
‘Me reconheço no tato’, de Jotaelmes Ramírez
As categorias são acordos reescritos em cada encontro. Já ninguém sabe se sou trans, mulher, homem, gay, cuir, lésbica, hétero, tudo ou nada. Nem eu sei mais, não devo saber. As categorias são acordos desgastados.
- Trecho de A quienes queden, de Jotaelmes Ramírez, Sur|Norte Editoras, em tradução inédita de be rgb.
Foto: Jose Angel (@joseangelqn) – Reprodução das redes sociais.
Esse tipo de amargura é difícil de explicar. Ver-me nue é um labirinto sem saída, não entendo para onde vou, nem como dar com o esconderijo do fim, o fechamento, a transição completa. Apenas vejo passado no reflexo de hoje. Corpo inquieto. As vizinhas me chamam de mulher-macho, é verdade que me sinto assim; mas também me soa outra coisa em sua boca, não gosto. Entro no elevador e chego direto a interpelar as nuvens e o vento que as mexe; peço-lhes as coordenadas das minhas ruínas, é lá onde devo procurar. Na catástrofe descobrirei quem sou.
Esta cabeça enclausurada consome todo espaço habitável. Volto o olhar para o interior do apartamento de Santiago que me sustenta e trinta muralhas se levantam do piso quebrado. Trinta muralhas que abafam os gritos. Trinta muralhas por metro quadrado que atravessam meu pescoço e eu, quieto, olhando novamente para o céu, me lembro da doença que parou o tempo, a globalidade do vírus e sua brutal capacidade transformadora. De meu pescoço goteja um temor denso, portador da finitude inapelável do corpo. Não posso parar para pensar na morte, os cadáveres infectados se amontoam do lado de fora da porta. Não posso parar agora que a vida começa. Oculto releio a forma com a qual me relaciono com este corpo. Quero mostrar minhas mudanças e não posso. Não há lado de fora. As categorias são acordos reescritos em cada encontro. Já ninguém sabe se sou trans, mulher, homem, gay, cuir, lésbica, hétero, tudo ou nada. Nem eu sei mais, não devo saber. As categorias são acordos desgastados. Não é possível negar a união das vivências, das lembranças, das experiências novas e do núcleo que imaginou tudo, o núcleo puro da intuição. Não lembro como se vivia antes de entrar no vórtice. A ferida do pescoço abriu meu corpo até os joelhos. Preciso sair daqui.
Pego a coleira do cachorro e saímos para passear. A máscara é a lembrança asfixiante da fragilidade que tanto desejo negar. A máscara que cobre os sete orgulhosos pelos que delineiam este bigode juvenil. O elixir que entrego à minha corrente faz germinar presentes emocionantes, um fôlego de ar fresco em meio à asfixia. Asfixia que volta a sepultar meu riso cada vez que respiro tragando tecido.
Transição no isolamento.
Há dias melhores que outros. Recolho o cocô do cachorro com a mão direita, os gambés estão na esquina, tenho que me trazer de volta. Sinto impotência de não poder habitar a rua que tantas vezes temi, sinto saudade dessa parte de mim, a urbe. Caminho lento de volta para casa, para as trinta e tantas paredes que comprimem o ar, para as nuvens que continuam no mesmo lugar, para meu corpo aberto que deixei para sair a percorrer a cidade fantasma, vigiada por assassinos, coberta por toldos.
Lento.
Lento, que é a única velocidade que existe. Lento para poder assimilar o golpe. Neste estado desviado do tempo, na sentença solitária, cada segundo vale um minuto; cada minuto, três horas; cada dose, uma vida; cada encontro fortuito, uma lembrança do perdido.
Sinto saudade de ver pessoas “como eu”. Sinto saudade dos espaços seguros de contenção em cadeia onde estava tranquilo, rindo e curtindo a pegação transviada. Sinto saudade da galera, des amores. Na selva cisgênero, a discórdia busca em meu corpo sinais que indiquem se sou viado ou machorra. Os porteiros perguntam muito, agarram meus peitos, adoram saber o nome civil das contas. Os rapazes na loja não fazem ideia, me chamam de brother, parece uma piada; quando passo meu cartão na máquina, sempre o faço com o nome para baixo. É assim que se sente o cabo de guerra da identidade dissidente; o cabo de guerra da mentira do binário; o cabo de guerra de cuidar do descoberto.
Há dias em que me sinto uma mentira.
