
‘Escrevo ficção desde a adolescência, mas só dessa vez senti que era hora de publicar’, diz Fabiane Secches que acaba de lançar ‘Ilhas Suspensas’
Em entrevista à revista O Odisseu, Fabiane Secches conta como a escritora e a crítica literária se equilibraram para a escrita de “Ilhas Suspensas”, seu primeiro romance publicado.
Foto: Fabio Audi (Divulgação)
Fabiane Secches não é uma estreante desconhecida do público leitor brasileiro. Nós a conhecemos do seu trabalho de crítica e a escrita de crônicas em diversos veículos. Mas não se enganem, isso não faz do ato de escrever e publicar ficção mais fácil. Quando perguntei a Fabiane como foi o processo de análise do próprio texto literário, sendo ela uma crítica, a autora me disse que foi “muito difícil”. Como também contou na entrevista, escrever ficção já é parte de sua vida, mas só agora decidiu colocar um romance nas prateleiras da livraria.
O leitor, portanto, encontra em “Ilhas Suspensas” uma autora que estreia já madura. Logo nos primeiros capítulos é possível reconhecer que se trata de uma autoria que tem plena consciência do que está fazendo e dos recursos que decidiu utilizar. O livro tem uma prosa elegante e sensível, que vai desde um flerte com o ensaio crítico (e até mesmo a crítica literária) até o desenvolvimento impecável de personagem. O tom introspectivo da narrativa nos deixa com a sensação de que estamos diante de uma obra que convida o leitor às suas próprias conclusões. E assim tem sido. Conversei com alguns amigos que leram o livro e nós apontamos discordâncias entre leituras que saíram na mídia, algumas delas eu até mencionei nas perguntas. A qualidade do livro aparece sempre como uma constante nas leituras.
No romance, lemos a história de Mariana, uma mulher brasileira que migra para outro país e que está escrevendo uma tese de doutoramento sobre a presença de animais na literatura. Não há um enredo bem definido: nos capítulos, acompanhamos reflexões de Mariana sobre diversos assuntos, mas dois se destacam: o próprio ato de migrar, e todas as suas implicações, e a maternidade, que aparece tanto no espelhamento da mãe morta quanto na incapacidade de Mariana em engravidar. Os acontecimentos externos, como o momento em que Mariana conhece outras mulheres imigrantes, parecem sempre culminar no texto reflexivo. Esse caráter ensaístico, tão caro à literatura escrita por mulheres na contemporaneidade, também é muito preciso no livro, de modo que a impressão que tive ao final da leitura é que “Ilhas Suspensas” é mais denso do que aparenta e pede leitura atenta.
Na breve entrevista que você lê agora, Fabiane conta um pouco do processo de escrita, da dificuldade da auto-edição e sobre migração (afinal, ela mesma também é uma mulher que migrou). Confira!

“A questão da imigração, seja em que condições, é incontornável nos dias de hoje”, diz Fabiane Secches
Ewerton: Gostaria de começar elogiando o romance. É lindo. É um livro que propõe um mergulho na subjetividade de uma mulher. Fiquei curioso quanto à escolha da narração em terceira pessoa. Como se deu essa escolha?
Fabiane: Obrigada! Embora o livro seja em terceira pessoa, há indícios no romance de que ele pode ter sido escrito e narrado por Mariana. Fica a critério dos leitores como interpretar isso. Quis deixar em aberto.
Ewerton: Alguns temas parecem se destacar na narrativa, em especial dois: a personagem está frustrada quanto à impossibilidade da gravidez (que ela não sabe exatamente se queria ou não) e a imigração para outro país e lidar com outra língua. Os temas, inicialmente, parecem desconexos até que a gente lê o livro. Poderia falar sobre como essas duas temáticas se encontram?
Fabiane: Acho que a questão da maternidade aparece de diversas formas no romance, sem uma conclusão unívoca. É um tema complexo que a meu ver deve ser tratado de forma complexa. No livro, além da relação da Mariana e de outras mulheres com a maternidade, de formas diferentes. Há o luto da protagonista pela perda da mãe. E, quando ela imigra, um dos temas centrais é a relação dela com o idioma materno, algo que me interessa muito sondar.
Ewerton: A imigração é tema do seu livro e você também hoje vive fora do Brasil. Foi impossível não associar o tema às recentes tensões sobre as políticas anti-imigração nos Estados Unidos e no mundo. Como você tem assistido essa movimentação?
