses e criado no interior da França, logo cedo começou a apresentar um comportamento errático, entre tentativas de fuga e pequenos furtos, resultando na sua primeira passagem (entre várias) pelo sistema carcerário francês. Aos 18 anos, livre da prisão, buscou se alistar na Legião Estrangeira, mas foi expulso por indecência. De volta à sua cidade-natal, Paris, viveu em meio à criminalidade, à prostituição, e consequentes encarceramentos. Foi em uma de suas diversas passagens pela prisão que produziu seus primeiros textos, inclusive seu romance de estreia, Notre-Dame-des-Fleurs, publicado em 1943. A publicação foi possível graças à ajuda de um amigo importante na cidade, o artista Jean Cocteau. Foi também com a influência de alguns dos principais intelectuais de sua época que Genet escapou de uma sentença de prisão perpétua. Impressionados com suas obras provocantes e inventivas, figurões como Jean-Paul Sartre e Pablo Picasso intercederam pela anulação da sentença, atendida pelo então presidente Vincent Auriol. Dali em diante, entrou no hall de grandes nomes da cena cultural de seu país, bem como outras partes do mundo graças às traduções de sua obra, marcada pela inversão de valores morais, pelo erotismo, e por passagens autobiográficas.
Embora possua lugar de importância para a literatura francófona, a obra de Genet não circula no Brasil há bastante tempo. Com traduções esparsas para o português, o autor carece de uma apresentação mais arrojada para o público brasileiro. Felizmente, uma recuperação de Genet parece estar em curso com a chegada ao mercado de dois títulos de alta relevância e surpreendente atualidade. Na última sexta-feira (8 de agosto), a editora Ercolano publicou com exclusividade Heliogábalo, peça de teatro inédita, recentemente descoberta em uma biblioteca de Harvard, nos Estados Unidos, e a editora Todavia, nova tradução de Nossa senhora das flores, título de estreia supracitado, descrito como fruto das “memórias pessoais e obsessões íntimas” do autor.
Narrativa queer
Em sua dissertação de mestrado, intitulada Gide, Genet: inserção e ruptura na narrativa homoerótica, o professor Marcus Vinícius Rodrigues analisou a ruptura narrativa provocada pelo uso da primeira pessoa em livros dos dois autores franceses. Em ambos, a vivência sexual mistura-se à tradição literária e revela duas visões bastante distintas quanto à homossexualidade. “Gide busca emular a pederastia grega, com uma homossexualidade viril. Ele não gostava dos afeminados. Genet com certeza se encaixa no que hoje chamamos de queer. Sua vivência homossexual é de dentro para fora. Ele vê o mundo a partir desta identidade. Gide, o burguês rico com tons de aristocracia, quando escreve, se comporta como se visse a questão de fora”, explica.
A edição da Todavia para Nossa senhora das flores conta com tradução de Julio Castañon Guimarães, que possui experiência prévia com autores caros a Genet, como Baudelaire e Rimbaud. A edição proposta para o título busca destacar sua pertinência e atualidade. Segundo o editor Leandro Sarmatz, a ideia é trazer para os dias de hoje a mescla entre sublime e profano presente em sua prosa, algo que pode ser percebido desde sua capa até às citações de Édouard Louis e Amara Moira evocando estas mesmas características na obra. “Difícil não lambrecar as mãos nessas páginas repletas de gozo”, chega a declarar a última. No romance, temos uma narrativa em que os limites entre ficção e autobiografia são embaralhados, lembrado a onda de obras de autoficção que tem dominado a produção contemporânea nos últimos anos. O narrador é o próprio Genet que, na prisão, escreve a história de Divine, uma figura que, nas palavras de Rodrigues, é “uma pessoa que hoje seria chamada de travesti, mas seria mais correto usar nomenclaturas antigas como Boneca, afinal, Divine mantém uma imagem andrógina, inclusive usando calças de marinheiro”. Há pelo menos três momentos narrativos: Genet na prisão, relatando suas dificuldades naquele ambiente; Divine no auge e também em seus últimos dias antes de morrer devido à tísica (também conhecida como tuberculose, que entrou para a história da literatura como a “doença dos românticos”), e sua infância, quando ainda atendia pelo nome de Culofroy. Uma curiosidade e exemplo da extensão da influência de Genet é que a drag queen Divine, estrela irreverente de filmes underground como Pink Flamingos (1972) foi nomeada em referência à personagem do livro.
