Entrevistas

“A Macabéa já não se apoia em um identitarismo superficial, típico de certo feminismo liberal”, diz a editora e poeta Bianca Monteiro Garcia

Pela segunda vez, Bianca Monteiro Garcia é entrevistada para a revista O Odisseu, desta vez com o foco na produção editorial da Macabéa, editora com foco em publicação de mulheres.

Fotos: Fabio H. Mendes (@retratos_literarios).


Às vésperas de completar uma década no mercado – contagem minha, a partir da iniciativa como selo em 2017 –  a Macabéa Edições está passando por uma reestruturação, conforme anunciou Bianca Monteiro Garcia, presente desde o início: “Estou com a ideia de transformá-la em uma editora-coletivo, sem hierarquização. Convidei 20 mulheres cujo trabalho eu já admirava bastante; algumas são amigas íntimas, mas todas já atuantes no mercado editorial.”. A ideia, segundo ela,  é “abrir a Macabéa para outras frentes além da publicação: mais traduções, eventos, oficinas, entrevistas e divulgação mais sistemática do catálogo no blog e, claro, mais lançamentos por ano”.

Além de editora, Bianca também é autora de Breve Ato de Descascar Laranjas, sobre o qual já tivemos oportunidade de discutir em outro papo que você pode conferir na edição de dezembro de 2024, disponível no site da O Odisseu. Hoje ela conversa comigo sobre mercado editorial, escrita e os novos rumos da Macabéa Edições, a qual agora também faço  parte.

“A história da literatura mostra que tradutores e editores homens, muitas vezes, intervieram de modo excessivo em textos escritos por mulheres”, diz Bianca Monteiro Garcia, editora na Macabéa

Lili: Primeiro, obrigada por aceitar o convite, Bianca – outra vez! Nossos leitores já estão devidamente apresentados a você (ou deveriam estar), mas gostaria que falasse um pouco sobre você e também sobre a Macabéa, para começarmos.

Bianca: Eu é que agradeço pelo entusiasmo, querida Lili — e, claro, agradeço também à equipe d’O Odisseu pelo espaço. Estou feliz por estar de volta, ainda mais na comemoração dos cinco anos da revista! Bom, sou Bianca Monteiro Garcia, poeta e editora da Macabéa Edições. Recentemente, entrei para a Gerência de Livro e Leitura da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, o que tem sido uma maravilha. Afinal, trabalho indiretamente com curadoria e eventos literários há um tempo considerável e, agora, finalmente vou ser remunerada por isso (risos). A Macabéa é uma editora independente formada apenas por mulheres: mulheres que publicam mulheres. Nosso catálogo é composto, em sua maioria, por títulos de poesia e teoria.

Lili: Inicialmente, a Macabéa era um selo de um grupo editorial independente. Em que momento – e por quais motivos – vocês optaram por deixar de ser um selo para se tornar uma editora independente?

Bianca Monteiro Garcia, editora na Macabéa. Foto: Fabio H. Mendes (@retratos_literarios).

Bianca: A Macabéa Edições nasce muito cedo na minha trajetória. Eu tinha 23 anos, ainda não era formada em Letras (me formei em 2018, um ano depois de colocar a Macabéa na praça), e tudo começou como um selo editorial, criado ao lado de uma colega de trabalho, Thayssa Martins, em uma editora independente, na Lapa. Uma coisa me chamou bastante atenção quando eu editava tanto homens quanto mulheres: as mulheres eram muito mais duras consigo mesmas. Muitas tinham dificuldade até de se dizer escritoras. Havia uma autocrítica profunda, desproporcional à qualidade dos textos de muitas delas.

Entre os homens, eu via quase o oposto. Uma confiança inflada, às vezes arrogante, mesmo quando os textos eram frágeis ou com qualidade questionável. Isso me atravessou de um jeito muito direto. Quando fui convidada a criar um selo editorial, não pensei duas vezes. Decidi que não seria um selo voltado a um gênero literário, mas um selo com recorte de gênero e dedicado à literatura feita por mulheres. É, claro, uma escolha ideológica (afinal, a Macabéa sempre foi e sempre será uma editora feminista), mas também uma escolha de foco, de cuidado, porque eu tinha que dividir meu tempo entre o trabalho como editora, o estágio não remunerado e obrigatório, e as leituras que a graduação exigia.

