Manancial

Queremos saber

O que da vida e da arte (se é que há uma separação) nos incomoda tanto a ponto de nos fazer querer fugir para dentro do celular?

“Woven Intellect (ships from us)”, óleo sobre tela, da pintora argentina Gabriela Cabeza. Reprodução.


Penso no que vou fazer com esse tempo que digo querer ganhar ao fazer um milhão de coisas ao mesmo tempo, usando IA adoidado para supostamente agilizar as demandas, parando leituras no meio porque não posso perder tempo lendo livros supostamente ruins e atrapalhando a mim mesmo e aos outros no cinema porque preciso responder uma mensagem no WhatsApp no meio do filme.

Dia desses ouvi o Guilherme Arantes falar de seu ofício com muito amor. Até chorou, em determinado momento, quando colocou em palavras a dimensão fundamentalmente humana da criação artística. Naturalmente, o papo seguiu para o avanço da IA na música. A menos que as plateias sejam totalmente substituídas por robôs, não faz sentido criar arte a partir de robôs, disse o cantor. E fez sentido para mim – eu que ainda sou um ser humano, o único capaz de ouvir uma ideia e pensar: taí, rapaz, gostei!

Quando um artista compõe uma determinada letra de música, penso no que ele pensava, penso pelo que sofria, se foi no Rio de Janeiro, em um avião cruzando o Atlântico ou no fundo do poço, no auge da fama ou no quarto escuro e úmido do ostracismo.

Há perguntas a respeito da criação artística para as quais talvez nunca haja resposta, e isso é desconfortavelmente bom. São djavaneadas ou caetaneadas lindas, inexplicáveis, mas, ao mesmo tempo, absolutamente compreensíveis. Talvez a gente nunca saiba realmente o que o zum de besouro significa e quando pergunto se sou neguinha, talvez só eu mesmo tenha a resposta, ninguém mais.

Não faz muito tempo, viralizou uma entrevista em inglês do diretor Fernando Meirelles a respeito do idioma. “Quando você diz mango tree, em inglês, é só uma árvore. Em português, mangueira, é minha mãe”, disse ele, justificando que precisa sentir na sua língua primeira. É como escrever um texto. Pode ser mais confortável bolar um prompt e estruturar uma ideia. Mas viver um luto, por exemplo, e desenhar em palavras esse rasgão no peito, carrega mais verdade. 

“Há perguntas a respeito da criação artística para as quais talvez nunca haja resposta, e isso é desconfortavelmente bom.” – Renan Sukevicius

A suposta busca por agilidade na rotina talvez seja uma excelente desculpa para nos desviar da vagarosidade da contemplação da arte e da sua inevitável falta de significado. Em tempos que o Chat GPT tem resposta pra tudo, soa angustiante assistir a um filme ou olhar para um quadro, perceber as nuances e, ainda assim, não saber exatamente o que se pretendeu ali. E uma IA não faz ideia do que seja perder alguém. Nem como tirar forças para seguir adiante, apesar da perda.

E se em vez de largar um livro supostamente ruim (porque, afinal, a vida é curta demais para ler livros ruins), a gente fosse até o final? E se a gente não respondesse à mensagem no WhatsApp quando ela chega justo no meio do filme, o que aconteceria? E se a gente encarasse a arte de frente e até o fim, sem se distrair, daria o quê? Talvez a gente topasse com isso de que a gente tenta se desviar toda hora, quando olha a tela do celular a todo tempo, abrindo uma geladeira virtual mesmo sem fome. Só pra ver o que tem lá dentro.

O que da vida e da arte (se é que há uma separação) nos incomoda tanto a ponto de nos fazer querer fugir para dentro do celular? O tempo que a gente tenta ganhar a todo custo, como se pudesse acumulá-lo feito dinheiro, acaba virando tempo de tela, quando poderia ser a vida ao vivo e viva.