
A porca escreve: autoficção radical e o direito de existir monstruosa
Escrever, para certos corpos, nunca foi apenas um gesto estético. É sempre também um gesto político, ainda que o desejo inicial seja simplesmente contar uma história, organizar uma memória ou registrar um fragmento de vida.
Por Jéssica Balbino.
Arte: Samantha Sponer (na série ‘The Body Ody Project) – Reprodução.
Aqui, o horror é linguagem. Experiência de vida. Palavra que escorre. Gesto incontornável, inerente à existência. Há corpos que nascem autorizados a narrar o mundo, e há outros que passam grande parte da vida tentando justificar a própria existência, como se respirar, ocupar espaço ou falar em primeira pessoa fosse, para eles, um gesto que exige permanente explicação. Corpos magros costumam ser tratados como indivíduos, enquanto corpos gordos são frequentemente transformados em argumento, em advertência moral ou em estatística médica. Corpos magros aparecem como sujeitos; corpos gordos aparecem como problema. Talvez seja por isso que, quando uma mulher gorda escreve, o texto raramente seja recebido apenas como literatura. Ele vira confissão, denúncia, escândalo, prontuário social, como se cada frase precisasse explicar não apenas uma experiência, mas a própria legitimidade daquele corpo que ousa ocupar a página.
Escrever, para certos corpos, nunca foi apenas um gesto estético. É sempre também um gesto político, ainda que o desejo inicial seja simplesmente contar uma história, organizar uma memória ou registrar um fragmento de vida. E é nesse ponto que a autoficção radical se torna uma ferramenta literária e existencial de enorme potência, não porque seja um gênero particularmente novo, mas porque ela permite que corpos historicamente desumanizados voltem a existir no território mais perigoso que há: a linguagem.
Radical, aqui, não significa exagerado ou escandaloso. Radical vem de raiz. Escrever radicalmente significa ir até a raiz daquilo que nos ensinaram a acreditar sobre nossos corpos e arrancar.
A escrita deixa então de ser apenas um exercício de estilo e passa a funcionar como instrumento de corte. Annie Ernaux descreveu certa vez a escrita como uma faca, uma lâmina necessária para atravessar o silêncio e rasgar as narrativas que nos foram impostas. A autoficção radical carrega exatamente essa violência: ela corta a narrativa confortável que a sociedade construiu sobre determinados corpos, especialmente aqueles que foram sistematicamente animalizados, monstruosidades ou ridicularizados.
Aqui, sinto-me num açougue de facas afiadas. Meu corpo é um bicho. Um pedaço de carne. A desumanização comprada fragmentada, com nomes bonitos e suculentos, mas, por vezes, de difícil preparo ou maturação, porém, sempre com direito à gordura, que nunca será extraída.
Mulheres gordas, corpos racializados, corpos dissidentes, corpos pobres conhecem muito bem esse processo. Primeiro dizem que você é exagerada. Depois dizem que você é grotesca. Dizem que é uma aberração. Em algum momento alguém sugere que você é menos humana do que deveria ser. Quando esse processo se completa, já não é necessário dizer mais nada: o silêncio faz o resto. Você aprende a falar mais baixo, a ocupar menos espaço, a desaparecer.
Romper esse silêncio exige radicalidade – não a radicalidade performática que cabe em seminários universitários ou discursos progressistas bem comportados, mas aquela radicalidade existencial que começa quando alguém decide dizer aquilo que não deveria ser dito, falar do corpo quando todos prefeririam que ele fosse invisível, escrever sobre desejo quando esperavam apenas sofrimento.
Talvez seja por isso que tantas das grandes escritas contemporâneas sobre o corpo misturem autobiografia, ensaio e literatura. Roxane Gay inicia Fome: uma autobiografia do (meu) corpo afirmando que todo corpo tem uma história e que contar a história de um corpo gordo significa também contar tudo aquilo que esse corpo suportou.
Essa frase parece simples, mas desmonta uma lógica cultural inteira. Porque o corpo gordo, em nossa sociedade, raramente tem direito à narrativa própria. Ele aparece como diagnóstico, estatística, advertência moral. Quando uma mulher gorda conta a história do próprio corpo, ela interrompe esse processo e devolve humanidade ao que foi tratado como erro.
Em Fome, Roxane Gay descreve a gordura como uma espécie de arquitetura emocional construída após a violência, uma forma de criar distância do mundo e tornar o corpo menos acessível à ameaça. A gordura aparece ali como escudo, abrigo e sobrevivência.
“A linguagem da desumanização nunca é inocente.”
Virgie Tovar, por sua vez, analisa esse mesmo fenômeno a partir de outro ponto de ruptura. Em Meu corpo, minhas medidas, ela mostra como a gordofobia opera como tecnologia cultural de disciplina, ensinando mulheres desde muito cedo que seus corpos são projetos defeituosos que precisam ser constantemente corrigidos.
Já Paul Preciado lembra que o corpo nunca é apenas biologia: ele é sempre também um campo político, um território onde operam normas, dispositivos e tecnologias de poder. O corpo, nesse sentido, é um arquivo de violência.
No caso das mulheres gordas, essa violência assume frequentemente a forma da bestialização. Não é por acaso que os insultos mais comuns dirigidos a corpos gordos pertencem ao reino animal: vaca, porca, baleia. A linguagem da desumanização nunca é inocente. Ela prepara o terreno para a violência.
A literatura latino-americana contemporânea compreende profundamente esse mecanismo. Em Rinha de galos, a escritora equatoriana María Fernanda Ampuero constrói narrativas em que corpos femininos são constantemente reduzidos a carne, mercadoria ou presa, dentro de universos domésticos que funcionam como arenas de brutalidade cotidiana.
