Poesia

‘Uma energia verbal concisa e fulminante’: Davis Diniz indica 3 poemas de Alejandra Pizarnik nos 90 anos de nascimento da poeta argentina

A convite da revista O Odisseu, Davis Diniz, professor da UFMG e tradutor de Alejandra Pizarnik, indica 3 poemas para quem deseja se aproximar de uma das mais importantes poetas latino-americanas.

Foto: Reprodução.


Alejandra Pizarnik (26 de abril de 1936 — 25 de setembro de 1972) é uma dessas autoras que conquistam os leitores pela profundidade. Seus versos, que variam entre a melancolia sedutora e o desejo pela descoberta da vida, ilustram os múltiplos interesses de uma poeta comprometida com a experimentação.

No Brasil, não são poucos os interessados pela obra de Pizarnik. Entre pesquisadores da obra da poeta argentina está Davis Diniz, professor de Teoria da Literatura e Literatura Comparada da UFMG e tradutor da obra poética da autora para a editora Relicário.

A convite da revista O Odisseu, Davis indicou 3 poemas para quem deseja adentrar no universo de Pizarnik. Quando nos aproximamos de determinados autores, um pouco de dúvida paira nessa navegação: por onde começar? Em que prestar atenção? 

Se você está nesse momento, confira aqui 3 poemas de Pizarnik indicados por quem entende do assunto!

3 poemas para começar a ler Pizarnik (seguidos de comentários de Davis Diniz)

“23” (Árvore de Diana, 1962)

um espreitar a partir da sarjeta
pode ser uma visão do mundo

a rebelião consiste em olhar uma rosa
até pulverizar os olhos

Comentário de Davis Diniz: No livro Árvore de Diana, Pizarnik radicaliza sua proposta de síntese poética, eliminando até mesmo o título dos poemas, que aparecem apenas enumerados. As imagens, como esta no poema “23”, emergem propositalmente adensadas, liberando uma energia verbal concisa e fulminante. 

“Festa” (Os trabalhos e os dias, 1965)

Eu desdobrei minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa. 
Desenhei o itinerário
para meu lugar ao vento. 
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem. 

E bebi licores furiosos
para transmutar os rostos
em um anjo, em copos vazios.

Comentário de Davis Diniz: Orfandade, desterro, vento e uma espera (beckettiana) sem perspectivas de encontro: temas recorrentes na obra da poeta, comparecem no poema “Festa”. Trata-se de uma cerimônia em seu estado de anticlímax, dando à solidão um caráter de irredutibilidade, pois “Os que chegam não me encontram. Os que espero não existem”. 

“Signos” (O inferno musical,1971)

Tudo faz amor com o silêncio. 

Haviam me prometido um silêncio como um fogo, 
uma casa de silêncio.

De repente o templo é um circo e a luz um tambor. 

Comentário de Davis Diniz: O silêncio como pretexto da poesia, assunto dos mais nomeados e trabalhados na obra de Pizarnik. A linguagem, defrontada com os impasses da matéria verbal, é sempre configurada como uma projeção de si mesma no encalço do naufrágio. Mas não nos enganemos: o silêncio aqui não é apatia, ou desistência, mas sim nutrição e conflito implosivo. Em suma: o pretexto da criação poética em Pizarnik. 

Eventos celebram os 90 anos de Alejandra Pizarnik em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro

Se você ficou curioso pela obra de Alejandra Pizarnik,  vale a pena ficar atento a esses dois eventos que acontecerão  em breve. O primeiro, O Colóquio 90 anos de Alejandra Pizarnik, acontece na Faculdade de Letras da UFMG e reúne grandes nomes da crítica literária atuais no Brasil. O evento acontecerá nos dias 20 e 21 de maio (cartaz ao lado). O segundo evento é uma segunda edição desse mesmo colóquio e acontecerá no Rio de Janeiro, em agosto na PUC-RIO, e contará com a organização do professor Davis Diniz e da professora Patrícia Lavelle. 

Davis Diniz é professor de Teoria da Literatura e Literatura Comparada  na UFMG. Em poesia, publicou Manual prático para a pista de dança (Urutau, 2025). Traduziu para o português as obras poéticas de Alejandra Pizarnik (Relicário) e Gabriela Mistral (Pinard). É autor de artigos e ensaios acadêmicos, entre eles o mais recente Nostalgia Formal (Relicário, 2025).