Poesia

3 poemas inéditos de Manoella Valadares

Leia com exclusividade na revista O Odisseu, 3 poemas de Manoella Valadares que estarão no seu próximo livro, Armação de guerra, que sairá em junho pela Telaranha Edições.

Foto: Divulgação.


sombra 

procuro tua figueira em parliament fields
mas nesse lado do parque 
essa árvore nunca
existiu 
onde está a tua figueira Esther
quando a noite dobrar
vou imaginar tua caixa
de abelhas encostada à máquina de
escrever que repete repete 
repete o peso do céu desta cidade 
sangue porcelana oco sangue porcelana oco
oco porcelana sangue porcelana oco oco oco
onde está a tua figueira Esther
essa árvore nunca existiu me diz
um bezerro de pele finíssima
no colo de uma mulher ruiva
muito parecida com você
mas os olhos dela estão abertos Esther
atravesso esses lagos

um graveto uma pedra uma fivela rosa um corvo
uma folha de carvalho uma cicatriz uma xícara

maçãs

27081950
para Mariana Basílio

as cortinas de veludo fechadas
pesam uma elefanta em gestação
mas uma nesga revela um feixe
luminoso que abre passagem
traçando uma linha paralela 
entre os chifres de lucian e os dentes 
postiços de João
os meninos hoje não saíram para dançar
seguem fodidos e precisam convencer a Ismael
que ao abrir as cortinas tudo será bailão
Gilka ainda sonolenta indica o divã 
João agora com os dentes recolhidos
e olhos semicerrados imagina um jato quente
banhando suas patas tortas
e deita-se timidamente à espera 
da voz
Adalgisa pousa o chapéu na mesinha de cabeceira
observa a cena como uma puma enamorada (da presa)
Gilka estica as narinas
levanta a palete e eleva o pincel na direção 
dos lábios de Ismael
no parapeito da janela uma pomba engole seu último naco de pão
do outro lado da cidade,
C. P. gasta o que restou da tinta com um ponto final

looping

uma fronha bordada
também tem lá 
seus mistérios
não esta com
esse monograma 
falido
de cabeça pra 
baixo
mas aquelas que a linha 
frágil desponta quando
o desenho da artéria se
desfaz mais

uma vez


Manoella Valadares é poeta e contista. Nascida no Recife, morou em Lisboa por seis anos e, desde 2015, está radicada em Londres. Publicou Ninguém morreu naquele outono (Telaranha edições, 2024), Tasquinha do cupim (Impressões de Minas, 2025) e traduziu Hotel Particulier, Frank O’Hara (editora Fictícia, 2025). Foi finalista Jabuti em 2025. Armação de guerra é o seu terceiro livro de poemas e será lançado em junho de 2026 pela Telaranha Edições.

Crítica originalmente disponível no n28 da revista O Odisseu, em breve disponível gratuitamente no site.