Tínhamos liberdade para escolher o que editaríamos ou não dentro do selo, tínhamos o prefixo editorial próprio, mas, ainda assim, tínhamos divergências significativas com os diretores da empresa (que, vale frisar, são homens), o que acabava “atravancando” um pouco nossos projetos dentro do selo. Em 2018, decidimos fazer uma pausa e, no segundo semestre de 2019, voltamos como editora independente. Nesse momento de virada, além de mim e da Thayssa havia a Viviane Marques (que, agora, voltou para a equipe e cuidará dos projetos acadêmicos do catálogo). 

Com o tempo, fomos amadurecendo nossa visão de catálogo. A Macabéa já não se apoia em um identitarismo superficial, típico do feminismo liberal, nem na ideia gasta de empoderamento como slogan. É verdade que, no início, fazíamos algumas provocações que podiam levar a essa leitura.

Se algum homem contribuísse para um projeto do catálogo, seu prenome aparecia abreviado. Era uma brincadeira com o anonimato histórico das mulheres na literatura, algo que a própria Virginia Woolf aponta. Também dizíamos que os livros precisavam ter protagonismo feminino absoluto, centrado completamente em mulheres, e que levantassem questões de gênero, direta ou indiretamente.

Passei a ver isso como algo reducionista. Se eu mantivesse esse critério, não poderia sequer publicar o segundo livro que estou escrevendo. Ainda bem que, mesmo tendo adotado esse olhar mais restrito no início do projeto, não chegamos a publicar livros panfletários. A verdade é que não precisamos limitar a produção literária de nenhuma minoria às suas mazelas. Não faz sentido esperar que mulheres escrevam apenas sobre opressão de gênero, nem que pessoas negras escrevam apenas sobre negritude, e assim por diante. 

Isso empobrece e compartimentaliza a literatura, reduzindo sua complexidade e funcionando como uma forma sutil de exclusão, algo semelhante ao que ocorre com as “ilhas” de “literatura negra” ou “literatura feminina” nas livrarias, apartadas daquilo que se apresenta simplesmente como “literatura”. Como lembra Chimamanda Ngozi Adichie em The Danger of a Single Story, o perigo de uma história única está justamente em reduzir pessoas e experiências a uma narrativa exclusiva, que empobrece a complexidade do real.

Sei que a intenção é dar foco, mas muitas vezes produz um efeito rebote: na tentativa de reparar apagamentos históricos, acaba-se criando novos cercamentos simbólicos que restringem justamente aquilo que se queria ampliar.

Inclusive, tenho pensado em publicar obras de mulheres traduzidas por homens. Têm chegado ao nosso e-mail propostas interessantíssimas de tradução de poetas latino-americanas ainda pouco conhecidas no Brasil. Faz sentido deixar de publicá-las apenas porque foi um homem quem as traduziu? Se são autoras que escrevem muito bem e se o trabalho de tradução foi feito com rigor e sensibilidade, por que vetar? 

É claro que esse debate não é ingênuo. A história da literatura mostra que tradutores e editores homens, muitas vezes, intervieram de modo excessivo em textos escritos por mulheres, chegando a imprimir suas próprias dicções na obra alheia. Estava falando sobre isso justamente com o João Pedro Moura, quem está traduzindo meu livro para o espanhol, e comentamos sobre o caso de Emily Dickinson: como mostram estudos críticos sobre a recepção e a edição de sua obra, seus primeiros editores normalizaram pontuação, suavizaram cortes sintáticos e ajustaram ritmos, tentando enquadrar sua escrita em padrões poéticos que não eram os dela. Era um gesto de domesticação formal e estética que acontecia dentro da tradução/edição de suas obras. 

Justamente por termos consciência desse histórico, o critério da Macabéa partiria do cuidado crítico em vez do veto automático. Se um tradutor se dispôs a traduzir uma autora, e fez isso com qualidade, respeitando a estranheza, o ritmo e as escolhas formais do texto original, o trabalho merece ser avaliado. Em casos assim, pensamos em submeter a tradução à leitura crítica de uma falante da língua e com experiência na área, sempre que possível, para evitar que se repitam práticas de apagamento ou apropriação estilística.