No cruzamento entre literatura e arte drag, o uso do nome por Divine parece reforçar a localização de Genet como parte de uma produção cultural específica, queer, ainda que anterior à adoção do termo como identidade e teoria. Neste ponto, é preciso cuidado na leitura – “É certo que ele conviveu com o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Esteve com os Panteras Negras. Deve ter conhecido o movimento gay surgido a partir de Stonewall. Mas ele já tinha mais de sessenta anos. Sua vivência homossexual é anterior a essas categorias. É preciso entender as categorias criadas pelas terminologias. Muda o modo de ver e de viver a sexualidade”, Rodrigues alerta. Nesta literatura, há uma experiência de marginalidade que diz mais que apenas do autor, isoladamente, mas de todo um conjunto de sujeitos que, estando à margem da sociedade, acabaram encontrando espaço para viverem suas sexualidades em meio ao convívio com ladrões e assassinos. Distinta, portanto, dos movimentos afirmativos, do orgulho LGBTQI+, da imagem mais “limpa” que homossexuais construíram a partir da assimilação social, mas nem por isso, distante de outras realidades menos idealizadas. “Acho bom que as pessoas leiam Genet e voltem a olhar para este mundo que está aí ainda hoje. Não existe só o gay casado e pai ou a drag filósofa. Nas periferias das cidades ainda existem muitas Divines apaixonadas por assassinos com o nome de Nossa Senhora das Flores”, opina Rodrigues. Sem perder de vista sua particularidade, podemos pensar nos diálogos que Genet ainda estabelece com a produção ficcional e intelectual de hoje, e talvez reconheçamos nele a origem para aquilo que Sarmatz classifica como uma produção “genetiana”: aquela que traz a presença do Eu, da performance, do corpo e da sexualidade.
Tradição autobiográfica
Rodrigues ainda observa que a utilização da autobiografia como recurso literário constitui uma tradição na literatura francesa. Além de Genet e Gide, há nomes ainda mais antigos, como Jean-Jacques Rousseau, com seu As Confissões (1782-1789), no século XVIII; Stendhal, que também recorria à autobiografia e chegou a imitar cenas do livro de Rousseau em seu O vermelho e o negro (1830), bem como uma variada gama de autores que também compõe este gênero, como Chateaubriand, George Sand, Marcel Proust, Simone de Beauvoir e Julian Green. Sobre a tradição, emulada por nomes contemporâneos, como Annie Ernaux, Édouard Luois e Paul Preciado, Rodrigues ainda comenta que há certo grau de performatividade ao se colher da própria experiência o material para a composição literária: “Quando o escritor de autoficção escreve o primeiro livro, talvez esteja obedecendo a um comando interior irrefreável. Mas e depois? Quando ele continua a escrever sobre fatos vividos depois de estrear está escrevendo o que viveu ou ele viveu para ter o que escrever? Em que medida a performance da autoficção não decorre de uma vida performatizada para registrar?”. Tais indagações parecem abrir novos horizontes para se ler tais obras, bagunçando as distinções entre autor e persona, verdade e ficção.
Editando Heliogábalo
Se nos romances Genet muitas vezes explorou as formas autobiográficas, em suas peças de teatro, igualmente reconhecidas, afastou-se dessa tradição. O marco para tal cisão teria sido a publicação de Saint Genet: ator e mártir (1952), um profundo estudo em que Sartre busca canonizar o amigo, defendendo a visão de uma metamorfose de ladrão em artista. Tal exposição, para Rodrigues, pode ter curado sua necessidade visceral de fazer da própria vida material para produzir literatura, ou ainda, pode tê-lo reprimido definitivamente. Seja qual for o efeito que o ensaio longo do filósofo tenha tido no escritor, o fato é que suas peças, classificadas como parte do movimento conhecido como “Teatro do Absurdo”, apresentam diferentes temas, alguns deles em diálogo com seu envolvimento político-ideológico, caso de The Blacks (1958), que aborda a negritude, e The Screens (1964), sobre a Guerra da Independência Argelina. Diferentemente de suas peças já conhecidas, a descoberta de Heliogábalo renovou o que se conhece quanto ao teatro de Genet ao revelar uma escrita aos moldes clássicos. O manuscrito de 1942 foi encontrado pelo professor Francois Rouget na Houghton Library, da Universidade de Harvard. A partir do trabalho de Rouget, foi possível trazer ao público o texto, com sua publicação em 2024 pela editora francesa Gallimard.
