Entrevistas

Sonhar em espanhol, viajar entre lenguas — Entrevista com a tradutora Mariana Sanchez

Mariana Sanchez se apresenta na internet como alguém que “vive em português” e “sonha em espanhol”. Sua atuação como tradutora, somada aos seus 20 anos de viagens pela América Latina, parece conduzir à essa experiência peculiar e transformadora. Nesta entrevista, a curitibana fala sobre literatura, identidade, e seu papel como mediadora cultural.

Capa: Fotografia de Mariana Sanchez por Elisandro Dalcin/ Reprodução.


Caso não tivesse iniciado, à flor de seus 23 anos, uma sequência de viagens pela América Latina, Che Guevara possivelmente não teria se tornado o “guerrilheiro heroico” imortalizado por Alberto Korda naquele famoso retrato. Acompanhado do amigo Alberto Granado, a bordo de uma moto que não tardou a estragar, cruzou durante longos meses países como Chile, Peru, Colômbia e Venezuela. Entre 1950 e 1953, conheceu a precariedade e a camaradagem entre pessoas vivendo a pobreza, o estigma e o desespero. A experiência, registrada em diário publicado e adaptado para o cinema, o marcou profundamente. Décadas se passaram; eventos históricos marcaram a América do Sul naquela segunda metade de século XX; o espírito aventureiro continuou a chamar à estrada jovens em busca do desconhecido. Como Che, Mariana Sanchez também tinha 23 anos e contava com a companhia de um amigo quando, por 100 dias, percorreu, entre caronas, alguns países da porção sul do continente. O contato com a língua espanhola foi intenso. Através deste idioma, estabeleceu contato com as pessoas pelo caminho. Conheceu histórias tão distintas e, ainda assim, tão próximas de nós, brasileiros. Nos anos seguintes, investiu no estudo formal e, de professora de língua estrangeira e jornalista cultural, Mariana, cuja relação com a literatura já vinha de longa data, passou ao território da tradução.

Embora se considere uma “iniciante”, a curitibana conta com um portfólio impressionante de traduções do espanhol para o português, sendo um dos nomes mais proeminentes da nossa atual geração de tradutoras. Além de títulos publicados por editoras como a Fósforo e a Moinhos, assina, junto à Maíra Nassif, a coordenação editorial da Coleção Nos.Otras, da Relicário Edições. Trata-se de uma coleção singular – bela em seu projeto gráfico assinado pela designer Paula Albuquerque; perspicaz e relevante em sua curadoria, focada em obras de não ficção escritas por mulheres latino-americanas. O primeiro título lançado, Viver entre línguas (2018), da argentina Sylvia Molloy, anuncia desde o título o laço que amarra obras com projetos literários tão particulares, mas tão confluentes – um certo deslocamento, ora físico, ora interno; o lugar do estrangeiro, vivendo, sonhando e escrevendo em diferentes línguas; a posição frente ao desconhecido; a necessidade de reconstruir memórias e constituir uma identidade oblíqua. Funciona ainda como mote de quem ganha a vida vertendo ficção, histórias de vida, ideias e poesia de uma língua à outra. Na internet, Sanchez se apresenta como alguém que “vive em português” e “sonha em espanhol”. A tradução, somada aos 20 anos de viagens de nossa entrevistada, parece conduzir à essa experiência peculiar e transformadora.

A tradução não somente apresenta a produção literária hispano-americana ao nosso país lusófono, como lança ao horizonte a possibilidade de, enfim, haver uma compreensão mais assertiva quanto ao lugar do Brasil como, sim, parte da América Latina. Durante a entrevista, Sanchez opinou sobre este tema, sobre o papel da literatura e sua circulação frente ao poder e à violência dos grandes centros da cultura, sobretudo aqueles do norte global e, com este gancho, adiantou para O Odisseu o próximo título nacional da coleção Nos.Otras: trata-se de Quando as borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros, reunião de ensaios de Cidinha da Silva, reconhecida como uma das principais vozes da não ficção brasileira, cujos temas abrangem a afro-brasilidade, a discriminação e a desigualdade racial. Os textos presentes neste novo título refletirão quanto à autoria negra e o mercado editorial brasileiro – os convites, as contratações, recepções, conveniências e contradições de um espaço que, apesar dos avanços nos últimos anos, ainda reflete o racismo estrutural. Uma adição preciosa às nossas bibliotecas e ao debate público.

Seguimos a viagem…

Kaio Veloso: Mariana, você possui formação em Jornalismo e, hoje, se tornou um dos nomes mais importantes da tradução do espanhol em nosso país. Lembro-me de vários profissionais do jornalismo que mesclaram ou mesmo migraram completamente para a tradução literária, como Júlia Romeu, Gisele Eberspächer, Érico Assis (eu mesmo estou engatinhando para a tradução e outros ofícios editoriais). Por que a tradução parece chamar tanto os jornalistas para si? No seu caso, como se deu esse percurso entre as profissões, e quais efeitos teve em sua própria identidade profissional ao longo dos anos?

Mariana Sanchez: É mesmo, dá para enumerar bastante gente que circulou, que transitou por essas duas frentes. Assim, Kaio, eu sempre vi a tradução como uma mediação cultural, assim como o jornalismo. A atividade do jornalismo é um esforço de aproximar a sociedade de uma matéria, de um determinado assunto, de tornar acessível algo que não era acessível para ela antes, e a tradução também é isso, de certa forma. Você tornar acessível uma literatura, um idioma aos leitores. Para mim, isso se deu de uma forma muito natural, nem foi uma coisa programada de fato.