Em um dos contos mais perturbadores do livro, uma mulher sequestrada é exibida diante de homens que a avaliam como mercadoria em um leilão clandestino. Quando percebe que será vendida, ela faz algo inesperado: cobre-se de urina, sangue e excremento, transformando-se deliberadamente em algo repulsivo, algo que escapa à lógica do desejo masculino.
Para mim, essa imagem, transformada em linguagem, é das mais interessantes que existem. A radicalidade levada ao extremo, eleva a máxima potência da dor humana: ter sua humanidade removida por outra pessoa.
O resultado é revelador. Ninguém quer comprá-la. Ela deixa de ser objeto. Mas paga o preço de ser chamada de monstro.
E aqui, faço um adendo. Ser abjeto, por vezes, é a saída para deixar de ser objeto. Abraçar a própria monstruosidade e emergir dela é o que tento fazer em Porca Gorda. Até aqui, tem dado certo.
Essa cena revela algo fundamental sobre a política do corpo: aquilo que escapa à lógica do desejo dominante é rapidamente convertido em monstruosidade.O monstro é sempre aquele corpo que não cumpre a função que lhe foi atribuída.
A literatura brasileira recente também dialoga com essa mesma imagem. Em Porco de Raça, de Bruno Ribeiro, o corpo animal aparece como metáfora brutal das hierarquias humanas, lembrando constantemente que a desumanização não é apenas uma figura de linguagem, mas uma estrutura concreta de poder. O porco, animal historicamente associado à sujeira e à degradação, torna-se ali um espelho incômodo da forma como a sociedade classifica certos corpos como inferiores, descartáveis ou abjetos.
A fronteira entre humano e animal, nesses casos, não é natural. É política. Foi nesse terreno que nasceu Porca Gorda, minha autoficção radical. O livro não tenta salvar o leitor, não tenta oferecer conforto moral nem construir redenção narrativa. Ele tenta existir.
Logo no início, a narradora se apresenta sem pedir licença:
“Meu nome é (por enquanto) irrelevante, mas você pode me chamar de Porca Gorda. Aquela que respira, anda, escreve, vive e trepa com mais carne do que cabe nos padrões.”
O insulto torna-se identidade. A palavra porca, historicamente usada para degradar mulheres consideradas excessivas, passa a funcionar como gesto literário. Dizem por aí que é de fazer Edouard Louis chorar. Será?
Porque a porca não pede desculpas.
A porca escorre. Range. Respira alto. E escreve.
Há algo profundamente subversivo em recuperar a linguagem da desumanização e devolvê-la como autoria. Durante muito tempo, corpos gordos foram narrados pelos outros: pelo médico, pelo humorista, pelo amante que pede para apagar a luz, pela amiga magra que diz “ai, estou me sentindo tão gorda hoje”.
Quando esse corpo começa a falar, algo na estrutura simbólica se rompe. Na história da literatura, personagens monstruosos quase nunca narram a si mesmos. Frankenstein não escreve. O lobisomem não escreve. O vampiro raramente escreve. Eles são descritos, analisados, perseguidos. O monstro é sempre objeto da narrativa.
Quando uma mulher gorda escreve sobre si mesma, algo estranho acontece: o monstro começa a falar. E quando o monstro fala, a narrativa dominante entra em colapso.
Em Porca Gorda, a narradora (eu mesma, no caso) afirma em determinado momento:
“Meu corpo é o livro. E eu sou a autora de cada dobra.” Essa frase condensa o gesto radical da autoficção. Transformar o corpo – historicamente tratado como erro – em texto e autoria.
Talvez seja por isso que gosto de pensar na escrita como um corpo que rebola, um corpo que se move na página, que sua, que treme, que não cabe na postura correta da literatura respeitável.
Escrever assim é perigoso. Porque desafia uma tradição literária que sempre preferiu corpos disciplinados. Mas talvez seja justamente isso que a literatura precise agora. Menos neutralidade. Mais carne. Menos elegância. Mais verdade. Porque, no fundo, a autoficção radical não é apenas uma forma literária. É uma recusa. Uma recusa a aceitar que certos corpos existam apenas como metáfora, estatística ou piada. Uma recusa a aceitar que o monstro permaneça em silêncio.
Escrever, para certos corpos, nunca foi apenas um gesto artístico. Escrever é sobreviver. Escrever é rasgar a narrativa que nos desumaniza. Escrever é entrar na sala com o corpo inteiro – pesado, imperfeito, vivo – e dizer: eu também sou gente.
E se o preço de existir for ser chamada de monstro, então que seja. Porque talvez os monstros saibam algo que o mundo ainda não aprendeu: quando a linguagem falha em nos reconhecer como humanos, escrever torna-se a forma mais radical de continuar existindo.

Porca Gorda, de Jéssica Balbino
Barraco Editorial, 2025
104 pp.
Jéssica Balbino é jornalista, escritora e curadora literária, com mais de 20 anos de atuação entre o jornalismo cultural, a literatura e a educação. Mestre em Comunicação pela Unicamp, pesquisa e escreve sobre literatura, corpo, dissidências, gordofobia e periferia, articulando pensamento crítico e experiência vivida. Teve o livro “Porca Gorda” selecionado como um dos melhores do ano de 2025 por revistas especializadas como O Odisseu e Lado B Literário. É autora de Gasolina e Fósforo (selo doburro) e Traficando Conhecimento (Aeroplano). Co-criadora do curso Insurgências Gordas. Curadora da Flipei. Atua como colunista no Estado de Minas e TPM, professora e mediadora, desenvolvendo oficinas, cursos e encontros literários em instituições culturais, escolas e festivais no Brasil.Apresenta o podcast Rabiscos e integra júris de importantes prêmios culturais. Defende a literatura como prática viva, política e coletiva, um espaço de escuta, confronto e transformação.