O enredo ficcionaliza a história do imperador adolescente romano cujo nome dá título à obra. Roberto Borges, editor da Ercolano, destaca dois pontos sobre a peça: o lugar de importância das figuras femininas, que conduzem a narrativa e tramam o assassinato do imperador, e a tematização das “ditaduras infantilizadas”, a qual compara com a realidade vivida no passado e no presente: “O Brasil viveu isso recentemente com o Bolsonaro, e agora nos Estados Unidos com o Trump. Então, o Heliogábalo tinha isso, ele era uma adolescente, ele tinha esses caprichos todos de alguém muito poderoso, que simplesmente disse ‘não tem mais nenhum deus, o deus do Império Romano sou eu’”, comenta.
O editor revela que publicar dramaturgia já era um desejo desde o início da editora, o que se materializou com a publicação da Trilogia para a Vida, formada pelos títulos Lembro todo dia de você, Brenda Lee e o palácio das princesas e Codinome Daniel. O nome de Genet apareceu em meio a uma pesquisa por nomes de peso que pudessem dar continuidade ao projeto. A princípio, o contato feito com a editora Gallimard teve por objetivo negociar as peças mais conhecidas do autor, porém, por um coup de chance, como diz Borges, a publicação da peça inédita levou a uma mudança nos planos.
Contudo, o interesse por tal publicação vai além de seu ineditismo. A figura de Heliogábalo tornou-se um grande mito na França no final do século XIX, tendo inspirado a produção de poetas simbolistas, pintores e romancistas, como relata Jean de Palacio, professor emérito da universidade Paris-Sorbonne, no posfácio à edição de Lord Lyllian: Missas Negras, de Jacques d’Adelswärd-Fersen, que saiu pela Ercolano no ano passado. Como parte deste contexto, o próprio Genet teria tido contato com o personagem a partir da leitura de Heliogábalo ou o anarquista coroado (1934), de Antonin Artaud.
Estas conexões entre antiguidade clássica, século XIX, francofonia e literatura LGBTQI+ são bastante características do catálogo da editora independente. Régis Mikail, editor e tradutor da casa, explica: “A Ercolano nasceu com a ideia de trazer obras inéditas, nunca traduzidas, ao público. Vai dos nossos objetivos trazer essas vozes que, a nosso ver, são injustamente esquecidas. Além disso, o Heliogábalo é um personagem LGBT importante. Tem um museu em Londres em que eles trazem no cartaz explicativo, acho que de um busto, [os pronomes] he/she, então eles consideram o Heliogábalo um personagem trans. […] o Heliogábalo é um personagem que radicalizou, ou para usar um termo mais corrente, ele barbarizou o Império Romano na época. Ele negava a religião romana, ele desprezava a ordem política, desprezava a própria família”.
Assinando a tradução da peça junto ao dramaturgo Renato Forin, Mikail relata ter buscado um texto que permita sua encenação, além de preservar sua musicalidade. “O Genet parece ter se imposto os preceitos do teatro clássico para fazer uma peça nesses moldes, tanto que os versos do francês são ritmados. Isso foi um enorme desafio. Outra coisa que chama a atenção no texto e na tradução são as imagens referentes à luz, em referência à própria lucidez do Heliogábalo, ou seja, não o mostra como apenas um louco, excêntrico, mas como alguém extremamente lúcido, que sabia de tudo o que ia acontecer”, comenta.
Despudorado, político e marginal, Jean Genet é desses escritores capazes de causar as mais diversas impressões em novos leitores, do previsível choque ao profundo encantamento. Independentemente de qual será a reação, as novas edições convidam ao encontro de uma obra que ainda reverbera, atualíssima, e ao que depender do empenho dos editores, ainda teremos mais Genet para nos deleitar no futuro próximo, já que Mikail e Borges possuem interesse em publicar mais de seu teatro, e outros três títulos devem sair nos próximos anos pela Todavia. Felizmente, Genet já circula novamente entre nós.

Heliogábalo, de Jean Genet
Tradução: Régis Mikail e Renato Forin Jr.
Editora Ercolano, 2025

Nossa senhora das flores, de Jean Genet
Tradução: Julio Castañon Guimarães
Todavia, 2025