Eu sempre trabalhei como jornalista na área cultural. Eu cobria muito livro, cinema, escrevia para uns veículos aqui do Paraná. Hoje, esse jornal, ninguém mais gosta de dizer, de mencionar, mas o jornal Gazeta do Povo foi um jornal muito importante aqui no Paraná. É um jornal centenário e que tinha um suplemento cultural de grande relevância, até nacional. Eu escrevia para ele e, nesse momento, fui designada a fazer um suplemento, uma edição especial sobre cultura e literatura argentina contemporânea. Ali, me deparei com a obra da Samanta Schweblin. Só que isso foi em 2010, ela não era conhecida aqui, não tinha nenhum livro publicado. Fiz uma entrevista com ela e aí pensei que seria um despropósito publicar num jornal no Brasil uma entrevista falando da obra de uma autora que ninguém tinha lido. Ali, fiz meus primeiros exercícios, minhas tentativas de tradução, porque eu já falava espanhol. O jornalista, em geral, fala mais de uma língua, invariavelmente, ou inglês, ou espanhol, ou francês. No exercício e contato diário com a língua, muitas vezes entrevistando pessoas em outros idiomas, você acaba se sentindo mais encorajado, de certa forma. Jornalistas, em geral, também são bastante cara de pau, mas muitas vezes essa necessidade de comunicação se dá de uma forma instrumental. Não é necessariamente que isso vá virar algo literário. Muitas vezes, o tradutor não vai virar um tradutor literário. Ele pode traduzir jornalismo, outro tipo de literatura mais informativa, do campo da divulgação científica, por exemplo. No meu caso, sempre fui uma leitora literária. Me formei muito lendo as literaturas da América Latina. Eu gostei desse exercício, adorei ter feito esse mergulho na obra da Samanta Schweblin. Aí, passei a acompanhar a obra dela e dois anos depois ela foi publicada no Brasil, em 2012, com a coletânea Pássaros na boca[1]. A partir disso, tomei gosto, comecei a tentar viabilizar, trazer para o leitor brasileiro coisas que não estavam saindo aqui, só que, até então, eu não tinha uma entrada no meio editorial. Sou uma jornalista de Curitiba, não tenho uma circulação pelas editoras grandes. Comecei a fazer isso na editora Arte e Letra, de Curitiba, que tinha uma revista literária bem interessante. Hoje, a Arte e Letra tem outras revistas literárias, mas essa revista, chamada Estórias, foi de fato algo importante no cenário nacional. Muitos tradutores, escritores, publicaram textos inéditos por ali. Ali, publiquei as minhas primeiras traduções e eram justamente de autores inéditos – a Samanta Schweblin, a Selva Almada, a Lina Meruane, o Fabián Casas, um autor que também não tinha sido publicado (depois ele saiu pela editora Rocco). Então, para mim, foi meio que natural.

Agora, acho que o jornalista é um profissional que nunca aceita. Ele desconfia de tudo e não aceita as primeiras respostas. O tradutor também é assim. Percebo que o tradutor literário tem que estar desconfiando de cada frase, de cada expressão, não só a questão dos falsos cognatos, que a gente tem muito entre o português e o espanhol, palavras que se escrevem da mesma forma, mas que tem significados totalmente diferentes, mas, muitas vezes, aquele vocábulo tem um significado num país e outro, totalmente diferente, em outro país. Às vezes, você está lendo o texto que você traduziu, pensando naquela primeira acepção da palavra e depois que você lê, percebe que aquilo não faz sentido algum no texto, e aí começa a desconfiar daquela palavra, e aí você vai desdobrando os sentidos e procurando. Essa é uma abordagem muito do jornalismo, essa coisa meio detetivesca.

Converso muito com a Elisa Menezes, também tradutora do espanhol e jornalista, e nós já falamos um pouco sobre isso, sabe? Sobre esse componente detetivesco do tradutor que é muito desejável. Agora, logo que me formei em jornalismo tive uma experiência pessoal de 20 anos viajando de mochila pela América do Sul. Fiz uma longa viagem de 100 dias pela América do Sul desde a Argentina até o Equador, tudo por terra, pedindo carona. Eu e um amigo, também jornalista. Foi um certo laboratório de tradução para mim, e de jornalismo, porque nós entrevistamos muitas pessoas pelo caminho, e acho que entrevistar pessoas, conversar com pessoas nessas viagens, quando a gente está muito disponível para o outro, numa trajetória de viagem, me fez entender os diferentes sotaques e idiossincrasias do espanhol no Equador, na Bolívia, no Peru, no Chile, que é totalmente diferente. Ali, sem querer (porque ainda levaria alguns anos até me tornar tradutora), já estava ensaiando a tradução dentro de mim.

Kaio: Usualmente, em entrevistas com escritores, fala-se muito em inspirações e influências para a escrita. Considerando que a tradução literária é um trabalho criativo, entendido inclusive como uma forma de coautoria, você possui inspirações e influências tradutórias? Quais são elas?

Mariana: Eu me formei como leitora de literatura hispano-americana a partir do texto em português de grandes tradutores como Eric Nepomuceno e Josely Vianna Baptista. Dois grandes nomes que se tornaram referência para mim. Gosto muito do jeito como a Josely traduz até hoje, com uma sofisticação, uma delicadeza, uma poesia, e o Eric vem do jornalismo, assim como eu, então ele também tem uma forma, um ouvido muito bom para traduzir diálogos. Ele chegou a ser meu professor. Tive aulas com ele e aprendi muitas coisas nesse sentido.

Claro, além dos tradutores do espanhol, tem nomes irrefutáveis: Boris Schnaiderman, por exemplo, que para todo mundo que estuda dentro do campo da tradução é um nome incontornável, não só na tradução do russo como na difusão dessas obras no Brasil. Penso muito nisso – o meu papel não é só como tradutora, né? Hoje, compartilhando a coordenação da coleção Nos.Otras com a Maíra [Nassif], na Relicário, me sinto uma agente nesse sentido de difusão do campo editorial hispano-americano no Brasil. Outra super influência que também vem do jornalismo é a Rosa Freire d’Aguiar. A Rosa traduz do espanhol e mais principalmente do francês. Ela também veio um pouco disso, dessa vivência da língua, de entrevistar pessoas. Ela mora na França há muitos anos e, a partir daí, foi indo para a tradução literária, mas ela originalmente veio do jornalismo. Ela tem essa questão de descomplicar a gramática no sentido de que, às vezes, um diálogo precisa de um texto mais fluido e, muitas vezes, o jornalista, pela escuta ativa com suas fontes, vai conseguir resolver isso melhor em um texto tradutório. Percebo um pouco isso, uma certa fluidez, quando o texto pede uma oralidade, uma carga oral importante, porque nem todo texto literário pede isso, obviamente, mas a literatura contemporânea muitas vezes tem diálogos, tem reprodução da voz narrativa que exige uma certa coloquialidade, e sinto que os tradutores que vêm do jornalismo têm uma certa facilidade com isso.

