Ensaio

De um mar que salva porque ressoa: a poesia de Myriam Fraga, homenageada da Flipelô 2026

A vertente mais expressiva da poesia baiana é feminina, e a obra de Myriam Fraga ocupa lugar central nesse cenário.

Foto: Leonardo Avessa/ Agência O Globo.


Sou náufrago de mim
e invento minhas ilhas.
Myriam Fraga, Robinson

A voz da poesia

A voz da poesia vai além das marcas de um tempo, o que vale e carrega é medido no eco que fica em nós e que é semeado a partir dela. É um grande mar que balança e ressoa. Em 2013, havia pouco tempo que retornara de Portugal, depois de ter morado por longos anos em terras lusitanas. A saudade, a vontade, tudo conspirava para que quisesse entender e conhecer a poesia da minha cidade. Eu ainda escrevia os versos no antigo caderno e não tinha reunido nada até então, somente aquela energia que me encorajou a sair de casa naquela tarde e ir ao lançamento de Memórias da alegria, da Myriam Fraga. O salão estava cheio, mas a ansiedade que me tomava guardava lá os seus segredos. Eu estava verde e com o coração cheio de esperanças para conseguir trocar algumas palavras com aquela que me acompanharia em versos nos meses seguintes.     

A vertente mais expressiva da poesia baiana é feminina, e a obra de Myriam Fraga ocupa lugar central nesse cenário. Desde a estreia com Marinhas (1964) até Vício de Poesia (2016), sua obra ampliou o modo como lemos a experiência humana. Myriam desempenhou também um papel fundamental na prosa biográfica. Figuras ilustres foram desveladas em seus matizes mais íntimos por meio de biografias que evidenciam seu apuro estético e uma curadoria marcadamente poética. Nomes como Leonídia Fraga, Castro Alves, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Carybé e Luiz Gama compõem essa vertente de sua produção literária.

É difícil mensurar uma presença que ainda hoje transborda os limites da poesia. Ao folhearmos seus livros, encontramos fragmentos do pensamento de um lugar e de uma época. Existe um aspecto norteador para o leitor e para todo baiano que se debruça sobre a cultura desta terra: a profunda amizade entre Myriam Fraga, Jorge Amado e Zélia Gattai. Convidada por Jorge para capitanear a Fundação Casa de Jorge Amado, Myriam atuou como gestora e guardiã do legado do escritor amigo por três décadas. Seu rigor intelectual transcendeu a salvaguarda do acervo, convertendo-se no propósito de democratizar o acesso à literatura. Myriam conferiu poeticidade à gestão ao fazer pulsar a obra de Jorge e Zélia no cerne de uma cidade em constante reinvenção, pensando em atrair o olhar de novas e antigas gerações de leitores, tanto no Brasil quanto no exterior.

Talvez este texto se situe nos interstícios das leituras de uma vasta obra poética, oriunda de uma voz que jamais buscou o mero aplauso. Tratamos aqui de uma escrita de permanência latente, cujos poemas germinam não por um impacto abrupto, mas por uma construção orgânica de reconhecimentos. Myriam escreve o tangível, sem artifícios desmesurados, mas sem jamais permitir que a palavra se torne estéril. Há uma atmosfera de transparência que concilia o mistério da existência à clareza do verso. Afinal, no cerne de um bom poema, reside um eco de espantos. Pensemos, então, sobre o que há de tão inquietante na leitura da poesia.

Todas as pessoas possuem algum vínculo com o fazer poético, de forma direta ou indiretamente. Seja pela sonoridade de uma canção ou pelo acesso à essência de algo que ressoa em nossa frequência, revelando sentidos por meio de metáforas, ambiguidades e do impacto da forma. Seja na passionalidade da juventude, na busca por alento no meio da jornada ou na maturidade dos anos.

