
Freud, Foucault, Filipa: o sexo como critério
É no plano corpóreo-subjetivo que as camadas começam a se desfazer. O sexo opera como dispositivo de transformação de si, e o prazer torna-se critério ético. Refrão e método: se eu morrer amanhã, o que ainda preciso viver hoje?
Foto: Filipa Fonseca Silva por Enric Vives-Rubio.
1. Freud
O conceito freudiano de inconsciente, formulado por Sigmund Freud, operou uma enorme transformação na subjetividade moderna no início do século XX. Desde A interpretação dos sonhos, marco fundante publicado em 1900, a psicanálise entende o inconsciente como o tópos do desejo – reprimido, conflitivo, traumático, criativo. Ainda às voltas com a consciência, que, em 1879, Wilhelm Wundt decretou como seu objeto precípuo, a Psicologia científica precisou reconhecer um outro universo. Havia também uma metapsicologia: aquilo que dominávamos em nós mesmos era doravante apenas a ponta aparente e diminuta de um iceberg cuja parte maior encontrava-se constitutivamente submersa.
Ao propor que existe uma dimensão inconsciente responsável por aquilo que somos sem que sequer saibamos quem somos, a psicanálise rompe com a herança racionalista cartesiana do cogito. Descentralização subjetiva radical, ferida narcísica: Nicolau Copérnico demonstrou que a Terra não é o centro do universo, Charles Darwin explicitou que não somos criados à imagem e semelhança de Deus, e Freud revelou que não somos senhores absolutos sequer em nossa própria casa. Essa inauguração escandalosa de um modo de compreensão da condição humana – demasiado humana – ultrapassou em muito os limites disciplinares dos saberes psi, produzindo efeitos profundos na cultura, na arte e na política.

Quase ao final de Verdade tropical, Caetano Veloso chama Freud de o único esboço de um filósofo do sexo. Talvez não seja inteiramente verdade, mas é inegável que a sexualidade ocupa um lugar central na obra freudiana como em quase nenhum outro pensador. Afinal, para a psicanálise, a sexualidade é a principal força de estruturação do inconsciente: os desejos e impulsos sexuais reprimidos formam o núcleo dos conflitos psíquicos que, em larga medida, nos definem.
Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, publicado em 1905, Freud apresenta e defende a ideia profundamente escandalosa de que a sexualidade infantil é parte fundamental do desenvolvimento subjetivo humano. Ao sustentar que a sexualidade não se reduz à genitalidade adulta nem à função reprodutiva, mas é polimorfa, pulsional e atravessada por fantasias, abalou os alicerces morais da chamada era vitoriana e da Viena fin-de-siècle em que vivia.
É também nesse contexto que emerge sua complexa e controversa elaboração sobre o feminino. Ao investigar a constituição psíquica das mulheres, especialmente em textos como Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos, Freud introduz no debate temas como a sexualidade feminina, o complexo de Édipo nas meninas, a relação com a mãe e a chamada inveja do pênis. Se, por um lado, tais formulações foram criticadas por seu enraizamento em pressupostos culturais patriarcais, por outro, tiveram o mérito de inscrever o feminino no campo do desejo e do inconsciente, afastando-o de leituras puramente biológicas ou moralizantes.
Freud reconhece, inclusive, ao final de sua obra, que a feminilidade permanecia para ele um continente obscuro, admitindo os limites de sua própria teorização. Ainda assim, ao afirmar que a mulher é, muito além de objeto, sujeito de desejo, a psicanálise abriu espaço para que o feminino fosse pensado como construção psíquica e simbólica de um modo muito peculiar.
Se é verdade que a repressão é elemento estruturante da vida em sociedade, pois a cultura exige uma renúncia ao menos parcial das pulsões, como Freud desenvolve em O mal-estar na civilização, essa mesma repressão é geradora de sofrimento. A articulação entre sexualidade, inconsciente e cultura permitiu que a psicanálise dialogasse criticamente com transformações sociais do século XX. Não por acaso, parte do pensamento feminista encontrou na obra freudiana tanto um interlocutor quanto um adversário teórico, apropriando-se de seus conceitos para questionar normas rígidas relacionadas ao corpo, ao desejo e aos papéis de gênero.