Obviamente, um cara que é uma grande referência para todos nós é o Paulo Henriques Brito, do inglês. O Paulo é meio uma unanimidade entre todos os tradutores, e ele consegue resolver o efeito do original muito bem, tanto em um registro mais poético, mais sensível, quanto no humor, por exemplo, que acho brilhante. Quando preciso me inspirar, pego um livro traduzido pelo Paulo Henriques Brito, porque sempre é uma aula de tradução. Acho que o Caetano Galindo aqui no Paraná também tem um pouco [d]essa escola do Paulo Henriques Brito. Ele sempre, para mim, foi uma inspiração, no sentido da criatividade mesmo, de se permitir, se arriscar, fazer coisas até polêmicas, certas soluções muito arriscadas mesmo, que é o que ele fez nas traduções do Joyce ou do David Foster Wallace. [N]a minha tradução de Eisejuaz, por exemplo, recorro muito a esse componente de arrojo mesmo, de ousadia, de coragem. Isso é uma coisa que vejo muito tanto no Paulo quanto no Caetano. O Boris Schnaiderman já fazia muito isso, e até anotei aqui para não esquecer, mas nessa nova geração de tradutores também tem gente que eu super acompanho o trabalho. A Rita Kohl está fazendo umas coisas muito importantes e excepcionais no japonês. Gosto muito do trabalho da Silvia Massimini Felix, no espanhol. Ela conseguiu soluções belíssimas e bravíssimas, por exemplo, nas Aventuras da China Iron, da Gabriela Cabezón Cámara, um livro muito difícil de traduzir. Gosto bastante da Elisa Menezes, que eu tinha falado. [Ela] tem feito um trabalho muito bom nas latino-americanas. Adorei uma tradução que li no ano passado, daquele livro do Mohamed Sarr, o A mais recôndida história dos homens, não sei se você chegou a ler aquele baita calhamaço, está muito bem traduzido pelo Diogo Cardoso. Leio muita coisa no original [em] espanhol, então, às vezes, acaba que leio pouca tradução. Gosto muito de literatura brasileira contemporânea, mas quando leio um livro traduzido, sempre faço questão de perceber, mesmo que não fale o idioma de saída. Transparece muito quando uma tradução é bem-feita, quando você se envolve naquele texto. Essas são um pouco minhas referências hoje.

[Mariana Sanchez inclui ainda Bruno Cobalchini Mattos como parte de suas referências. Trata-se de um jovem tradutor gaúcho radicado em Curitiba que, segunda ela, “tem feito um trabalho lindo na tradução do inglês e do espanhol”.]

Kaio: Há hoje no Brasil um cenário bastante interessante de editoras independentes que vem contribuindo bastante para a diversificação em nosso horizonte de publicações estrangeiras em tradução. A Relicário é uma delas, na qual você coordena, ao lado da editora Maíra Nassif, a coleção Nos.Otras, com títulos como Viver entre línguas, de Sylvia Molloy e Tornar-se Palestina, de Lina Meruane. Resenhei estes livros para O Odisseu e me chamou a atenção como a temática da identidade mostra-se atravessada pelos deslocamentos linguísticos e geográficos vivenciados pelas autoras. Assim, gostaria que me contasse como ocorreu o seu contato com a Relicário, a criação do projeto da coleção e como é feita a curadoria de títulos. Também gostaria que comentasse sobre o aparente entrelaçamento entre identidade, língua e território, frequente nestas obras.

Mariana: Eu era leitora da Relicário, sempre gostei muito do projeto, mas não conhecia ninguém, não conhecia a Maíra e estava morando em Buenos Aires de 2015 até 2018. Nessa época, já estava fazendo muitas buscas ativas de projetos literários que gostaria de traduzir. Já estava fazendo traduções profissionais, já tinha feito umas coisas para a Alfaguara, mas quando morei em Buenos Aires, realmente fiz uma imersão no sistema editorial. Convivia com editores, jornalistas, escritores e tradutores. Fiz muitas amizades lá, até com outros tradutores de outros países. A gente tinha um grupo de tradutoras do espanhol para outros idiomas, para o inglês, para o francês, para o português. A gente trocava muitas figurinhas de obras que gostaríamos de traduzir. A partir daí, surgiu o projeto do Eisejuaz, esse romance super experimental da Sara Gallardo que saiu nos anos 1970, e fiz uma espécie de apresentação e até amostra de tradução desse livro para várias editoras e fiquei buscando uma editora interessada no projeto no Brasil. A Maíra, da Relicário, foi quem realmente se interessou. Isso é muito importante de sinalizar – que as editoras independentes abriram um flanco muito importante para esses livros que estão escoando no mercado editorial brasileiro. 15 anos atrás, talvez 20 anos atrás, a gente não veria uma profusão de tantas autoras latino-americanas. Tinha alguns experimentos muito legais, algumas iniciativas muito boas, por exemplo, aquela coleção Prosa do Observatório, da Cosac Naify. Enfim, tinha outras coleções, mas você não via [essa movimentação editorial], não com o volume que sai hoje.

As editoras independentes começaram a abrir esse caminho para obras mais experimentais, de outras autorias menos hegemônicas, talvez, e sinto mesmo que a Relicário, a Moinhos, a Mundaréu tem feito um pouco isso. Agora, a Arquipélago, em Porto Alegre, também está com um viés bem focado na literatura latino-americana, mas naquela época não tanto assim. Aí, quando surgiu o projeto do Eisejuaz e estabeleci um diálogo com a Maíra, pensei: “vou oferecer para ela um outro projeto um pouco mais ambicioso e maior, de mais fôlego. Vou oferecer uma coleção para ela”, porque já tinha alguns livros que queria fazer. Então, eu já tinha uma listinha mental ali. Por exemplo, Tornar-se Palestina, um livro que já tinha saído há alguns anos.