Abro a porta da casa e já não há muralhas, apenas ruínas. A pele translúcida do que fui jaz estendida em meio aos escombros. Entro com cuidado e cavuco o interior, o coração guia mais do que qualquer sentido, uma luz brilha em meu peito na proximidade do genuíno. Passo por água morna os pedaços que recupero, lavo a podridão de ter negado tudo que sou, lavo o trauma de ter sido criado como outre, lavo o nome cuja letra estimo. À medida que o processo avança, me dou conta de que a identidade é apenas uma parte; não é necessário apagar tudo para surgir, as constantes existem. Instintivamente deixei pistas em meu caminho ao andar, pequenos e poderosos lampejos do que pensei perdido. A evolução é uma viagem ao interior que demanda sacrifícios, impossível mudar deixando tudo como está; equilibrar. Com as joias encontradas nas ruínas brilhando em minha mão, lembro-me das coisas que não quero mudar, que me dão orgulho. Impressiona-me a plasticidade do corpo, do gênero e da normalidade; impressiona-me o alcance expandido que minha pele tem, a voz que fingia ter agora me pertence, ainda não a controlo, sigo alheio ao meu tom. O isolamento não é simples, às vezes me sinto assim com meu corpo: capturadoae. A rua era um espaço para tatear a percepção externa de quem sou. Ninguém pode se construir sozinhe. Os “senhorita”, “jovem”, “senhor”, “moça” são retratos viciados que as pessoas geram de forma quase automática e, mesmo assim, são uma forma de tatear a percepção externa do ser. Essas palavras dispostas aleatoriamente no caminho refletem a fragilidade do gênero como um absoluto. Na vida social, colecionava as repetições e fazia com elas um registro panorâmico de como me percebem. A repetição varia com a aparência e sua leitura preconceituosa. Hierarquizamos mal o respeito e nós, certos grupos de pessoas, estamos bem abaixo nessa distribuição patriarcal. O gênero, em seu limitado binário mulher-homem, provém de uma ladainha de indicações que devem ser cumpridas para sustentar uma correta feminilidade ou masculinidade. Na falha se encontra toda curtição transviada, na falha se encontra o castigo injusto.
Em um piscar de olhos, o quarto inteiro ficou vazio, é de noite. Toque de recolher. Em uma das paredes se projeta um vídeo no qual apareço explorando a cidade, pedalo entre buzinadas, dou cotoveladas em desconhecides ao passar. Caminho entre as pessoas; me movo no vaivém da cabeça-corpo e no contato com esse outro que existe: a realidade, como a chamam. A realidade de hoje não é a realidade. A realidade de hoje é isolamento, controle, perigo, perda; é a inegável decadência. A realidade de hoje é a anterior potencializada. A realidade de hoje duramente impede que se escape das malditas casas onde os pronomes mal-usados obrigam a viver negade; a realidade de hoje induz incêndios no mar, vida cimento. Na realidade de hoje, minha voz quica pelas paredes e retorna aos meus ouvidos, aqui não há mais ouvintes. O dia se encerra com as armas vigiando a noite. A morte não as teme, conhece-as de perto, por isso passeia livre pelas ruas que ainda olho pela janela do nono andar deste edifício monstruoso. Melhor aqui do que agonizando à espera de ventilação; melhor aqui do que flertando com a parca; melhor aqui. Não deveria reclamar. Ela toma seus reféns enquanto eu tomo vinho. Sou um ponto à parte, uma janela ansiosa, sem tato, lembrando-me do ontem.
O trecho acima pertence ao livro A quienes queden (Sur|Norte Editoras), de escritore chilene Jotaelmes Ramírez, cuja tradução será publicada no Brasil pela editora O Sexo da Palavra. O projeto também foi facilitado pela Looren América Latina 2026, concedida a seis tradutories sendo be rgb ume delus, que é uma residência coletiva realizada com apoio da Pro Helvetia América do Sul na Casa de Tradutores Looren, em Wernetshausen, Suíça. A tradução ainda está em andamento, de modo que a versão disponível acima muito provavelmente ainda passará por mudanças.

be rgb (Breno Guimarães Barboza) escreve, traduz, revisa, oferece oficinas de escrita e lê cartas de tarô. Pesquisou sobre os estudos feministas da tradução e/m queer~cu-ir no doutorado na UFSC. Traduziu só e em parceria textos de literatura e não ficção do espanhol, catalão e inglês, sendo finalista do Jabuti de Tradução de 2019 ao lado de Meritxell Hernando Marsal por sua tradução de “Degelo/Desglaç” de Maria-Mercè Marçal. Contemplade como ume des tradutores residentes da Looren América Latina em 2026, também foi tradutore residente (set./out 2023) do Institut Ramon Llull em Barcelona, assim como convidade pelo Instituto Cervantes Berlim como autore traduzide por Odile Kennel na Latinale (2021), e pesquisadore-tradutore selecionade pela Leverhulme International Network, Translating Feminism: Transfer, Transgression para uma comunicação na Universidade de Glasgow (2018). Já publicou 5 livros, dentre eles querides monstres, que foi traduzido para o alemão por Odile Kennel, e 3 plaquetes. Foi jurade do VII Prêmio Mix Literário. Mora em Curitiba desde 2023.