Entre tensões, impasses e reformulações, a psicanálise freudiana inscreveu definitivamente a sexualidade e o feminino no coração da subjetividade moderna, mostrando que aquilo que somos passa, inevitavelmente, pelo que desejamos, reprimimos e fantasiamos, mesmo, e, talvez, sobretudo quando não sabemos disso – e é simultaneamente com e contra isso que é preciso lutar.
2. Foucault
As críticas mais contundentes de Michel Foucault à chamada ciência sexual aparecem em 1976, no primeiro volume do projeto genealógico de uma História da sexualidade, intitulado A vontade de saber. Nessa obra, Foucault questiona a tese amplamente difundida de que a modernidade ocidental teria reprimido o sexo de maneira sistemática desde o século XVII. Seu argumento inverte essa narrativa: longe de um silêncio imposto, o que se produziu foi uma proliferação de discursos médicos, jurídicos, pedagógicos e psicológicos sobre a sexualidade, aos quais se soma, evidentemente, a própria invenção freudiana.
Para Foucault, a scientia sexualis designa o modo específico pelo qual o Ocidente moderno passou a produzir um saber científico sobre a sexualidade. Trata-se da construção histórica de um dispositivo no qual o sexo deve ser confessado, examinado e interpretado como matriz de uma verdade do sujeito. Nesse movimento, a sexualidade torna-se objeto privilegiado de investigação e intervenção: fala-se dela para classificá-la, normatizá-la, administrá-la. Dirigindo-se a interlocutores do movimento gay que buscavam descobrir a verdade profunda de seus desejos no divã, Foucault encerra o livro com uma frase incisiva: “Ironia deste dispositivo: é preciso acreditar que nele está nossa libertação”. A provocação aponta para o cerne de sua análise: o mesmo conjunto de práticas que promete libertar o sujeito sexual pode também capturá-lo em novas formas de sujeição.
Foucault constrói o arco genealógico que pode nos conduzir de Santo Agostinho a Sigmund Freud. Para ele, a prática clínica moderna herda e transforma a lógica da confissão cristã. No setting analítico, o sujeito é incitado à livre associação para alcançar seus desejos mais íntimos. A scientia sexualis, nesse sentido, não apenas investiga a sexualidade: ela a produz como chave de decifração identitária. A crítica foucaultiana consiste justamente em mostrar que a sexualidade moderna não foi simplesmente reprimida, mas historicamente construída por meio de discursos que pretendem revelar sua verdade.
Ao traçar a genealogia dessa produção, Foucault convida a pensar a sexualidade não fundamento fixo da identidade, mas como efeito de práticas discursivas e de relações de poder situadas no tempo e no espaço – e, consequentemente, é preciso se perguntar como escapar às formas de sujeição que daí decorrem.

É nesse contexto problemático que Foucault distingue a ars erotica da scientia sexualis. Enquanto o Ocidente desenvolveu uma ciência do sexo centrada na confissão, na análise e na normalização, outras culturas organizaram o saber erótico como uma arte do prazer e uma prática de si. Foucault identifica traços desta artena China, no Japão, na Índia e no mundo árabe-islâmico, onde textos e ensinamentos eróticos não visavam classificar desvios, patologias ou identidades, mas, dentre outras coisas, transmitir técnicas para intensificar o prazer.
Na arte erótica, o saber não se produz por estatísticas, diagnósticos ou interrogatórios, mas pela experiência e pelo refinamento das sensações. O corpo não é objeto de suspeita nem suporte de uma verdade oculta a ser arrancada pela fala: é via de acesso a um conhecimento que emerge da própria prática do prazer. Se, na ciência sexual, o sexo é capturado como objeto de análise, vigilância e regulação, na arte erótica seu valor reside na qualidade e na intensificação da experiência. Isto é, numa ética da relação consigo e com o mundo que não separa prazer e verdade.