A coleção surgiu na minha cabeça em 2017, mas o Tornar-se Palestina, se não me engano, saiu em 2014. Tinha esses livros já mapeados que achava que tinham que entrar numa coleção, porque eles, como você falou, têm um diálogo. Tinha vários outros, por exemplo, a biografia da Mariana Enriquez sobre a Silvina Ocampo, e tem outros livros que temos muita vontade de fazer. Tem um livro, por exemplo, de correspondência entre a Victoria Ocampo e a Gabriela Mistral, que acho magnífico. Então, eu tinha uma lista grande de obras que queria traduzir e organicamente elas faziam sentido, mas não foi uma construção tão pensada, foi uma coisa natural. Por acaso eram todas autoras mulheres; por acaso eram livros que poderiam ser considerados não ficção, no sentido de que eles vão para o ensaio, para a biografia. O Tornar-se Palestina começa como um relato de viagem e aí depois você entende que ele é uma crônica política e pessoal muito mais ampla. Enfim, eram livros que, de certa forma, seguiam uma costura em comum. Essas autorias, esses livros todos, têm surgido a partir de experiências do trânsito, do deslocamento, da experiência da imigração. A Lina Meruane estava há muitos anos morando em Nova York, dando aulas na universidade. A Sylvia Moloy dava aula, uma argentina radicada há décadas nos Estados Unidos. Depois, a Margo Glantz, e a Carola Saavedra também acabou entrando, uma brasileira que mora fora do Brasil há muito tempo. A gente tinha muito essa vontade de juntá-las numa coleção. Hoje, fico pensando: “será que precisava ser um gesto tão contundente, tão feminista? Dar o nome Nos.Otras e só colocar mulheres, sendo que a coleção não nasceu exatamente por isso?”. Eram livros bons que nós queríamos publicar.

A coleção Nos.Otras, da Relicário Edições, que conta com a coordenação de Mariana Sanchez e Maíra Nassif. Fotos: Patrick Amorim/ Divulgação.
Patrick Amorim/ Divulgação.
Patrick Amorim/ Divulgação.

Agora, não saberia te dizer porque a prosa e a literatura que mais me interessa hoje é a literatura feita por mulheres, porque, para mim, é mais um gesto literário do que um gesto político. Acho que nós, feministas, devemos ocupar cada vez mais os espaços que nos cabem e, sendo uma agente de decisão no campo editorial, é claro que vou atuar em prol disso, mas sempre quero frisar que a coleção não nasceu para isso, sabe? É muito irresistível não utilizar essa desinência nominal do pronome “nós” em espanhol, o nos otras, porque cabe muito como gesto, mas, por exemplo, a revista Punhado só publica autoras, mulheres, e não tinha esse gesto tão exacerbado ou tão colocado, assim como colocamos. Hoje, quem está acompanhando a literatura na América Latina percebe a contundência e a força da autoria de mulheres. Nós queremos que cada vez mais mulheres vivam da escrita e não tenham que ter milhares de empregos e outras fontes de renda. Seria magnífico se todas pudessem viver da escrita. Nós também temos feito um gesto de buscar quem ficou lá atrás – autoras que não foram publicadas ou muito difundidas ou que até permanecem inéditas no Brasil. Até hoje, 50 anos depois, o caso da Sara Gallardo, ou mesmo até da Silvina Ocampo, demorou 50 anos para chegar no Brasil pela Companhia das Letras.

Entendemos que o Brasil pertence à América Latina, obviamente. Por um tempo, existia um pouco essa discussão, “será que somos América Latina?”, porque o Brasil sempre foi um pouco essa ilha que fala só o português, mas nós temos que lembrar que a América Latina fala diversos outros idiomas, é uma região muito plural, muito heterodoxa. Temos feito o esforço de não só trazer autoras brasileiras, mas também estamos buscando coisas inéditas. Agora vamos publicar um livro da Cidinha da Silva, por exemplo, na coleção Nos.Otras (já tínhamos da Carola Saavedra, uma brasileira-chilena). Todos esses outros livros que saíram pela coleção eram inéditos em português, mas eles já existiam em seu país; o da Carola, O mundo desdobrável, e o da Cidinha, que é o Quando as borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros, são livros que nasceram na coleção. Então, acho super importante esse gesto de fomentar a própria literatura brasileira dentro da coleção Nos.Otras.

Kaio: Nesta nossa edição de O Odisseu, propomos não somente um olhar para a América Latina como também para a autoria feminina. Quais as implicâncias políticas em se organizar uma coleção especificamente de autoras? Do ponto de vista estético, pode-se falar de características marcantes nos projetos das autoras publicadas pela Nos.Otras?

Mariana: Olha, Kaio, muita gente me faz essa pergunta, sabe? Mas é um pouco complicado tanto conceitualizar a América Latina quanto restringir ou tentar definir o tipo de literatura que um determinado grupo faz só pelo fato de ser mulher ou estar inserido em um meio geográfico, cultural. É evidente que há componentes culturais, históricos, políticos compartilhados dentro da América Latina. Quando a Mariana Enriquez, por exemplo, faz esse terror social, ela fala muito da ditadura, né? Quer dizer, desde o sul até o norte da América Latina, até o México, a gente vai entender do que ela está falando, porque são processos históricos, políticos, sociais que aconteceram em todas as latitudes aqui. No Brasil, nós entendemos o que é terrorismo de estado, nós sabemos o que é o fantasma como um corpo de um desaparecido na ditadura, o quanto isso é aterrorizante. Nós tivemos isso também, essa experiência, mas a literatura é sempre lida com questões universais do humano. Não vejo nada muito incomum entre essas mulheres que estão escrevendo hoje, como se existisse um véu em cima de todas essas autoras contemporâneas.

É evidente que há componentes culturais, históricos, políticos compartilhados dentro da América Latina. […] No Brasil, nós entendemos o que é terrorismo de estado, nós sabemos o que é o fantasma como um corpo de um desaparecido na ditadura, o quanto isso é aterrorizante. Nós tivemos isso também, essa experiência, mas a literatura é sempre lida com questões universais do humano”.
Mariana Sanchez.