Fabiane: Quando comecei a escrever o livro, eu ainda morava no Brasil e a mudança de país não estava no horizonte próximo. Mas uma das personagens centrais, a Florence, já era imigrante e Mariana, pode-se dizer assim, se sentia um pouco estrangeira em sua própria vida. Acho que a questão da imigração, seja em que condições, é incontornável nos dias de hoje, principalmente no caso dos refugiados.
Ewerton: De alguma forma, esses atritos atuais contemporâneos em torno da imigração estavam em sua mente quando você começou a escrever o livro?
Fabiane: Sim. Estávamos vivendo um momento politicamente muito tenso no Brasil em especial e no mundo de forma geral — o que infelizmente permanece com as guerras, com a crise climática, com a xenofobia. Então esses temas já me ocupavam antes de escrever o livro.
“A teoria psicanalítica não pode substituir a criação literária”, diz Fabiane Secches, autora de “Ilhas Suspensas”
Ewerton: O público leitor brasileiro te conhece bastante do trabalho de crítica. Como crítico e escritor, sou pessoalmente fascinado pelo processo de autocrítica e auto-edição de um crítico sobre o próprio texto literário. Como foi para você analisar o próprio texto?
Fabiane: Muito difícil. Eu escrevo ficção desde a adolescência, mas só dessa vez senti que era hora de publicar. A leitura da minha editora e de alguns poucos leitores e/ou escritores experientes me ajudou a sentir que era hora de, com muito frio na barriga, colocar esse livro no mundo.
Ewerton: Li em alguns dos textos que já saíram sobre o seu livro que algumas leituras tendem para interpretar a personagem, Mariana, como uma pessoa com depressão (não que seja algo que eu não pensei, risos), principalmente com relação às medicações psiquiátricas. Eu fiquei particularmente interessado em como sentimentos naturais como tristeza e solidão têm sido tratados como patologias. O que você tem a dizer sobre essa interpretação sobre depressão?
Fabiane: Hoje vivemos um excesso de diagnósticos e de medicalização, como vemos no livro, mas há casos e casos e cada um deve ser avaliado com cuidado por especialistas. Em determinadas situações, a medicação correta de fato pode ajudar.
Ewerton: Por outro lado, há, de fato, uma melancolia muito atribuída à imigração, algo que também aparece no romance magistral de Bruna Dantas Lobato. Para você, migrar é essencialmente triste?
Fabiane: Não. A imigração quando acontece por escolha, ou algum tipo de escolha, também pode trazer alegrias e descobertas, mas também há perdas. Para mim, é um processo ambíguo.
Ewerton: Algo interessante na personagem Mariana é que a impossibilidade da gravidez parece deixá-la, num primeiro momento, ainda mais inquieta em torno da maternidade. Algo semelhante é retratado em “Parapeito”, romance de Rita de Podestá. Numa conversa, em um lançamento do livro, Rita falou sobre como a pressão sobre ter filhos ainda é uma questão para as mulheres mesmo após tantas ondas do feminismo. Como você encara isso?
Fabiane: Concordo. Simone de Beauvoir também falou sobre isso. As escolhas pessoais não são dissociadas das sociais.
Ewerton: Dentro da sua pesquisa em literatura, há muito de psicanálise, o que também reverbera em seu livro. No entanto, não notei (como costumo notar em autores com aproximação da psicanálise) uma tentativa de estabelecer diagnósticos sobre os personagens ou fazer com que suas ações “explicassem” teorias psicanalíticas. Quando a psicanálise ajuda na escrita literária e quando ela não ajuda?
Fabiane: Acho que a psicanálise é uma lente muito rica para enxergar a complexidade humana, assim como a boa literatura. Mas a teoria psicanalítica não pode substituir a criação literária. São campos diferentes. E se há uma dívida é da psicanálise com a literatura, que a antecede e foi fundamental para que Freud a formulasse, e não o contrário
Ewerton: Em linhas gerais: como foi a experiência de escrever um primeiro romance?
Fabiane: Eu escrevi o meu primeiro romance com 15 anos. Depois vieram outros, todos de gaveta. Escrever sempre foi minha forma de existir e de me relacionar com o mundo. Para mim, a experiência de fabulação sempre foi parte da vida. E quando escrevo, é tudo muito imagético também. Não é uma relação apenas com as palavras, embora elas sejam a matéria prima. Para mim, a experiência de escrever é a experiência de observar, imaginar e criar mundos.

Ilhas Suspensas, de Fabiane Secches
Companhia das Letras, 2026
160 pp.

