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Aclamação do Nordeste tira manual do brasileiro do eixo

De repente, falar do Nordeste sem cartilhas, a partir das próprias experiências, mostrou-se mais efetivo – e mais premiado – do que nos tempos do Cinema Novo. A complexidade estética acima da estética da seca e da fome.

Por Octávio Santiago.

Arte: “Paridade”, 2018, fotografia e fotomontagem, primeira camada: “Hildenehomem Sousa”, de Gê Viana, segunda camada: “Little.Big.Man.Oglala.Sioux.”


A ideologia do eixo está em crise. O Nordeste parece desafiar um discurso inferiorizante historicamente mobilizado para invalidá-lo, enquanto o mundo se mostra disposto ao aplauso. Globo de Ouro, Grammy Global, Grammy Latino e, no horizonte, o Oscar. Num país pautado pelo viralatismo, a ovação gringa perturba o manual do brasileiro padrão, que vê seu fio lógico ruir.

Mesmo “nacionalizados” pelo epistemicídio que sempre nos perseguiu, Caetano Veloso e Maria Bethânia seguem filhos de Dona Canô e da Bahia, e deram uma boa alegria ao Brasil. A vitória deles no concorrido Grammy, como Melhor Álbum de Música Global, reforça a vitrine do país no mundo. O que não se pode ignorar é que a chamada “música nordestina” e a “música brasileira”, tantas vezes propositalmente apartadas, se fundem nesse reconhecimento.

Sem recorrer ao coagido “sotaque neutro”, o também baiano Wagner Moura subverte os limites da aclamação. Um Globo de Ouro inédito e uma indicação ao Oscar igualmente sem precedentes. João Gomes e Mestrinho, made in Pernambuco e Sergipe, fizeram seus gramofones dourados virem “de mala e cuia”, como cantado no álbum premiado “Dominguinho”: bem à vontade nos temas e na maneira de cantá-los. De repente, falar do Nordeste sem cartilhas, a partir das próprias experiências, mostrou-se mais efetivo – e mais premiado – do que nos tempos do Cinema Novo. A complexidade estética acima da estética da seca e da fome.

Esse exalçamento também se percebe nas letras, com a literatura cada vez mais exportada do baiano Itamar Vieira Junior, que teve como abre-alas o prestigiado Prêmio LeYa, concedido ao seu “Torto Arado”. A vitória no LeYa, um concurso de língua portuguesa com sede em Portugal, foi decisiva para a projeção internacional do autor, antecedendo o sucesso absoluto no Brasil, com os prêmios Jabuti e Oceanos.

O cearense Stênio Gardel realizou o feito de emplacar o primeiro livro brasileiro premiado pelo National Book Awards, uma das mais importantes distinções literárias dos Estados Unidos. Venceu na categoria literatura traduzida, com “A palavra que resta”, vertido ao inglês, registre-se, pela potiguar Bruna Dantas Lobato.

O som dos aplausos internacionais dirigidos ao Nordeste chega em boa hora, num momento em que um levante de reenquadramento do país está em curso. A lógica da produção artística centralizada, que determinava o que era “nacional”, o que era “regional” e como esse suposto “regional” deveria se comportar, passa a ser contrariada. A hierarquia do CEP criou discursos opressivos e delimitou margens.

O que se escancara nesse passado-presente é uma espécie de colonialismo interno, ou, mais precisamente, uma geografia do desprezo. Algo que encontra origem nas disputas regionais da virada dos séculos XIX para o XX, em picuinhas políticas, sociais e econômicas que deram corpo à ideia de que havia um Brasil que dava certo, a quem se deveria servir, e um Brasil que não dava certo, a quem se deveria virar as costas.

Nessa disputa, quem se diz centro logo trata de instituir uma periferia, com chancela simbólica inclusive das artes. Falar do Nordeste sempre acionou uma exotização programada, guiada pela cartilha do atraso alheio. O cinema descentralizado, por exemplo, longe da concentração Rio-São Paulo, permite hoje que se conte o que se quer, e que se desloque por completo o eixo narrativo para Maceió, Fortaleza ou Recife. “O Agente Secreto”, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, desafia o catecismo do Sul.

Um discurso de inferiorização que, ainda, não é página virada: ele se atualiza nas novas tecnologias. Como já denunciado, sistemas de inteligência artificial, a exemplo do ChatGPT, treinados a partir de textos disponíveis na internet, acabam reproduzindo e amplificando preconceitos regionais, associando o Nordeste a atributos desfavoráveis em contraste com outros Brasis. Uma forma contemporânea de discriminação que atende pelo nome de racismo algorítmico regional. O velho perigo da história única, agora automatizado.

A libertação na forma de fazer expõe o quanto o engessamento do Nordeste, transformado em caricatura, obedeceu a uma lógica cruel de mercado. A nova coleção de Wagner Moura demonstra que nunca houve qualquer obstáculo imposto ao “falar nordestino”. “O Agente Secreto” estreia o Brasil na categoria de Melhor Elenco do Oscar com cada intérprete falando em seus próprios termos, sem tutela ou concessões. Nunca foi sobre “dia” ou “djia”, “mainha” ou “mamãe”. Sempre foi sobre geopolítica da virtude.

O carisma aclamado de João Gomes, que evoca o sertanejo, definido como “um forte” por Euclides da Cunha, revela-se, na verdade, como uma figura de densidade emocional e passividade aparente, o exato oposto do Hércules-Quasímodo de “Os Sertões”. Já no caso de Caetano, cuja naturalidade é suprimida desde o Tropicalismo, a operação foi outra: o apagamento da origem. O Brasil organiza suas prateleiras simbólicas alternando métodos, acionando o local de nascimento apenas quando convém.

Longe da falsa ideia de hierarquia regional, prevalece a competência artística. Longe de quem nos olha atravessado, periféricos, somos centro. Longe do Brasil que quer ser Europa ou Estados Unidos, na própria Europa e no próprio Estados Unidos, somos Brasil. Entre viralatismo e xenofobia, a porção de país com selo de qualidade descobre que o mundo opera por outros critérios, e que o selo ostentado sempre foi fruto de uma autoatribuição.


Octávio Santiago é jornalista, pesquisador de identidades e estereótipos e autor do livro “Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste” (Autêntica, 2025).

Foto: Rierson Marcos.