Acredito que o modo que se traduz importa muito mais do que o gênero de quem está traduzindo. O compromisso da Macabéa segue sendo o mesmo: ampliar repertórios, abrir circulação para autoras diversas e garantir que essas obras cheguem ao leitor sem serem filtradas por expectativas normativas que historicamente tentaram silenciá-las ou moldá-las.

Bianca Monteiro Garcia, editora na Macabéa. Foto: Fabio H. Mendes (@retratos_literarios).

“Sou muito movida pela literatura, pelos livros, pela produção cultural, pela poesia”

Lili: Apesar de todas as questões que precisam ser debatidas e melhoradas com relação ao Jabuti, ele é o principal prêmio literário do país. Você foi vencedora pelo seu livro de estreia, breve ato de descascar laranjas, em 2024, na categoria Escritor Estreante – Poesia. Quais impactos isso trouxe para você em termos práticos — porque eles também são importantes — e simbólicos, e para a Macabéa Edições?

Bianca: É bom você perguntar isso, Lili, porque lembro que me fizeram essa pergunta em uma das primeiras mesas de que participei depois de ter sido premiada, e eu respondi que, na prática, não tinha mudado muita coisa. Isso foi em abril de 2025, ou seja, cinco meses depois da cerimônia de premiação. Bom, acho que fui um pouco leviana porque. Um mês após o prêmio, ganhei um aumento significativo no meu antigo emprego. Eu completava um ano como servidora pública do estado e, apesar de saber que, sim, o aumento teve relação direta com meu desempenho profissional, sei que também tem a ver com o prêmio. Afinal, meu ofício era o de editora-chefe de uma revista científica, e o Jabuti traz uma chancela não só para a pessoa escritora, mas para a pessoa editora e para a empresa editora. E quando digo “pessoa editora”, acabo me confundindo também entre pessoa física e pessoa jurídica: breve ato de descascar laranjas é de minha autoria e foi publicado pela Macabéa Edições, em parceria com a editora 7letras. Priscila Branco foi quem editou o livro e quem subiu naquele palco comigo, ambas de mãos dadas e boquiabertas (não somos blasé). A Macabéa é a editora independente que eu estou à frente. Aqui, CPF e CNPJ quase se fundem, por assim dizer. Tanto é que não preparei o card de divulgação do livro como vencedor do prêmio dias antes da cerimônia (porque achei que daria azar, rs) e tive que fazer isso assim que cheguei ao apartamento onde ficamos hospedadas, ainda inebriada, tremendo, com o jabutizinho ao meu lado.

Lembro que, na segunda-feira seguinte ao prêmio, quando cheguei ao corredor do salão do meu antigo emprego, os colegas servidores me aplaudiram. Fiquei vermelha de vergonha, rs, e parece que estou contando vantagem aqui, mas foi bonito, e sou muito grata pelo carinho. Eu tinha pouco tempo de casa (um ano, exatamente). Dias depois, meu chefe organizou uma espécie de lançamento na repartição, no horário do almoço,  e eu fiquei bastante emocionada. Diversos colegas compraram o livro, se interessaram, conversaram comigo e compraram também para dar de presente de Natal para familiares. 

Em dezembro, recebi um e-mail do editor-chefe da revista Forbes, perguntando a minha data de nascimento. A pri me disse: “acho que é pra Forbes Under 30!!”, mas, naquele momento, era só uma especulação. Semanas depois, a jornalista Kátia Lessa me mandou uma mensagem no Instagram, que eu não vi instantaneamente porque caiu na caixa geral. Como nova tentativa de contato, ela respondeu um story meu em que eu pedia indicações de lugares que aceitassem encomendas de bolinhos de bacalhau para o Natal (risos). Ainda bem que ela fez isso! Eu provavelmente não teria visto as mensagens e, imagino, não teria tido outra oportunidade de sair na mesma página que a Gloria Groove e a Bruna Kalil Othero numa revista.

Em junho do ano passado, ou seja, sete meses após a premiação, fui convidada pela Câmara Brasileira do Livro para participar de uma conversa com Rosiska Darcy na Bienal do Livro, aqui no Rio. Era um estande da CBL com a Secretaria Municipal de Cultura, e o mediador da conversa foi o Lucas Padilha, atual secretário. Depois da conversa, ele comprou meu livro, fiz uma dedicatória e conversamos um pouco sobre livros, edição, poesia. Essa conversa mudou o meu rumo profissional: fui convidada por ele a integrar a Gerência de Livro e Leitura da SMC. 