Ao mesmo tempo, como eu dizia, as autoras que nos interessam são autoras que estão, de certa forma, numa fissura, numa ruptura de algo. Por exemplo, essas autoras migrantes, a Samanta Schweblin, por exemplo, que está há muito tempo desterrada, morando fora da Argentina, algo dessa experiência de ser migrante, de estar vivendo no norte global, sendo uma mulher latino-americana, é claro que isso cria uma ambiência, condições mesmo para você escoar parte dessas vivências na sua literatura. Isso é a coisa que mais me interessa – a condição do migrante, do desterrado, da identidade um pouco instável.

Agora, não poderia dizer que isso não aconteça com autores, sejam homens, sejam mulheres trans, e qualquer questão de gênero envolvida. O texto literário é muito maior do que todas essas questões, mas, percebo que alguns projetos editoriais conversam de certa forma. Tem pequenos grupos, fala-se no gótico latino-americano, fala-se um pouco nessa violência brutal, de certas poéticas, principalmente das autoras mexicanas; a Giovana Ribeiro, por exemplo, que é uma boliviana que trabalha muito a questão dos adolescentes nas cidadezinhas rurais, mas não daria para dizer que existe um projeto, assim como no boom latino-americano dos anos 1970 não era um movimento estético, era um movimento editorial de uma editora de Espanha que simplesmente ajudou muitos autores exilados a promoverem suas obras. Então, foi mais um gesto de mercado do que qualquer coisa. Embora ache que se criou um certo ideal estereotipado de América Latina um pouco prejudicial para as gerações que vieram depois, no sentido desse certo exotismo ou dessa coisa do realismo mágico, do fantástico, que depois as outras gerações tiveram que dar conta. Será que precisam dar conta? Acho que não, mas muitas se sentiram obrigadas. Aí, você vê autores tentando emular estilos do Gabo, do Borges, mas quem consegue desconstruir isso é mais interessante.

É muito interessante falar desse movimento, e aí não só na Relicário, mas de modo geral, das editoras brasileiras interessadas em resgatar, recuperar projetos que ficaram lá atrás e que ficaram um pouco silenciados. Por exemplo, a Aurora Venturini, uma escritora argentina que traduzi para a Fósforo, escreveu a vida toda e foi descoberta como escritora aos 80 anos de idade. Esse tipo de coisa está muito quente. Como falei, a Sara Gallardo, a Silvina Ocampo; agora vamos publicar pela Relicário dois livros bem interessantes de autoras mulheres dos anos 1950 – uma do México, a Josefina Vicens, vamos publicar um livro bem importante dela, El livro vacio (O livro vazio), um livro bem existencialista sobre a dificuldade de escrever um livro, e La mujer desnuda (A mulher nua), da Armonía Somers, um livro erótico, surrealista, super maluco, escrito por uma mulher uruguaia nos anos 1950.

Agora mesmo, enquanto estou aqui falando com você, estou traduzindo um livro de uma autora espanhola que foi publicado há 80 anos e só agora vai sair no Brasil, que é a Luisa Carnés. O livro se chama Tea rooms. Mujeres obreras, [em] que ela trata justamente do ambiente e do operariado das mulheres trabalhadoras sindicalizadas na Espanha dos anos 1930. São projetos editoriais que você não via um tempo atrás. As mulheres sempre escreveram, elas sempre estiveram publicando, mas será que elas estavam sendo vistas e devidamente editadas no Brasil? Muito poucas, né? A gente tinha Gabriela Mistral, algumas autoras, mas não tinha esse volume e essa consistência de publicação que está tendo hoje.

Kaio: A América Latina, enquanto conceito, pode ser considerada como uma homogeneização que desconsidera particularidades de seus países e reforça estereótipos. Como alguém que trabalha com literatura e cultura de alguns destes países, especialmente os do cone sul (Argentina, Chile e Uruguai) como compreende o conceito de América latina, e de que maneiras se aproxima e/ou se afasta dele ao refletir quanto a seu lugar como tradutora – alguém cuja atuação é central no processo de circulação da produção literária e intelectual em nosso cenário literário nacional?

Mariana: Olha, Kaio, não sei se cabe muito ao tradutor e ao editor [definir a América latina]. Claro, o que fazemos é um recorte. Recortar é um gesto político, é um gesto de apontar direções, com certeza, mas, o que percebo mesmo é um interesse literário, uma qualidade literária do que temos publicado aqui. A gente não fica olhando assim: “Na Bolívia, vamos olhar algo que seja contra hegemônico ou anticolonialista, que fale dos povos andinos”. Não, nós não olhamos tão concretamente para essas coisas. Olhamos para bons projetos literários mesmo. Percebo que existe hoje um interesse muito grande pelo ensaio literário. Um dos objetivos da coleção era ser uma coleção de ensaios. Mas aí também existe um campo muito grande que é o campo da biografia, que me interessa muito; o jornalismo literário. Então, como jornalista, privilegio um pouco isso; quero que tenha cada vez mais na coleção. Vejo que as mulheres estão conseguindo fazer muito isso no jornalismo na América Latina. Leila Guerriero, por exemplo, faz maravilhosamente na Argentina. Existem revistas que estão publicando esse tipo de texto. É um tipo de coisa que, independente da latitude onde essas autoras estão, elas estão produzindo com os materiais que têm. Sempre fico um pouco reticente de agrupar. Talvez este seja mais um trabalho para a crítica, e fico pensando que estamos trazendo material e munindo o campo editorial brasileiro para que a crítica venha e possa trazer uma palavra sobre esses livros. O espaço da Odisseu é um pouco isso, assim como tem outros veículos, mas cada vez menos no Brasil, infelizmente. Acho interessante o que você coloca; adoraria ler algo consistente a respeito, mas eu mesma não tenho muitas respostas. Como cada nacionalidade está dando conta das suas próprias histórias? Não sei, porque [são] de formas tão variadas, sabe?

Kaio: Este ano, assistimos aos Estados Unidos imporem seus próprios interesses políticos à soberania da Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira dama, Cilia Flores. Somaram-se à tensão política os discursos intimidadores do presidente Donald Trump a outros países hispano-americanos, a Colômbia e o México. Isto após o tarifaço imposto ao Brasil no ano passado. Em que medida a literatura hispano-americana reflete e responde à continuidade histórica das violências do norte global? Como você compreende o papel da tradução como parte do enfrentamento a estas violências?  

