Coluna Escrevernar

8M

Ser mulher, como ser Amazônia, é existir sob a permanente possibilidade de violação.

Arte: ‘Coração Saudade’, de Yacunã Tuxá.


Escrevo de um lugar onde a floresta respira por todos os lados. Mesmo quando não a vemos, ela está, seja no ar úmido, na chuva que chega sem pedir licença, nos rios que insistem em lembrar que tudo corre, tudo muda, como também pode transbordar.

Talvez por ter crescido cercada de uma paisagem poética, portanto, inspiradora, eu escreva desde criança. Antes das palavras, desenhava. Desenhava como quem abre clareiras no papel para deixar escapar o que doía. Era a minha maneira de sobreviver às tempestades internas, de drenar o excesso que tanto me incomodava, como os igarapés fazem quando o rio sobe.

Na adolescência, vieram os diários. Alguns ainda guardo. Ao relê-los tempos atrás, encontrei ali registros de pequenas violências que sofri por ser mulher; violências que, na época, eu não sabia nomear. Eram como rachaduras minúsculas no tronco de uma árvore jovem: quase invisíveis, mas já anunciando o perigo.

Relendo, compreendi melhor a angústia que me acompanha desde cedo. Uma sensação de alerta constante, como se algo pudesse acontecer a qualquer momento. Um sentimento que não é só meu. É compartilhado por mulheres de todas as regiões, sem dúvida, mas aqui, na Amazônia, ele parece ecoar de forma ainda mais funda, talvez porque brote de dentro da floresta para então se reproduzir em nossos corpos.

Nós, mulheres amazônidas, crescemos ouvindo histórias de exploração desde os tempos mais longínquos: da borracha, da castanha, das peles de pirarucu, da madeira, dos corpos, sobretudo indígenas. A lógica é sempre a mesma, ou seja, extrair até o limite, até o esgotamento.

Eliane Brum escreve, em Banzeiro Òkòtó, que a Amazônia é mulher. Não como metáfora bonita, mas como diagnóstico brutal. A floresta é chamada de “virgem” da mesma forma que os corpos femininos foram historicamente nomeados: algo a ser conquistado, dominado, penetrado, civilizado. A palavra carrega o desejo de posse. E a posse sempre vem acompanhada de violência, sabemos.

Brum diz também que demorou a entender que viver com um corpo permanentemente em risco não é um episódio isolado na vida de uma mulher, mas uma condição estrutural. Aqui, isso é quase literal. A floresta também vive sob ameaça contínua: de queimadas, de invasões, de projetos que a tratam como obstáculo ao progresso.

Ser mulher, como ser Amazônia, é existir sob a permanente possibilidade de violação.

Os noticiários confirmam todos os dias. Mulheres assassinadas por homens que diziam amá-las. Mortas por não aceitarem continuar pertencendo. Mortas por tentar sair. Mortas, muitas vezes, junto com os filhos, como se fosse preciso eliminar todo o território afetivo ao redor.

A psicóloga e escritora guarani Geni Núñez observa que a maioria dos feminicídios é cometida por parceiros ou ex-parceiros. Não são desconhecidos. São homens que se consideravam donos daquele corpo, daquela vida, daquele destino. O feminicídio, então, não é apenas machismo — é uma guerra de posse. É questão de território. Na Amazônia, há muito, sabemos bem o que acontece quando alguém decide que um território lhe pertence.

“Quero que meninas possam crescer sem aprender cedo demais que seus corpos são vulneráveis.”

– Myriam Scotti

A filósofa Silvia Federici lembra que o sistema econômico construiu as mulheres como corpos a serem apropriados das mais diversas maneiras: para gerar filhos, cuidar, sustentar a força de trabalho. Nunca fomos inteiramente donas de nós mesmas. Assim como a floresta nunca foi tratada como sujeito, mas como recurso.

Lembro também das palavras da ministra Cármen Lúcia sobre Marielle Franco: mulheres, especialmente mulheres negras, são frequentemente tratadas como se fossem menos que humanas. Quase. Como se suas vidas fossem descartáveis, obstáculos removíveis.

Aqui, povos inteiros também foram/são tratados assim, como o genocídio dos Waimiri-Atroari, durante a ditadura militar.

Quem também contribui para ampliar esse horizonte é a pensadora bell hooks, ao afirmar que a violência masculina contra a mulher não é apenas fruto do machismo individual, mas de uma estrutura hierárquica que organiza toda a sociedade. Um sistema baseado na autoridade coercitiva, na ideia de que alguns devem dominar e outros obedecer. Nesse modelo, a violência torna-se ferramenta legítima de controle: dentro de casa, no trabalho, na política, na guerra.

A violência doméstica, diz hooks, é uma das expressões mais visíveis dessa lógica. Ela mantém a dominação masculina no espaço privado e, ao mesmo tempo, preserva outras hierarquias fora dele. Enquanto a força é descarregada sobre mulheres e crianças, as estruturas maiores permanecem intactas.

É a mesma lógica que permite devastar a floresta em nome do desenvolvimento.

Por isso, combater a violência contra as mulheres não pode ser separado da luta contra outras formas de violência. Contra o racismo, contra a destruição ambiental, contra a exploração econômica, contra as guerras. Tudo faz parte do mesmo sistema que acredita que dominar é natural e que existir é possuir.

Penso que se a violência é estrutural, a resistência também precisa ser. Talvez por isso eu escreva. Porque escrever é como abrir um igarapé no meio da mata fechada; uma passagem estreita, mas vital. Um lugar onde a água pode correr sem pedir autorização. Um território onde meu corpo não pode ser invadido.

Hoje entendo que aqueles desenhos da infância, aqueles diários adolescentes, já eram atos de sobrevivência. Pequenas insurreições íntimas contra um mundo que queria me ensinar medo antes de me ensinar liberdade.

No Dia Internacional da Mulher meu desejo é que parem de nos tratar como território disponível. Quero que meninas possam crescer sem aprender cedo demais que seus corpos são vulneráveis. Quero que amar não seja uma sentença de risco. Quero que possamos existir como a floresta em seu estado mais pleno: não como algo a ser conquistado, mas como algo a ser respeitado.

Porque nem a Amazônia nem as mulheres são vazias esperando ocupação. Somos vida, complexidade, e, sobretudo, continuidade. E nenhuma vida deveria existir sob ameaça permanente de destruição.