Eu estava muito feliz com o ambiente do meu emprego anterior, tinha feito amizades bonitas e, no geral, o clima era bem agradável. Ainda assim, apesar de atuar como editora, sentia que não estava exatamente onde queria estar. Sou muito movida pela literatura, pelos livros, pela produção cultural, pela poesia. Aceitei o convite com muito entusiasmo e já cheia de ideias para pensar a cultura do Rio de Janeiro dentro do setor público. 

Apesar de tudo isso que mencionei, tenho críticas relevantes em relação a prêmios literários e revistas que andam de mãos dadas com o capitalismo. O prêmio, por si só, remete à meritocracia e, no contexto em que vivemos, a meritocracia funciona como uma espécie de “ideologia de justificação”, um mecanismo de troca simbólica e material. É difícil definir qual é o “melhor” livro de determinada categoria, porque isso é bem subjetivo. Depende da formação do júri, da análise técnica e, inevitavelmente, de como cada obra atravessa as pessoas da banca. 

Ainda assim, é inegável que a pessoa premiada, finalista ou mesmo semifinalista do “prêmio mais relevante da literatura brasileira” passa a ter uma visibilidade muito maior. Para quem é autopublicado ou publicado por uma editora independente, isso pesa ainda mais, porque temos enorme dificuldade de furar a bolha dos grandes veículos de imprensa. Quando você figura em uma lista de semifinalistas, finalistas, ou quando você recebe o prêmio como o Jabuti, acaba conquistando espaço nesses veículos considerados mais tradicionais e de ampla divulgação, com o Le Monde Diplomatique Brasil, o Jornal Rascunho, a Quatrocincoum…

Por isso, acho que a categoria de escritor estreante é especialmente interessante: ela ajuda a projetar aquelas pessoas que publicaram seu primeiro livro, oferecendo um impulso no mercado editorial. Lembro que o Heyk, amigo-poeta, me escreveu assim que ganhei o Jabuti: “fiquei feliz por você ter levado! Essa categoria é a única do Jabuti que aponta para o futuro”. Na época, não entendi muito bem, mas hoje concordo. Um prêmio desse porte ajuda a consagrar e legitimar uma obra; abre portas — como no caso do meu aumento salarial e, posteriormente, na minha mudança de emprego para a área da cultura — e reconhece a competência de escrita do premiado (no meu caso, premiada). Vale dizer que fui a única finalista mulher da categoria em que concorri; na semifinal, éramos duas: eu e Clara Imperatrice.

Mesmo com a maior circulação de livros por conta das redes sociais, a crítica literária no Brasil ainda é bastante deficitária. Predomina uma ótica conservadora, principalmente nos veículos de maior circulação e prestígio, que costumam se voltar para clássicos reeditados e/ou escritores publicados por grandes editoras. Se olharmos apenas para a grande imprensa, não há um debate crítico realmente amplo e diverso. As revistas independentes, por outro lado, são mais abertas à produção literária de quem ainda não tem ampla divulgação, de quem acabou de lançar o primeiro livro. 

No fim das contas, é a rede de iniciativas independentes que sustenta a circulação e a discussão desses livros. Aliás, O Odisseu é um grande exemplo disso, né? Uma revista séria, bonita, com uma curadoria boa e que não se restringe a falar sobre obras que já são amplamente conhecidas. Na maior parte das vezes, essas iniciativas são formadas por equipes pequenas, muitas vezes voluntárias, pessoas que trabalham com literatura, mas que não conseguem ser devidamente remuneradas. 

Disso posso falar como editora da Macabéa também, porque não sou remunerada por todo o trabalho logístico, executivo e editorial. O que arrecadamos das vendas serve, basicamente, para garantir reimpressões dos livros e pagar as profissionais envolvidas. Sei (sabemos) que essa é a realidade de muitas editoras, jornais, revistas, produtores de conteúdo. O jornal Relevo, por exemplo, tem 15 anos de circulação, com distribuição em diversas regiões do Brasil, sem patrocínio fixo, com uma curadoria excelente. É, de fato, um jornal relevante (desculpa o trocadilho, rs), que se sustenta, cobre custos, mas opera no limite, com margem quase nula. Sei disso porque sou assinante, e em cada edição eles apresentam esses números nas páginas iniciais, a fim de garantir transparência com o público assinante e com as pessoas que colaboram com os jornais, seja escrevendo, editando ou diagramando. Vale ressaltar que é um dos poucos jornais independentes que pagam artistas, o que demonstra um cuidado com quem produz a matéria-prima de um jornal: quem escreve.