Mariana: Eu acho que, diante desse cenário global, da geopolítica que estamos vivendo, no meio de praticamente três grandes guerras, desse movimento tão obtuso do Trump, no sentido até mesmo de apagamento das múltiplas identidades que existem nos Estados Unidos, frente a tudo isso, a qualquer tipo de violência e de qualquer apagamento da multiplicidade de vozes, a nossa resposta tem que ser sempre escrever. Sempre a escrita, a arte de uma maneira geral.

Falando especificamente da literatura, mesmo não sendo partidário, tudo é político. Quando estamos publicando mulheres, especificamente do sul global, com suas próprias histórias, [como] o livro da Lina Meruane – uma grande reflexão sobre a condição palestina, sempre de um ponto de vista muito pessoal – isso tudo são formas de contribuir com o debate público. Cada vez mais, temos que enfrentar isso ampliando o imaginário do leitor, trazendo mais vozes. A nossa preocupação sempre é essa. Tenho, por uma experiência pessoal, um mergulho maior ali no Cone Sul, mas estou atenta. Gostaria de ter mais coisas até na coleção de outras latitudes da América Central. Até tem esse debate com a Maíra, porque nos surgem muitos livros interessantíssimos de ensaios de autoras chilenas e argentinas ou mesmo mexicanas e pensamos: “mas será que a gente não consegue diversificar um pouco mais?” Depois, fico pensando: “tudo bem, isso é super desejável, a bibliodiversidade, mas o nosso compromisso maior é com bons projetos literários”. Claro, não teria uma coleção inteira voltada para a geografia do Cone Sul, mas vai ser um pouco inevitável que tenha mais autoras chilenas e argentinas, porque proporcionalmente elas estão publicando e sendo mais editadas. Os mercados editoriais argentino e chileno e até o mexicano são muito amplos, então nos chega muita coisa, mas queremos ter mais vozes de mulheres indígenas, negras e um feminismo mais transdisciplinar ou transcultural; que a gente possa passar por mais poéticas.

Quando estamos publicando mulheres, especificamente do sul global, com suas próprias histórias, […] isso tudo são formas de contribuir com o debate público. Cada vez mais, temos que enfrentar isso ampliando o imaginário do leitor, trazendo mais vozes.
— Mariana Sanchez

Kaio: Diferentes literaturas parecem atrair diferentes públicos. Ainda que a circulação de obras estrangeiras no Brasil se dê majoritariamente em tradução para o português, a origem geográfica e o idioma do texto de partida parecem servir como marcadores para o mercado editorial e para a constituição da identidade de certos leitores. Há quem prefira os russos, se apaixone por autores franceses e italianos ou não abra mão dos clássicos ingleses. Pensando nisso, como você se tornou leitora de literatura hispano-americana? Seria possível traçar um perfil do público que lê autores hispano-americanos no Brasil?

Mariana: Bom, como falei para você, essa viagem que fiz foi um grande divisor de águas. Embora já fosse leitora de Borges, de Cortázar, talvez o que faltasse mesmo nas minhas estantes eram autoras e livros de outros países que não fossem os de sempre, digamos assim. Lia já muitos autores argentinos, já tinha lido Ernesto Sabato, mas não conhecia a obra da Sara Gallardo, por exemplo, que comentei. Nunca tinha lido Armonía Somers e essas autoras contemporâneas. Na minha família sempre teve muita leitura, tinha uma biblioteca, meu avô lia muita literatura russa, por exemplo. Li muita literatura europeia, russa, mas não tinha tantos autores latino-americanos na biblioteca da minha família. Esse foi o meu aporte, essa foi a minha contribuição para a biblioteca da família, ter trazido esses nomes.

Antes, as pessoas queriam ir para a Europa, para os Estados Unidos. Agora, as pessoas estão indo para os Andes, indo conhecer o Chile, a Argentina, o México. As pessoas estão interessadas nessa nossa identidade comum. Percebo que é um Outro muito próximo de nós; é um Outro que fala outra língua, mas que é muito próximo do brasileiro“.
— Mariana Sanchez

Não sei te dizer muito um perfil de quem lê hoje literatura latino-americana. Arriscaria que são majoritariamente mulheres, porque a maioria dos leitores de literatura no Brasil são mulheres. Isso você deve ter visto já nas pesquisas, [como a] Retratos da leitura no Brasil. Percebo que, hoje, com essa exposição maior do tradutor e com as redes sociais, me chega muita mensagem. Muita gente está lendo um livro que eu traduzi, daí me marca, daí me escreve. Isso aconteceu muito comigo com Pedro Lemebel, um autor chileno; um cara que era um ícone cultural no seu país e na América Latina de maneira geral, e no Brasil, era um total desconhecido. Depois que ele chegou no Brasil com essa antologia Pouco hombre, que saiu pela Zahar (e agora fiz a tradução do único romance dele, o Tengo miedo torero, que vai sair pela Companhia das Letras esse ano) o Pedro Lemebel começou a despontar no Brasil. Muita gente de 20, 25 anos, 30 anos [está] me escrevendo, dizendo que ficaram fascinados com esse livro.

Fico emocionada de ver essa novíssima geração lendo gente como Pedro Lemebel ou Aurora Venturini, essa mulher que foi descoberta aos 80 anos, mas que escreve de uma maneira punk, uma maneira super nova, inovadora, super desbocada. A nova geração se identifica muito com esse tipo de projeto literário. Sinto que existe um certo sentimento geral de uma exacerbação do sentimento latino-americano, das pessoas interessadas na América Latina. Você vê o Bad Bunny fazendo um super sucesso até nos Estados Unidos. Percebo muita gente viajando, descobrindo os territórios. Antes, as pessoas queriam ir para a Europa, para os Estados Unidos. Agora, as pessoas estão indo para os Andes, indo conhecer o Chile, a Argentina, o México. As pessoas estão interessadas nessa nossa identidade comum. Percebo que é um Outro muito próximo de nós; é um Outro que fala outra língua, mas que é muito próximo do brasileiro. Nós também vivemos com violências, com milícias, com pobreza, com desigualdade social, com arroxo dos programas sociais, dos governos de ultradireita. Temos compartilhado problemas sociais muito próximos. O brasileiro jovem e o brasileiro de todas as idades, que sempre leu e sempre se interessou… porque, no Brasil, a gente tem um pequeno grupinho de leitores, né? Infelizmente, é uma pequena seita… acho que essas são as pessoas que leem a literatura latino-americana.

