
Carolina Maria de Jesus na maior encruzilhada do mundo
O enredo da Tijuca, nomeado apenas de “Carolina Maria de Jesus”, desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira, propõe apresentar a autora para além da imagem limitada ao sofrimento e romper com essa perspectiva que tem sido a única.
Por Kaio Phelipe.
Foto: Zélia Gattai (Acervo Fundação Casa de Jorge Amado/ Reprodução).
A relação entre literatura e carnaval tem se fortalecido nos últimos anos. Cada vez mais, os enredos das escolas de samba dialogam com livros, autores, personagens e conceitos literários. Isso ajuda a reafirmar que literatura não é um espaço restrito às elites, mas uma produção cultural que também nasce das vivências do povo e pode ser discutida e celebrada coletivamente.
Samba de enredo e carnaval, além de festa e comemoração, que já seriam suficientes, envolvem produção artística complexa e escolhas políticas e pedagógicas. Ao transformar obras literárias em desfile, as escolas mostram que literatura é uma prática social, que reconhece as interações entre as pessoas e circula para além dos espaços tradicionais de consagração.
As elites culturais brasileiras historicamente associaram cultura popular à ideia de algo inferior, e os desfiles das escolas de samba mostram o contrário e exemplificam que estamos falando de linguagens democráticas e acessíveis, que o povo entende e produz. A cultura popular, principalmente quando nasce das vivências, da oralidade e das tradições coletivas, é um dos tópicos essenciais na história de qualquer país. Ela registra experiências e sonhos de uma comunidade inteira.
Em 2026, a Unidos da Tijuca levará para a Marquês de Sapucaí a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus. A tradicional escola de samba, fundada em 1931 no Morro do Borel e integrante do Grupo Especial, escolheu homenagear uma das escritoras mais importantes do país, que dispensa apresentações.
Apesar do impacto de seu livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, publicado pela primeira vez em 1960, muitos críticos trataram, e tratam até hoje, o livro apenas como documento social, sem reconhecer seu valor literário. Carolina, que teve pouca instrução formal, foi frequentemente deslegitimada como escritora. Mas foi através da escrita que imaginou outra vida para si, e conseguiu consolidar sua obra, que se tornou fundamental para compreender a literatura brasileira.
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Carolina Maria de Jesus foi uma intelectual que construiu sua escrita a partir da própria experiência, registrando a realidade com consciência crítica e domínio narrativo, dialogando com o conceito de escrevivência, formulado décadas depois por Conceição Evaristo, que define a escrita nascida da vivência de mulheres negras, unindo experiência pessoal e coletiva. Em 2026, Conceição também foi homenageada na Sapucaí pela Império Serrano.
A presença de autores e livros na avenida não é novidade. A própria Unidos da Tijuca já homenageou Lima Barreto e Nelson Rodrigues em outros carnavais. Em 2024, a Portela desfilou com Um defeito de cor, inspirado no romance de Ana Maria Gonçalves, e a Acadêmicos do Grande Rio apresentou Nosso destino é ser onça, em referência à obra de Alberto Mussa. No carnaval de São Paulo, a Colorado do Brás já havia homenageado Carolina em 2022. Machado de Assis, Ariano Suassuna e Jorge Armado, autores extremamente populares, também são alguns dos que receberam homenagens das escolas de samba nos últimos tempos. Esses movimentos mostram que os sambas de enredo sobre literatura deixaram de ser exceção para se tornar parte de uma tendência.
“Ao homenagear Carolina Maria de Jesus em 2026, a Unidos da Tijuca reconhece e diz a um país inteiro que a escrita produzida nas margens também faz parte dos cânones”
O enredo da Tijuca, nomeado apenas de “Carolina Maria de Jesus”, desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira, propõe apresentar a autora para além da imagem limitada ao sofrimento e romper com essa perspectiva que tem sido a única. “Muda essa história, Tijuca”, diz um dos versos do samba, que continua: “Olhe em mim/ eu tenho as marcas/ me impuseram sobreviver/ por ser livre nas palavras/ condenaram meu saber”. A proposta é mostrar a complexidade de sua trajetória, falar das dificuldades, mas também das conquistas, dos momentos de alegria e do reconhecimento que teve em vida.
A ideia de que samba e literatura só fazem sentido quando encontram o outro ajuda a entender esse movimento. Como afirmou em um podcast a escritora Samanta Schweblin, “um livro fechado é só um objeto, para a literatura acontecer, alguém precisa o ler, dois dias ou dois séculos depois”. Quando a Tijuca levar Carolina Maria de Jesus para a Sapucaí, no mesmo ano em que sua obra ganhará uma adaptação para o cinema, através de um longa-metragem dirigido por Jeferson De, sua escrita e os cadernos que encontrou no lixo se reforçarão, outra vez, como patrimônio cultural.
O historiador Luiz Antonio Simas afirma que “carnaval é uma transgressão ao projeto colonial do Brasil”. Em seus estudos, ele argumenta que a festa permite que a brasilidade entendida como cultura popular prevaleça sobre o Brasil enquanto Estado. Quando a cultura popular ocupa o centro da mídia e se torna impossível de ignorar, a presença de autoras negras, faveladas e historicamente silenciadas no maior espetáculo artístico do mundo reforçam o deslocamento de poder simbólico.
Ao homenagear Carolina Maria de Jesus em 2026, a Unidos da Tijuca reconhece e diz a um país inteiro que a escrita produzida nas margens também faz parte dos cânones, e que a literatura é essencialmente uma expressão viva e coletiva. Trata-se de uma escolha que insere o poder do livro no debate público e o consolida como parte constitutiva da memória nacional.
Kaio Phelipe é escritor, editor, bibliotecário, colaborador da Mídia Ninja e autor de O que entendemos da noite e Todos nós sonhávamos em ser Carmen Miranda, com o qual foi semifinalista do Prêmio Oceanos.