Bianca Monteiro Garcia, editora na Macabéa. Foto: Fabio H. Mendes (@retratos_literarios).

Quero finalizar essa resposta indicando iniciativas independentes realmente muito boas. De revista, acho importante ressaltar o trabalho feito pela Milena Martins Moura na revista cassandra; da Thainá Carvalho, na revista Desvario, do portal Fazia Poesia, do Alex Zani; de clubes de leitura como Cidade Solitária, da Thaís Campolina; Casa das poetas, de Carla Guerson, Thaís Campolina, Marcela Alves, Luiza Leite Ferreira e Renata Ettinger; Clube de Leitura Escritoras Brasileiras, de Cintia Brasileiro; Clube Contempô, de Lina Quintella e Gyzelle Góes. Podcasts como o Lume Literatura, de Bruno de Andrade, Rabiscos, de Tadeu Rodrigues; 1Lero de Matheus Peleteiro; Elas na Escrita de Isabella de Andrade; Literatura Br, de Nathan Matos; Ler Poesia, de Marcelo Reis de Mello; Poesia pros ouvidos, de Michaela Schmaedel; Uma pitada de poesia, de Júnia Paixão… eu poderia ficar aqui falando de diversos projetos bacanas para todo o sempre, a lista é enorme e infinita (ainda bem!). Se você escreve, se você tem livros publicados, procure esses e outros projetos independentes para somar com você e com sua escrita, porque não tem como esperarmos a grande imprensa nos notar… era difícil pra Hilda Hilst, pra Henriqueta Lisboa… e continua sendo difícil pra gente até hoje. 

Lili: Há um tempo, mediei uma roda de conversa com o tema “Elas escrevem”, em que conduzi a discussão a partir de Um quarto só seu, de Virginia Woolf. Concluí que, para nós, mulheres, é preciso escrever apesar de um quarto, pois este, na maioria das vezes, não é possível. De toda forma, ainda é preciso um teto, um abrigo para o que se produz. Qual a importância de casas editoriais chefiadas por mulheres, como a Macabéa, nesse sentido?

Bianca: Quando eu digo que, para muitas mulheres, é preciso escrever apesar de um quarto, estou falando de uma experiência muito concreta: escrever apesar de interrupções, trabalho (dentro e fora de casa), cuidado, cansaço. Estou falando de uma escrita fragmentada pela desigualdade de gênero.

A divisão social do trabalho pesa muito nisso. No Brasil, as mulheres dedicam quase o dobro de horas que os homens ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. Isso significa menos tempo para ler com calma, para voltar ao texto, para cortar, reescrever, lapidar. A escrita precisa de demora, e esse tempo nunca foi distribuído de forma igual, sobretudo nas classes populares. A filósofa Silvia Federici nos ajuda a compreender a base estrutural dessa desigualdade ao demonstrar como o trabalho doméstico invisível e não remunerado sustenta a vida social e a produtividade masculina, ao mesmo tempo que drena o tempo e a energia das mulheres. Ao transpor essa análise para o campo literário, torna-se evidente que a desigualdade material afeta diretamente as condições de produção, circulação e permanência da escrita feita por mulheres.

Tenho a convicção de que, quando uma mulher escreve, essa marca de gênero estará ali de alguma forma, mesmo quando não é tema. Lembro, não ironicamente, de A hora da estrela, de Clarice Lispector. O narrador ficcional, Rodrigo S. M., constrói a história de Macabéa a partir de um olhar distante e insuficiente. A partir desse ponto, projeta sobre a personagem uma série de discursos paternalistas, moralizantes, misóginos e classistas. No final da novela, porém, a caneta de Clarice toma conta da narrativa e expõe os limites éticos desse narrador. A mão da autora se sobrepõe à do narrador ficcional no momento em que Macabéa morre, que é, paradoxalmente, seu momento de atenção em vida, seu momento de brilhar. Clarice escreve: “O destino de uma mulher é ser mulher”. Esse “destino” é uma armadilha social, histórica e simbólica.