Kaio: Para que um título chegue ao mercado editorial brasileiro, muitas vezes ele tem de já ter passado pelo crivo da validação cultural de outros países. Prêmios literários, listas de mais vendidos, repercussão internacional. Me recordo de algo que li em um ensaio da Gisèle Sapiro sobre o campo literário transnacional. Nele, a socióloga explica como mesmo autores de origens diversas do globo precisam, em grande parte das vezes, recorrer ao agenciamento e publicação por editoras de grandes centros globais a fim de obterem circulação para além de mercados locais. Qual a sua avaliação sobre isso? Há ainda que se superar formas simbólicas de colonização?

Mariana: É uma excelente pergunta. Percebo que ainda existe essa subserviência ou essa certa dependência do mercado editorial do norte global. Claro que, se um livro mexicano, chileno sai como finalista do prêmio Booker, já vai atiçar os olhos das editoras em outras línguas que não a inglesa. Acho lamentável, mas entendo que, dentro de um contexto tão precário das editoras, principalmente independentes, elas muitas vezes não podem se arriscar a projetos com pouca trajetória editorial, no sentido que aquela estreia editorial de um autor super desconhecido, numa cidadezinha que não saiu em nenhum outro idioma, será que uma editora brasileira vai querer de fato arriscar aquela obra? Às vezes, pode virar um grande sucesso, mas muitas vezes não. Então, sou solidária e entendo esse lado, mas, de certa forma, isso é uma maneira de colonização velada ou talvez de baixa intensidade.

Para mim, a referência não é o norte global, definitivamente são estudos acadêmicos, o que sai nos suplementos literários. Estou sempre por dentro dos catálogos das editoras que me interessam“.
— Mariana Sanchez

[Porém,] também sinto o fortalecimento desse espírito, esse interesse pela cultura latino-americana florescendo e dando mais autonomia para as editoras da região. Por exemplo, os títulos da coleção –muita coisa ali são apostas da editora, mas tem outros livros que não saíram em outros idiomas. Eisejuaz, quando fomos publicar no Brasil, estava naquele momento sendo traduzido para o alemão, mas era a primeira tradução para o alemão, para outra língua estrangeira. Não tinha saído em inglês ainda. Aliás, não saiu até hoje em inglês. Não ficamos reféns desse parâmetro, dessa chancela. Agora, como me balizo dentro desses centros de poder? Sempre brinco com um amigo tradutor, também do espanhol, Sérgio Karam – falamos que somos vassalos do império editorial portenho, porque tudo na Argentina converge para Buenos Aires, né? Tem centros, editoras em Córdoba, em Rosário, mas majoritariamente tudo passa por Buenos Aires. Ali é um centro editorial tão forte. Para você ter uma ideia, quando a obra do Freud saiu no Brasil, ela já tinha saído em espanhol na Argentina muito antes. Eles têm uma trajetória com a editora Sur, com outras editoras históricas muito sofisticadas, muito refinadas e já com muito lastro.

Então, para mim, a referência não é o norte global, definitivamente são estudos acadêmicos, o que sai nos suplementos literários. Estou sempre por dentro dos catálogos das editoras que me interessam. Gosto muito de uma editora chamada Caja Negra, da Entropía… são editoras independentes argentinas que fazem trabalhos maravilhosos. Para você ter uma ideia da centralidade e do poder que tem o mercado editorial argentino, a Han Kang, a sul-coreana que ganhou o prêmio Nobel em 2024, tinha saído por uma editora independente argentina chamada Bajo La Luna, em 2012, muito antes dela ganhar o Nobel e muito antes dela sair em inglês. Quer dizer, ela saiu do sul-coreano para o espanhol argentino e depois ela foi para os Estados Unidos. É quase uma inversão dessa lógica do sul global. É a América Latina de ponta cabeça, como queria o Joaquín Torres García. Dentro da coleção, a nossa baliza são os críticos, os trabalhos acadêmicos, até os influenciadores de livros (sigo muitos que trabalham dentro do mundo hispânico).

É claro, quando livros chegam em um Man Booker, eles geram interesse, mas, sendo muito honesta, quando eles chegam, já estamos por dentro desse livro há bastante tempo; já temos pesquisado em fontes primárias há bastante tempo. Aqui no Brasil, não digo só por mim, muitas editoras, muitos curadores, pessoas por trás de coleções já estão fazendo isso. Temos muita autonomia e muita força. O mercado editorial brasileiro é muito pungente, ele já é consistente, já tem uma larga trajetória. Então, sim, existe esse movimento que você falou, mas também existe um contramovimento.

Kaio: Uma das coisas mais fascinantes sobre a tradução literária são os diversos resultados obtidos quando um mesmo texto é traduzido por pessoas diferentes. Você nos permite adentrar em seu escritório? Ao traduzir do espanhol, especialmente obras hispano-americanas, quais são os desafios linguísticos e culturais mais recorrentes? Que elementos costumam resistir mais à passagem para o português? Como você lida com marcas locais, como gírias, ritmos, referências históricas e políticas, sem apagá-las, em movimento de domesticação, nem as manter totalmente estranhas ao leitor brasileiro, em movimento de estrangeirização?

