
Poesia de combate & poesia de rendição
A poesia de combate sempre foi e continuará sendo, por suas características de laboratório de possíveis sublimações & imanências, um gênero em secreta expansão.
Na foto, Mohammed El-Kurd (Reprodução).
Por ocasião da chegada ao Brasil, pela corajosa Editora Tabla e com tradução de Gabriel Semerene, do livro RIFQA, do poeta de Jerusalém –Palestina Mohammed El-Kurd, começo dizendo que a Poesia Palestina de Combate de Mohammed El-Kurd deveria influenciar mais a poesia de rendição praticada no Brasil-Bet. Aliás, houve uma antologia pioneira chamada urgentemente de Poesia Palestina de Combate que circulou por aí e continua circulando secretamente. O livro de Mohammed Kurd é uma expansão dela. Para a expansão de um massacre, o remédio é a expansão do poema, a defesa do atrito-confronto entre o pólen da voz e o inconcebível-hediondo. E o que nos diz Mohammed? “Se você inclina a cabeça um pouquinho/é ridículo:/Tigres desnorteados,/hienas em traje militar./Uma menina foi-se embora./Os homens zombaram./Eu não estava lá;me contaram/que comeram as últimas palavras/mesmo assim.” (em A QUE DISTÂNCIA ESTOU DE JERUSALÉM?). Por que afirmo que a poesia contemporânea brasileira é uma poesia de rendição e não uma poesia de combate? Olhem em volta, foram à feira? O peixe está caro? Foram ao mercado? O produto próximo do vencimento é mais barato? E o que canta Mohammed ? “Há morte nos olhos deste recém-nascido./ Ouvi o bebê reclamar da traiçoeira derrota,/ chamá-la de a mesma antiga catástrofe./Uma tempestade em seu ouvido diz que anseia por silêncio.” ( em QUARTA-FEIRA) e “Foi por não haver mais túmulos em Gaza/ que você nos trouxe à praia para morrer? ( ) O que dizer às crianças para quem o Mar Vermelho não se abre?” (em NÃO HÁ MOISÉS NO CERCO) “Nós ainda não nos rendemos”, diz a Poesia segurando um ramo de oliveira na mão esquerda e um fuzil na mão direita.

Mercado literário: Você está dizendo que a poesia deveria ser reduzida a uma expressão das lutas políticas? Para responder a essa questão meu caro, Mercado, vamos dar a palavra ao poeta João Cabral de Melo Neto que na entrevista de Setembro de 1992 para a Revista Veja disse: “ A poesia sempre foi e continuará sendo, por suas características de laboratório da linguagem, um gênero da minoria.” Será a poesia de combate praticada apenas por minorias? A poesia de combate sempre foi e continuará sendo, por suas características de laboratório de possíveis sublimações & imanências, um gênero em secreta expansão. O Brasil, país fundado por genocídios, demorou muito para praticar essa forma de combate através das palavras. Temos o R.A.P., mas boa parte de seus praticantes já se rendeu, é cansativo ter de lembrar aos poetas de combate que eles são poetas de combate, como disse Mohammed: “Por que explicar a manhã ao galo?” ( em POR QUE VOCÊ FALOU DE NAKBA NA FESTA?).
Dois livros do Círculo de Poemas
Andreev Veiga é um poeta de Belém do Pará que publicou ano passado pelo Círculo de Poemas/Fósforo o livro POR ISSO AS PAPOULAS. Os livros publicados pelo Círculo de Poemas não são assimilados com facilidade pelo Mercado literário (com exceção talvez dos fenômenos Mar Becker e Ana Martins Marques). A sequência de títulos surpreendentes e com boa distribuição revela um pouco a imensa limitação da crítica literária de hoje que, com parcas exceções, trabalha apenas para e com o instituído. São poucas as análises profundas dos livros do Círculo, salvo uma ou outra nota ou resenha pontual e episódica ou um outro comentário de influenciadores digitais — estou tendo aqui a ingênua lucidez de chamar os influenciadores digitais de críticos? É um patamar que eles conseguem facilmente alcançar porque a escada acadêmica foi arrastada pela enxurrada. — A maioria dos livros e plaquetes são pouco comentados.