O silêncio da palavra que assusta

Convergem agora inúmeros pensamentos, mas recordo-me de Ben Lerner, em Ódio à Poesia, um ensaio irônico e lúcido sobre o tema. Lerner afirma que nesse processo grande parte da conexão com a poesia pode enfraquecer ou se transformar em uma espécie de aversão: o ódio pela poesia. É precisamente nessa dicotomia, entre o ódio e o seu avesso, que cresce a potência do fazer poético, visto que o próprio título oculta o conceito mais primitivo do que venha a ser a poesia. Lerner também afirma: “Muito mais gente concorda que odeia poesia do que é capaz de concordar sobre o que é poesia”. A palavra lírica amplia as possibilidades da linguagem, em suas inúmeras formas de percepção e na estética da própria existência. Há quem já perceba a poesia nas ranhuras do cotidiano, enquanto outros ainda rejeitam a grandiosidade de seu sentido.

Em outro momento, o autor indaga: “Que tipo de arte assume a aversão de seu público e que tipo de artista se alinha a essa aversão, até mesmo estimulando-a? É uma arte odiada, por fora e por dentro (…)”. A poesia e seus poetas mas, cá entre nós, o que pode realmente um poeta? E qual é, afinal, o alcance da poesia?

Lembro de Myriam Fraga

A poeta baiana Myriam Fraga (reprodução).

Mais cedo ou mais tarde, essas perguntas encontram resposta. E, através de uma força intuitiva, as respostas são a consciência de uma convivência. A busca, estamos todos na busca por algo. A palavra, ao ser realizada, dá acesso ao que se maturo, muitas vezes ainda sem nome ou distante nos anos. É aí que o verso se justifica: para criar entendimento representativo sobre todas as narrativas. O riso e o pendor, inevitavelmente, passam pela poesia.

Lembro-me, como se fosse hoje, daquele dia, a última vez que estive na presença física de Myriam Fraga. Ela estava sentada ao lado do poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos, que também autografava seu último livro. Os dois conversavam baixinho, em tom fraternal, melancólico, imagino. Eu acabara de ler o livro do Cajazeira dias antes e tinha na cabeça seus versos despontando em algumas perguntas. E, ao chegar a minha vez para os autógrafos, tudo o que saiu de minha boca foi um afetuoso: “Obrigado por escrever esse livro!”. Myriam sorriu. Mas, antes que terminasse de formular meus pensamentos para falar com ela também, presenciei a sua reação com o amigo em uma frase que jamais saiu de minha cabeça: “Tá vendo o que te disse? Ainda há o porquê de continuar”. Eu tinha tanta coisa para dizer, para falar de meus mergulhos em sua poesia, mas calei e fiquei admirando. Foi nessa hora que me perguntei quem realmente era aquela mulher. Não somente a escritora de muitos livros, a presidente da Fundação Casa de Jorge Amado por longos anos, mas aquela voz que, mesmo sem grafar o verso, já o escrevia bem diante dos meus olhos. Era uma vida dedicada à poesia e ainda havia muitas palavras.

Em uma entrevista, Myriam respondeu sobre a biografia de um poeta: “Mas quem pode dizer realmente o que se passa em suas trajetórias entre o ninho e o voo final? A biografia dos poetas é revelada pelas palavras, pelos poemas que escrevem”. E é lá que se desenha a obra, na soma entre a vida e a escrita.

A vida e a escrita

Poucos nomes conseguiram cultivar uma constante tensão lírica sem se precipitar em um querer noviço por renovações especulativas. A poesia de Myriam cresce em uma disciplina formal que acontece em uma contenção de palavras capaz de controlar, preventivamente, o sentimento excessivo. Assim, os poemas atravessam pilares caros para a poeta: a memória, a perda, a passagem do tempo, a interioridade e o silêncio, o corpo e a experiência feminina, as paisagens do interior, a busca pela permanência. Há uma dicção depurada que se torna um traço pensado, maduro. Como vemos em “Barragem”, em sua poesia reunida:

“Estrutura de cal 
Subitamente o rio 
(argila e metal) 
Se recompõe 
E para.”

Os versos são pura imagem e estrutura fundamentados no traço fino da poeta.