Mariana: Quando a gente se debruça nos estudos de teoria da tradução, fica muito forte essas vertentes da domesticação e da estrangeirização. Depois, quando você vai para a prática (e tive a oportunidade de dar aula de tradução no ano passado, e vou dar de novo esse ano na formação de tradutores da PUC-Rio), percebo muitos alunos um pouco bitolados nisso: “agora tem que fazer tudo estrangeirizante ou domesticador”, e quando você vai para a prática, percebe que não é bem assim. Você vai misturar isso de uma forma que o que paute seja o bom senso. Quando tem desafios linguísticos, eu recrio tudo, vou transliterar tudo – uma gíria, uma expressão coloquial, uma fala, um ditado popular, um provérbio. Como é difícil isso, né? Eu sei que não existem equivalentes puros, nós sabemos disso, mas o que melhor se encaixa dentro daquele contexto, dentro do efeito daquele texto? Porque o desejável da tradução não é ser fiel à letra, mas ser fiel ao efeito. Pode ser o efeito de humor, ou um efeito erótico. Se você está reproduzindo a voz narrativa de alguém que fala com erros, com solecismos, como você translitera isso para o português? Eu quebro a minha cabeça, sou super artesã nesse sentido, de resolver isso da forma mais… ó, para você ter uma ideia, estou com um caderninho aqui agora, porque estava lendo um livro, daí anotei algumas palavras aqui: “balaústre”, “espavorido”, coisas que não tem nada a ver com a tradução que estou fazendo, mas pode ser que ative um pensamento meu e que me faça pensar em outras palavras, porque se estamos lidando com a nossa memória orgânica e não com uma memória de uma ferramenta de inteligência artificial, a nossa memória é falha, mas ela é muito mais criativa e ela estabelece pontes de uma maneira muito mais curiosa e valiosa.

Sanchez em seu escritório em 2020. Foto: Elisandro Dalcin/ Reprodução.

Reconstruo tudo quando o desafio está no plano da linguagem. Quando o desafio está no plano da referência cultural, das referências geográficas, políticas, não me furto de usar nota de rodapé quando isso é necessário. Já tive várias discussões com o Eric Nepomuceno, porque ele é um pouco irredutível nesse ponto. Ele diz que os tradutores que usam nota de rodapé deveriam ser banidos e presos numa masmorra no Ártico; ele é muito veemente com isso. Acho que explicar um neologismo é um pouco derrota mesmo, confesso. Isso não devemos fazer, porque o nosso papel é justamente resolver essas coisas. Agora, se você está traduzindo um livro do Pedro Lemebel, que sempre escreveu dentro do Chile, pelo Chile, sobre o Chile e para os chilenos, ele está cheio de referências à cultura de massa, programas de televisão, trechos de músicas da Violeta Parra, coisas que o leitor brasileiro não vai pescar, não vai saber. Isso vai virar uma coisa hermética, um bloqueio para o leitor. Quando alguém fala assim: “Ai, mas poxa, o leitor não quer baixar a cabeça e sair do texto e ler o tradutor ali no rodapé, porque em última instância ele está lendo o tradutor ali e não o autor”, mas, o tempo todo ele está lendo o tradutor, e todo mundo sabe que um livro literário é uma obra, um objeto estético e uma construção artificiosa; você sabe que aquilo foi escrito em outra língua e que aquilo está dentro de uma outra cultura, um outro sistema cultural. O que custa você baixar a cabeça e ler aquela referência e aquela explicação? Nesse ponto, super defendo sermos sempre estrangeirizantes no sentido de manter as coisas. Quando você está falando, por exemplo, de um vocabulário gastronômico, você vai deixar aquele nome daquele prato ou daquela bebida em itálico, no original, e vai explicar o que é aquilo.

Quando tem desafios linguísticos, eu recrio tudo, vou transliterar tudo – uma gíria, uma expressão coloquial, uma fala, um ditado popular, um provérbio. […] Eu quebro a minha cabeça, sou super artesã nesse sentido. […] Reconstruo tudo quando o desafio está no plano da linguagem. Quando o desafio está no plano da referência cultural, das referências geográficas, políticas, não me furto de usar nota de rodapé quando isso é necessário“.
— Mariana Sanchez

Agora, quando estamos falando do espanhol mesmo, acho, particularmente, que o grande desafio da tradução para o português é conseguir recriar o tom mais próximo daquele original, no sentido de que o espanhol é uma língua mais pronominal. Ela tem muitos pronomes oblíquos que usamos cada vez menos no Brasil. Então, “ele a viu” não, “ele viu ela”. Muitas vezes, isso é considerado um erro gramatical, e é, de fato, pela gramática normativa, mas, se você está dentro de um diálogo, em um texto super coloquial, por que você não vai usar isso?

Temos bons tradutores do espanhol fazendo traduções muito corretas, porém muito conservadoras, que soam muito formais, e isso é o grande desafio de quem traduz do espanhol, fora toda a parte dos falsos cognatos, de palavras que, às vezes, na pressa, acabamos traduzindo de uma forma não [adequada], porque a palavra está escrita igual, mas ela tem significado totalmente diferente. No Brasil, se você vai traduzir “saco”, não é “saco”, é “casaco”; “duelo” não é “duelo”, é “luto”, mas é claro que, às vezes, um tradutor apressado ou um pouco distraído pode cometer esses erros. Particularmente, não acho esses os piores. Acho que é a questão do registro, do formal e do informal, e quando estamos falando de obras com um viés muito coloquial temos que nos atentar a isso.

Às vezes, o revisor ou preparador do livro vai acabar querendo corrigir certas coisas. Não sou uma defensora ferrenha da gramática normativa e penso que nenhum tradutor deve ser. Temos que sempre prestar atenção no efeito que aquele original quer causar. Em Eisejuaz, aquele narrador em primeira pessoa, que é um indígena evangelizado, fala um idioma totalmente embolado, um idioma com um idioleto, algo muito próprio, e aqueles erros, aqueles marcadores da fala dele, tem que ser mantidos, coisa que uma ferramenta de inteligência artificial iria suavizar, certamente. Palavras muito fortes, muito pesadas, você não pode suavizar se aquele original está usando um palavrão, uma coisa forte. Temos que ter essa leitura, essa sensibilidade, estar sempre colado com o original, mas se permitindo ser criativo nas soluções, porque às vezes é isso, quando você está falando de tradução literária, está falando de tradução cultural também, e como você faz essa tradução cultural? Vai ter que buscar equivalentes no seu país que, muitas vezes, você vai ter que ser bem criativo para conseguir eles de uma maneira satisfatória.

Não é difícil fazer uma tradução do espanhol, mas, é difícil fazer uma boa tradução do espanhol.


[1] Pássaros na boca, de Samanta Schweblin, foi publicado primeiro no Brasil pela editora Benvirá, em tradução de Joca Reiners Terron.

Leia também: “Julio Cortázar segue vivo: seus leitores e influência estão por aí”, diz Emilio Fraia