3. Filipa
E se eu morrer amanhã?, romance de Filipa Fonseca Silva publicado no Brasil pela Editora Dublinense, acompanha a trajetória de Helena, uma octogenária que, confrontada com a consciência incontornável da própria finitude, decide revisitar as escolhas que fez — e, sobretudo, os desejos que adiou. Um incêndio em seu apartamento funciona como gatilho narrativo: entre o cômico e o dramático, o episódio precipita lembranças e revelações que instalam a personagem algo machadiana naquela zona ética rara, urgente e espessa em que vida e morte se tangenciam – e é justamente nela que tudo no livro se dá.

Desde que ficou viúva, Helena passa a viver sob o signo da pergunta que dá título ao romance. Longe de produzir paralisia, a questão adquire densidade prática e vitalista. Como nos exercícios estóicos do memento mori, lembrar-se da morte não significa cultivar angústia, mas orientar a ação. A finitude deixa de ser abstração e torna-se critério. A provocação ecoa certo nietzscheanismo: viveríamos esta mesma vida infinitas vezes?
Transposta para o romance, a hipótese do eterno retorno converte-se em teste íntimo — uma medida da intensidade com que se viveu e da coragem de transformar o que ainda pode ser transformado. Helena percebe que grande parte de sua existência foi moldada por expectativas alheias: a família, o casamento, a moral difusa e quase universal que paira sobre o corpo feminino. A urgência provocada pela ideia da morte funciona, então, como catalisador para revisitar o passado, reimaginar o futuro e, principalmente, intensificar e entortar o presente.
É nesse ponto da história de Helena que o sexo emerge não como ornamento escandaloso ou concessão tardia, mas como campo de reinvenção subjetiva. Sem se tornar explícito ou pornográfico, o romance descreve com humor e delicadeza as incursões da personagem por aplicativos de relacionamento, encontros, fantasias, experimentações, balanços, vibradores, sugadores, amantes. Porém, mais do que enumerar experiências, a narrativa utiliza o sexo para explicitar a possibilidade de efetivar a alegria vital até o fim.
Helena confronta, assim, uma rede de convenções que insiste em domesticar o desejo. A sexualidade feminina, exponencialmente na velhice, aparece usualmente como território atravessado por culpa, vergonha e invisibilização. Nada disso, é claro, desaparece por encanto ou voluntarismo raso. Ao contrário, no arco narrativo pouco dado a grandiloquências do romance, o desafio é enfrentado com júbilo e ousadia.
A potência afirmativa da neta, o olhar vigilante e por vezes chocado dos filhos, as vozes cautelosas das amigas, a presença corporal e fantasmática do masculino, tudo compõe um emaranhado polifônico que expõe as camadas de repressão e expectativa que cercam o desejo feminino. Porém, o romance nunca se reduz ao denuncismo. Conflitos internos e externos, lembranças, hesitações e deliciosos mergulhos no escuro mostram como desejo, amor e o prazer – sobretudo o prazer – podem funcionar como um trampolim a partir do qual se observa a maré fria das morais prontas a serem quebradas com um salto.
É no plano corpóreo-subjetivo que as camadas começam a se desfazer. O sexo opera como dispositivo de transformação de si, e o prazer torna-se critério ético. Refrão e método: se eu morrer amanhã, o que ainda preciso viver hoje? A resposta constrói-se em pequenos atos de desobediência íntima: um encontro marcado, um balanço instalado, uma dança dançada, um orgasmo múltiplo. A liberdade, sabe-se, não é abstrata – a liberdade é corporal. Também por isso, Helena transforma a própria velhice em laboratório de uma arte erótica singular. Desinteressada de medições, classificações ou confissões da ciência sexual, ela parte, com fervor ativo e voraz, para tornar-se outra no uso dos próprios prazeres. Dobras, ossos, peles, cheiros, ambiências, erros, acertos, gostos e desgostos, descobertas e amantes compõem a cartografia sensível da transmutação: Helena não é Amélia. A pergunta-título, retomada uma série de vezes, evoca a urgência de interrogar-se, forjar-se e desfrutar de si mesma. Quando morrer amanhã é possibilidade real, viver com intensidade e prazer torna-se tarefa inadiável: afirmação e liberdade que se realizam no corpo de uma octogenária que não se furta a inventar uma arte erótica singular até tornar-se outra – ou, enfim, morrer.
E se eu morrer amanhã?, de Filipa Fonseca Silva
Editora Dublinense, 2023
224 pp.