É por isso que editoras como a Macabéa Edições existem. Para que as mulheres possam tomar as rédeas da própria escrita. Não para escrever apenas sobre a própria condição, mas para escrever sobre bem entenderem, com tempo, com liberdade, com permanência e com um projeto editorial atento e coeso com suas obras.

Mais tarde, as pesquisas de Regina Dalcastagnè, Constância Lima Duarte e Eurídice Figueiredo me deram os dados para compreender, de forma mais ampla, aquilo que eu já via na prática: o campo literário foi historicamente construído de maneira muito desigual. Nesse cenário, casas editoriais chefiadas por mulheres oferecem o “teto” de que Woolf falava como gesto cotidiano. A Macabéa nasce desse desejo simples e radical: criar espaço para que mulheres escrevam, se reconheçam como escritoras e permaneçam.

Lili: A Macabéa não é uma editora exclusivamente de poesia, mas é dominada por ela, aparentemente: quando não se publicou poesia, publicou-se sobre poetas. Além disso, tanto você quanto a Milena e a Priscila são poetas e pesquisadoras de poesia. Recentemente saiu pela Editora Fósforo o livro O ódio pela poesia, de Ben Lerner, e é notável que exista uma resistência à poesia. Mas o que eu queria perguntar é: você acha que existe um ódio à poesia ou apenas um desconhecimento sobre ela? E como essa resistência afeta você, como autora, e a Macabéa, como editora de/sobre poesia?

Bianca: É interessante você mencionar O ódio pela poesia, Lili, porque é justamente uma das minhas atuais leituras! Inclusive, na quarta capa do livro, há um trecho em que o Ben Lerner diz que “Muito mais gente concorda que odeia poesia do que é capaz de concordar sobre o que é poesia.” Daí, lembro do meu amigo e poeta Thadeu Santos, que publicou seu primeiro livro, Do Jeito que dá, no final do ano passado. Um livro escrito durante suas viagens de ônibus no trajeto casa – trabalho, trabalho – casa. 

Nesse livro, o Thadeu traz, em um dado momento, sua interação com uma mulher chamada Lucy durante uma aula de artes na universidade. Os dois conversam brevemente e a poesia surge como assunto. Lucy aluga um triplex na cabeça do poeta quando diz que não gosta muito desse gênero literário porque não acredita no amor. O que parece uma afirmação ingênua (e é), mostra como os não leitores de poesia costumam encarar esse gênero textual, como se os signos “poeta”, “poema” e “poesia” estivessem intrinsecamente ligados a amor, paixão, flores delicadas e colhidas no jardim. 

De imediato, ele pensa em responder algo como “estou falando de poesia, Lucy, não estou falando de amor”, mas ele é um poeta cansado. Depois dessa interação, o leitor continua lendo a cidade pelo vidro do ônibus, mas Lucy retorna como uma caixa de eco. E atormenta o poeta. E atormenta também o leitor que é poeta ou que está familiarizado com a poesia. 

Acho que esse “ódio” vem muito mais do desconhecimento. Eu não diria ódio, exatamente, mas uma resistência infundada ou mesmo indiferença. Ainda é bastante comum, entre os não leitores de poesia, a ideia de que o poema precisa de métrica, de rima, de que é sempre difícil de compreender e de que fala de apenas amor romântico. Acho que falta disposição para se debruçar por muito tempo sobre poucas linhas, falta paciência para aceitar, muitas vezes, o entender sem entender. 

A poesia não é só deixada de lado pelos não-leitores-de-qualquer-gênero, ela é frequentemente ignorada por leitores ávidos de romance, por produtores de conteúdo literário no Instagram e no YouTube e até por prêmios literários (vários deles excluem a categoria de poesia). Ao pensar nisso, me vêm à mente os poemas como “Alguns gostam de poesia”, de Wislawa Szymborska; e “Poetas”, de Cristina Perri Rossi. Os versos finais do poema da Cristina dizem que nós poetas “Não somos confiáveis/ nem para os leitores:/ eles gostam de gastar dinheiro/ em linhas corridas,/ não em linhas partidas”. 