Outro marco em sua escrita que serve como parâmetro, até didático, na produção de qualquer poeta contemporâneo, é a forma como é visto o tempo. Ele não é fragmentado em abstrações, se apresenta sob a imposição do toque, o físico no surgimento de objetos, imagens, somas materiais. No poema “Retratos”, lê-se:

“Tudo que foi 
Aqui está enterrado. 
Em branco e preto 
A soma revelada 
Do que outrora foi vida 
E hoje é distância.”

Todas as culminâncias essenciais para que o poema exista estão a partir de fotografias. É desse objeto que se observa o tempo. E transmutar a leitura de um lugar já clássico para a poesia, associando o imaterial ao que pode ser tocado com as mãos, é uma estratégia no mínimo viva, pois o papel do poeta é também buscar e encontrar novos em antigos lugares.

A presença feminina em sua poesia é construída com sofisticação, sem cair no mero verso panfletista. A mulher em sua poesia é um lugar em que não há tão somente a força de um lirismo, mas, acima de tudo, um terreno onde se cruzam a história, o corpo e a memória. O feminino é condição essencial, matéria poética central, como já fica claro no surgimento do livro Femina, ao abrir com versos de “Ars poetica”: “Poesia é coisa / De mulheres”. Há a experiência vivida que carrega a força histórica, representativa.

Uma outra base de sustentação que pode ser lida na obra de Myriam é o olhar através da geografia. A Bahia também é o pano de fundo em seus livros e surge como um traço, uma atmosfera sensível. O mar, as antigas moradias, a paisagem. A força mnemônica se desenha a partir de lugares da terra, eles figuram como acesso para um estado interior, como podemos ler tão seguidamente nos poemas do livro Marinhas. A paisagem de Salvador, da ilha de Itaparica, os pescadores, o mar, há algo que não pode ser medido nem levado pelo tempo, a poesia reafirma em viagem, também o seu resgate.

A viagem e o sentido

Myriam conjuga a intenção de inscrever a permanência em uma poesia da continuidade. Pois a sensação que dá na leitura de sua obra reunida é a de que cada livro parece uma continuação do anterior. É constantemente impresso o aprofundamento em questões que atravessam a vida inteira. Estamos diante de uma palavra contínua e sem pressa.

E há tantos outros recortes possíveis que a obra pode ser pensada também como uma cartografia da memória, pois, como bem disse a própria, poesia é “resíduo de experiências vividas por remotas ancestralidades”. Atravessa-nos a ideia de que a poeta realizou uma grande viagem a partir da atividade paulatina do verso e, através dela, constata no agora a bagagem passada, que é nítida e fantasmagórica. Trata de um lugar marcado para outro que ainda não aconteceu, mas segue indo em uma “viagem do nada / Ao não sei onde”. Mesmo sem estar presente, a sua viagem continua em nós, a partir de sua poética. E de repente, já estamos também diante de nossa.

O tempo medido, mapeado e constatado. E é diante dele que se constroem mundos imaginários só para se conseguir o entendimento: “Invento a ilha / Mistério / De ser real / e sonhada”. Eis a poesia no lugar de inventar, de tecer sobre o vivido intenções que podem recriar para salvar. Uma criação que se espraia numa contradição teórica que se justifica. Sim, pois a poesia de Myriam Fraga exerce sobre si um papel de antilirismo, já que não se faz em tom confessional, imprime um drama que se veste em lirismo. Provoca um lugar de símbolos para criar mares navegados e outros novos, reinventados. Afinal, estamos diante de uma poética da purificação e salvação através dos inteiros e quebradiços. 

Diante dessa poética de permanência, resta a certeza de que a palavra, quando equilibrada como em Myriam Fraga, supera a distância e o silêncio. A viagem se completa. Pois estamos na presença da invenção de lugares, mas acima de tudo  do tecido que possibilita-nos permanecermos presentes por causa do verso. Seu legado não cessa, ele retorna, em cada novo leitor, em recomeço, como ela mesma escreveu um dia: “E este selvagem buscar / Esta mensagem / Cifrada nas garrafa… / Sou náufrago de mim / E invento minhas ilhas”: é um mar, um mar que ressoa.

* Texto escrito para a Revista O Odisseu para homenagear o grande nome da Flipelô de 2026, a poeta Myriam Fraga.