Falemos então do livro de Andreev, de sua poesia confessional com dobras. Ao falar de si, Andreev obviamente executa um exercício de sutil deslocamento pelo tremor, no sentido do termo utilizado por Kierkegaard, no qual o sujeito mantém sua imagem subjetiva em meio a um conflito com a sociedade vigente. Sua imagem treme e se desloca alguns metros para fora. No caso de Andreev, o objeto-mundo é também um si mesmo mnemônico, ou seja, auto-referente, que na tentativa de apreensão dobra o discurso lírico para fora. Talvez em Andreev a poesia seja uma instância de apreensão falhada do mundo que acaba por estabelecer uma dimensão irônica marcada pela concisão e pelo cansaço. Wittgenstein, ao afirmar que os limites do mundo são os limites da minha linguagem, também estava se referindo aos limites da poesia lírica que se tornam nítidos quando uma cifragem imagética tenta colher os estilhaços do mundo com a memória correndo o risco de falhar maravilhosamente porque tanto ela quanto o mundo se dobram e se tornam sutilmente inapreensíveis.Por outro lado, o dialógico costura com sua linha de força afetiva aquilo que se perdeu.
Também no ano de 2025 o lançamento de A COR DA PELE poesia reunida de Adão Ventura mineiro de Santo Antônio do Itambé foi um acontecimento semi silencioso em meio a tantos eventos que no fundo existem para que nada aconteça. A poesia de Adão Ventura é uma autêntica poesia de combate. Poderíamos falar de um caso Adão Ventura, como poderíamos falar de um caso Cruz e Sousa ou de um caso Paulo Colina, três poetas negros que feneceram sem ver seus livros alcançarem o lugar de destaque que mereciam na sociedade brasileira justamente por tensionarem com suas vidas-arte e poéticas até o limite o cordão de isolamento que é erguido em volta da aura de um poeta pobre e negro.
Adão questionou com seus poemas as estratégias de falsa inclusão social do negro no Brasil, estratégias que hoje possuem um altíssimo grau de sofisticação e eficiência. A poesia reunida de Adão Ventura, como a de Miriam Alves e a de Cruz e Sousa organizada por mim para a Assírio & Alvim do Brasil, também teve pouca ressonância, pouco espaço. Podemos ver nisso um nítido sintoma de um racismo velado que predomina em nosso cenário cultural, com seus negro e negras escolhidos a dedo para representar a falsa inclusão, contra esse sintoma, diz Adão em “Mundo onde me fecho/eu-zumbi/caçador de capitão do mato,/traço tudo no tiro/e asso em coivaras.” ( QUILOMBO Pág.71). O negro brasileiro poderia ressuscitar seu eu-zumbi, houve um vislumbre disso no gesto do Galo de Luta ao incendiar o monumento em homenagem ao genocida bandeirante Borba Gato. Algo na poética de Adão Ventura me lembra Itamar Assumpção. “A cor da pele/saqueada e vendida/ a cor da pele/chicoteada e cuspida/ a cor da pele/ camuflada e despida” ( De LIVRO ÚLTIMO). Como Itamar, Adão era profundamente sofisticado em seu trabalho com a língua-linguagem, é uma pena que não se deu esse encontro entre Itamar e Ventura. Quando o artista negro vai além da pedagogia de absolvição, ele perturba enquanto ilumina e isso vale para Itamar e para Adão, a tessitura da literatura brasileira é negra.A tessitura da cultura brasileira é negra e o Brasil só irá possuir uma ontologia quando essa tessitura for assumida como algo maior do que uma identidade a ser protegida, resgatada e judicializada pelas branquitudes. O Caso Adão Ventura está em aberto.

O cais da espiral das diferenças
O tempo da literatura é sempre outro, é o tempo do sempre-outro. Em 2025, Edimilson de Almeida Pereira lançou a imprescindível caixa com sua poesia reunida até o momento pela Mazza e também lançou pela singularíssima Editora Cobalto PORTE ÈTOILE uma espécie de livro-dobra que retoma e redimensiona poemas publicados anteriormente. É um projeto complexo e urobórico que creio não ter paralelo dentro da literatura brasileira.

Edimilson é um caminhante metafísico de Juiz de Fora que faz de sua poética mais do que uma câmara de ecos do infernalário nacional, elaborando verdadeiros jongos onírico-retrovados que transcendem todas as tentativas de redução de sua poética ao funcional-institucional dos recortes sociológicos: “O que dança por força, se me dança/cai no abismo.(….) Nada é nulo- pelo direito à derrota/quem está atrás da máscara vai à lona.”( em VÓRTICE). Livre retomada em outras chaves do estranhamento místico rebelde de Murilo Mendes, podemos dizer que é uma poesia de combate com armas semântico-estilísticas que no fundo expandem outras topologias habitáveis para a diferença radical “O morto sobrevive na árvore de pólen” (em CASA MATERNA). A mais profunda poesia de combate poliniza outros léxicos imagéticos pensantes ao fazer a defesa da diferença e não apenas o elogio mistificador das origens. “Lá dentro, fora/do alcance/ de qualquer promessa/o mistério/vacila.” (em TRAÇOS). No caso de Edimilson, trata-se de uma poesia de combate que a partir de uma extimidade visceralmente naturante elabora uma importantíssima intervenção glissantiana dentro da poesia contemporânea de língua portuguesa.