A poesia é, sobretudo, um gênero injustiçado, porque persiste a ideia de que é necessário  compreendê-la plenamente, como se a compreensão fosse um pré-requisito para a leitura. Poesia é estranhamento, é também o não entender, é o quase chegar em algo, é não esperar uma moral da história nos últimos versos. Priscila Branco diz em um poema de açúcar que poesia é “um jogo de esconde-esconde”. Gosto de me sentir uma detetive, mas sem tanto apego a desvendar pistas, porque gosto do “quase”. 

Agora, objetivamente (rs) respondendo à última pergunta: a Macabéa é uma editora sem apego comercial algum, que não se orienta pela lógica do lucro. Para começar, nosso catálogo tem mais poesia do que qualquer outro gênero literário, rs. Além disso, de vez em quando a gente se mete a fazer um projeto mais caro, um livro todo azul, sabe? rs. Agora, a gente está com um livro todo magenta no prelo. Lá vem a facada da gráfica, porque impressão colorida em pequenas tiragens é cara a ponto de beirar insustentável. 

Para cada projeto, buscamos uma artista diferente para ilustrar, ou adquirimos uma arte já existente no catálogo da artista. Por isso, demoramos a editar os livros: refletimos bastante em todas as etapas, sempre coletivamente, e sempre incluindo a autora no processo. Costumo dizer que editores independentes ou são malucos, ou são herdeiros (há quem seja ambos, mas eu me enquadro orgulhosamente na primeira categoria). Não falo como se esse “desapego” ao lucro fosse um gesto franciscano, nem como uma tentativa de romantizar o ofício de escrita e edição. Seria ótimo ser remunerada pelo trabalho não somente nos períodos de pré-venda, mas a verdade é que manter uma editora caseira e independente, enquanto outros pratos (ops, empregos) são equilibrados, implica aceitar que a falta de dedicação exclusiva faz o projeto andar mais devagar, atravessar hiatos, reestruturações, novas gestões, perdas, ganhos, estagnações e crescimentos. Algo como uma montanha-russa de um pequeno parque: os carrinhos estão um pouco enferrujados, às vezes atravancam, param de funcionar, mas aí a gente faz uma manutenção e os trilhos voltam a ser gentis com a gente também. Tudo em consonância. Alguma ordem no caos. E assim a Macabéa continua viva, com quase 9 anos de estrada, 7 como editora independente.

Bianca Monteiro Garcia, editora na Macabéa. Foto: Fabio H. Mendes (@retratos_literarios).

Lili: Ao mesmo tempo em que há a resistência de leitores que não conhecem poesia, existe também uma resistência de leitores de poesia mais conservadores à produção contemporânea, que não repete convenções anteriores ou não se apega exclusivamente a elas – inclusive, muitas vezes, não reconhecendo essas produções como poesia “de verdade”. Os mais românticos diriam que estou repetindo a clássica pergunta do Antônio Abujamra – “O que é a vida?” –, mas, Bianca, o que é poesia?

Bianca: Hahahaha! Ótima analogia ao meme, rs. Acho que vou fazer a poker face do Eduardo Sterblitch e dizer, assim como ele disse: Não faço a mínima ideia! Espero não saber por muito tempo, aliás. Acho que só assim pra continuar escrevendo e lendo poesia: com uma lupa e muitas dúvidas.

Lili: Para concluir, 2025 foi bem movimentado com novas publicações da editora, que fechou o ano com os lançamentos  “o carro de apolo capotou no horizonte”, de Milena Martins Moura, e “Desenterrar os ossos”, de Priscila Branco, e a campanha de financiamento para “A intacta natureza dos dias”, de Thainá Carvalho. Poderia falar um pouco dos próximos lançamentos? 

Bianca: Spoiler! O cronograma de publicações do ano de 2026 conta com Novela, livro de estreia de Carolina Torres, que agora também faz parte do corpo editorial da Macabéa. Apesar do título, é um livro de poesia que, inclusive, vem com um forte apelo gráfico: páginas na cor magenta. Tá ficando bem lindo! Teremos também lançamentos de Manoella Valadares e Adriana Dória Matos, Daniela Rezende, Maria Emanuelle Cardoso, Priscila Branco…