
“As Malditas” e a obsessão pela “beleza” do público leitor brasileiro
Publicado originalmente em 2 de maio de 2025.
Foto: Guillermo Albrieu Llinás
Conheci a escrita de Camila Sosa Villada por meio de O Parque das Irmãs Magníficas, em uma edição em cores vibrantes pelo selo Tusquets, da Planeta, o mesmo grupo que a publicou originalmente. A tradução foi de Joca Reiners, que permanece na nova edição da Companhia das Letras, e a ilustração da capa ficou a cargo da fabulosa Paula Cruz, que também foi responsável pelas ilustrações da edição da TAG Livros para o mesmo título e, posteriormente, de Sou uma tola por te querer e A Namorada de Sandro, pela Tusquets.
O livro entrou imediatamente na lista dos meus preferidos da vida, mas a edição sempre me causou incômodos — não pela qualidade da tradução ou da ilustração, mas pelas escolhas editoriais que levaram a uma estética, no campo das palavras e da imagem, que se distancia do que Camila propôs para sua obra desde o primeiro contato com ela, que é, naturalmente, pelo título e pela capa.
Deixando de lado as intenções artísticas e encarando isoladamente a lógica do mercado, a mudança funcionou. Foi um sucesso: o livro realmente vendeu, a Camila veio para o país em mais de uma ocasião e, atualmente, todas as suas obras estão publicadas em nossa terrinha. Isso é maravilhoso, inegavelmente. Hoje, me falta ler apenas Tese sobre uma domesticação. Sou perdidamente apaixonada por cada um dos que li. Porém, quando a nova edição chegou com o título As Malditas e — apesar de o ideal ser uma nova tradução — com uma revisão da incrível Amara Moira, ao mesmo tempo que me trouxe um alívio pela solução daqueles incômodos, trouxe, conjuntamente, uma nova preocupação: a quantidade de protestos com a mudança do título.
A editora declarou, em post do Instagram, sobre a mudança: “A busca foi por restaurar uma certa crueza mais próxima do espírito da obra de Camila Sosa Villada. Las Malas convertida em As Malditas, para seguir provocando perplexidade e encanto em novos e antigos leitores deste relato emblemático da bruta realidade travesti.” Já nas respostas contrárias à alteração, algumas palavras predominam: “poesia” e “beleza”, com seus derivados e sinônimos, para se referir ao antigo título.
Acontece que o conceito de beleza é subjetivo e o conceito de poesia, da maneira como continuamente é expresso, soa como sinônimo daquilo que é belo dentro de uma subjetividade muito específica, ou seja, é a limitação da limitação. Apesar dessa ideia de poesia e beleza ser dominante, não é por ser inquestionável, mas por conta da colonização. Essa é a primeira reflexão que proponho.
A segunda é — e isso passei a questionar nos últimos anos, principalmente ao longo das trocas com es querides e incríveis Ravel e Flecha, da elle-elu transediciones y traduções — que as palavras têm (já sabia, como qualquer pessoa que curte ficção deve saber) um sentido maior que o literal. Contudo, e acredito ser até mais importante, elas possuem um sentido maior que o sentido poético. O que quero dizer é que preservar o sentido literal e as metáforas na tradução não é suficiente para algumas palavras e construções verbais, que possuem, além destes, um sentido histórico, sociológico, cultural e político — que é, por vezes, impossível de ser traduzido em outra língua.
Nesse sentido, escolher Amara Moira para a revisão da tradução é fundamental, estou ansiosa para ler a tradução com esse sopro de vida. E escolher As Malditas como título é, ao meu ver, preservar esse sentido maior — essa completude. E disso, não dá para abrir mão por uma fútil obsessão pela beleza “clássica”.
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